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A estatística pode ser tirada com uma simples ida a qualquer jornaleiro. Estão lá expostas um sem-número de revistas eróticas com fotografias de mulheres nuas, voltadas para o público masculino de todos os gostos, credos e cores. Agora procure por publicações eróticas com homens nus. Se você encontrar duas, considere-se uma sortuda. E, se por acaso, uma delas for voltada para o público feminino, tenha a certeza de que seu jornaleiro não fica no Brasil.
Em pleno século 21, a imagem do homem nu ainda é um enorme tabu. As revistas de homem pelado são um mercado incipiente e sua pouca variedade, em tese, se justifica: a sexualidade feminina não excita pelo apelo visual. Será mesmo?
O primeiro nu
Quando começou a florescer, entre 1830 e 1840, a fotografia tinha como principal função retratar pessoas. O que antes era acessível somente aos nobres, tornou-se comum para todas as classes sociais. Os fotógrafos perceberam então um mercado emergente, o que fez surgir a comercialização de fotografias que retratavam objetos, casas, paisagens e, finalmente, os nus.
Segundo o historiador David Leddick, autor do livro "The Male Nude" ("O Homem Nu") (Ed. Taschen), a sociedade da época impôs a comercialização exclusiva de fotografias de nus femininos com fins eróticos disfarçados sob uma ótica artística. Como a maioria dos homens não gostava de se ver nu, também não questionava se alguma mulher poderia admirar a beleza artística contida em um nu masculino, muito menos se havia homens que pudessem admirá-los dessa forma.
Os primeiros nus masculinos da história da fotografia surgiram em 1872, com fins científicos. Nos Estados Unidos, o britânico Eadweard Muybridge se valeu de homens nus, como também mulheres, animais e até ele próprio, em experiências para retratar a locomoção. Seus estudos foram publicados em 1887 e causaram escândalo por mostrarem homens pelados, mas serviram de estímulo para outros artistas que deixaram as justificativas científicas de lado e seguiram fotografando nus masculinos.
Para se ter idéia do tabu que a imagem do homem nu representava, Thomas Eakins, considerado o maior pintor norte-americano do século XIX, usou os trabalhos de Muybridge na composição de suas pinturas e acabou forçado a renunciar ao cargo de professor da Academia de Belas Artes da Pensilvânia por trabalhar com modelos masculinos nus em uma turma mista.
Entre o final daquele século e o começo do século 20, os alemães Barão de von Gloden e seu primo Wilhelm von Plüschow fotografaram jovens rapazes trajando apenas sandálias e turbantes simulando cenas da Grécia Antiga. Como não tinham o objetivo de servir de base para pinturas, essas fotografias são consideradas os primeiros nus masculinos com objetivo artístico puro e simples. Mas, numa sociedade hedonista, foi inevitável que elas passassem a ser consumidas como material erótico. E assim aconteceu: as fotografias do barão venderam muito, mas não para as mulheres. Desde aquela época, eram os homens, homossexuais, quem consumiam material visual erótico de nu masculino.
Foi também nessa fase que astros do cinema e da dança, como Rodolfo Valentino, Ramon Navarro e Nijinsky foram fotografados nus ou seminus, sem que tivessem consentido com isso. Até a Segunda Guerra Mundial, a reprodução fotográfica de belos físicos masculinos, não necessariamente sem roupa, se tornou tão comum que fez crescer rapidamente o culto ao corpo. Esse comportamento fez surgir as primeiras revistas voltadas para os fisiculturistas mas a venda dessas publicações além do meio das academias de ginástica, logo fez com que as fotos se tornassem cada vez mais sensuais.
Nessa época, o nu masculino ficou sob a mira de governos, igreja e conservadores em geral, o que levou a imagem do homem como veio ao mundo para o comércio ilegal, situação que perdurou em muitos países até a década de 60 do século passado.
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