Sexo

Pagando pra ter

por Fernando Puga | 05/01/2006

A prostituição, saudada comumente como a mais antiga das profissões, veio dar às portas do século XXI, disseminando curiosidade sobre o prazer do sexo pago.




Pagando pra ter

Saudada pelo lugar comum como a mais antiga das profissões, a prostituição veio dar às portas do século XXI gozando da mais plena vitalidade, pelo menos no que diz respeito à curiosidade geral sobre o funcionamento do metiê. Provas disso, no Brasil, são os intermináveis debates televisivos que confrontam, diariamente em horário nobre, prostitutas e garotos de programa profissionalizados ou não, comentando os bastidores de suas atividades. Regada pela água da mesma polêmica, o fenômeno Daspu levou o assunto com ironia ao mundo da moda. E duas recentes pesquisas publicadas na Europa revelaram os perfis dos clientes da prostituição e apontaram um dado intrigante: nos últimos dez anos, ao menos na Inglaterra, dobrou o número de adeptos ao sexo pago. Mas, afinal, onde estão as razões para esse crescente sucesso?

Entre os homens, já sabemos muito bem que ingredientes como comodidade, prazer e falta de compromisso são pra lá de atraentes para esse público que, unindo o útil ao agradável, ajudou a fazer a história da profissão. O engenheiro Mauro Quintas, 47 anos, solteiro, é cliente das "meninas" há pelo menos 20 anos. "Gosto pela facilidade, pela variedade e principalmente pelo prazer de ter sexo sem magoar uma mulher por não querê-la novamente", reconhece. Ele afirma que, tanto para si quanto para a maioria dos outros clientes, o recurso do sexo pago nasce na diferenciação, para ele de origem cultural, que homens fazem entre amor e sexo. "Tenho amigos casados e inteiramente apaixonados por suas mulheres que contratam prostitutas. Alguns deles, inclusive, porque o sexo no casamento chegou a zero", comenta.

A pesquisa encomendada por uma ONG humanitária e publicada pelo jornal francês Le Monde no começo do mês tentou traçar um perfil do cliente da prostituição. O resultado final classificou-o em três tipos básicos: os homens isolados que não têm oportunidades em encontros com mulheres, os que estabelecem diferenças radicais de papel entre esposas e garotas de programa e os chamados alérgicos a envolvimentos sentimentais. A socióloga Gabriela Leite, ex-prostituta que hoje coordena a ONG Da Vida, a que esta vinculada à grife Daspu, confirma em parte as revelações da pesquisa. "O homem procura uma prostituta basicamente por dois motivos: não existe compromisso e é mais barato que conhecer uma garota num bar e fazer toda uma onda para conseguir levá-la para o motel. Tem uma terceira questão que é uma história de fantasia. Tem homem que gosta de freqüentar prostíbulo porque acha legal o papo e gosta do ambiente", comenta ela, acrescentando que o gosto transcende as diferenças sócio-econômicas. "Os executivos casados vão muito para as termas, os solteiros e pobres vão a maioria para a zona", diz.

Gabriela garante, no entanto, que, por incrível que pareça, atenção é aquilo que os homens procuram junto às meninas. "É impressionante, eles gostam muito de conversar. Falam da própria vida pessoal, dos problemas conjugais. Para eles, essas coisas são muito legais porque se ele encontrar na rua, ela faz de conta que nem conhece, é um confessionário. É uma oportunidade de se abrir. Na zona, o homem pode ser o que ele é e pode fazer tudo o que ele quer fazer. Se ele quiser vestir uma calcinha e um sutiã e ficar andando pela sala e pedir para a mulher falar 'você é linda', ela vai falar e não vai contar para ninguém", conta a socióloga.

Já entre as mulheres e os garotos de programa, as relações se expandiram muito nos últimos anos. Antes, recurso folclórico de viúvas ricas e solitárias, a prostituição masculina atingiu, com a liberação sexual e comportamental femininas, um público em parte semelhante ao masculino: mulheres jovens, bonitas, em busca de aventuras com sabor proibido. No entanto, há um dado que se mostra quase uma regra entre as clientes: são praticamente todas solteiras. "E as que não são vêm com os maridos", reconhece o garoto de programa carioca Fernando que, por sinal, é casado. "Mas ela não sabe de nada. Não faço programas à noite porque não quero ficar inventando desculpas para sair e também porque quero aproveitar meu tempo para ficar com ela", acrescenta.

Fernando trabalha com cinco clientes fixas, sendo que duas delas o contrataram por via de seus maridos. "São duas mulheres na faixa dos quarenta anos, casadas com homens bem mais velhos que não têm mais atividade sexual. Eles pagam para não perder suas esposas, usando meu serviço para garantir o prazer delas", revela.

A outra faixa de público feminino cede aos prazeres do sexo pago pelo gosto extraordinário. A produtora Flávia Gamma, triste e revoltada por ter sido largada pelo namorado, caiu num show de strippers masculinos na companhia de amigas. Não resistiu à tentação e pegou o telefone de um dos rapazes do show. "Demorei alguns dias para tomar coragem e ligar. Combinamos num motel e eu cheguei antes para esperar. Foi muito bom, ele me tratou como uma rainha. Só me senti constrangida quando o cara olhava para o relógio e, no final, quando tive que pagar. Não sabia direito como agir", conta. Flávia ainda voltou a encontrar o rapaz algumas vezes e garante que o prazer e o envolvimento só aumentaram. "Fui me sentindo cada vez mais à vontade e segura. E acho que me tornei mais sedutora com quem me interessa a partir desses episódios", garante.

No entanto, o sexo pago não é garantia de prazer. Quem já passou por más experiências afirma que o resultado é catastrófico. "Já tive bons e péssimos momentos com prostitutas. Meninas que não se preocupavam com a higiene, que tinham comportamento extremamente passivo ou que diziam besteiras muito grandes, daquelas de broxar", lembra o analista de sistemas Alexandre Couto. Motivada por uma antiga fantasia sexual, a advogada Lúcia Santos procurou um garoto de programa pela internet e também passou por maus bocados. "Vi a foto, achei que era meu sonho de consumo. Mas na hora H, me senti péssima, suja, uma prostituta com culpa. Tive ainda mais duas experiências depois, também muito ruins, e agora não procuro mais", conta ela, ressaltando que, até nesse momento, a relação entre homens e mulheres com a prostituição tem fortes diferenças.

Para o sexólogo Maurício Nunes, do Instituto Paulista de Sexualidade, a razão central desse conflito é tão velha e famosa quanto a polêmica atividade: a educação repressora que trata o sexo de formas diferenciadas para meninos e meninas, transformando-o em tabu. "As mulheres buscam a aventura, mas se sentem culpadas quando agem fora do convencional e percebem que acabaram por infringir seus princípios morais. Já para os homens, a visão é de algo combinado e calculado, que afasta o fantasma da insegurança e o medo da rejeição. Mas se a prostituta não representa prazer e compreensão, a frustração é enorme", diz ele. O segredo é estar bem com seus atos. Satisfazer uma fantasia é o máximo, desde que ela não seja vista como um bicho-de-sete-cabeças. Há outras formas de se conhecer e se realizar. E, olha que ótimo: de graça!

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