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Compulsão é a busca incessante pela realização de atividades que, a princípio, são prazerosas. Entretanto, quando elas já não conseguem trazer saciedade a quem pratica, podem se tornar vícios. Há pessoas que têm compulsão por comprar, por jogar, por bebidas alcoólicas, por drogas, por comida... e por sexo. É claro que gostar de fazer sexo é uma coisa comum, saudável e prazerosa. Tem gente que adora - e não sem motivos! No entanto, quando esta preferência passa dos limites e, ao invés de trazer prazer para o praticante e seu parceiro, causa problemas e aflição, algo está errado. O vício por sexo, que ultrapassa a linha do simples desejo ou tesão habitual, é, também, uma compulsão, chamada de hipererosia. E quase sempre esse distúrbio pode passar despercebido por familiares, amigos, e inicialmente até do próprio sexaholic (ou sexólico).
Daniele*, de 30 anos, assume que é uma compulsiva sexual: "Quando adolescente, virei a 'ovelha negra da família'. Comecei a me envolver com garotos aos 13 anos e não parei mais. Na escola, na faculdade, em festas... Aquilo tudo para mim significava prazer e liberdade sexual. Mas só depois de muito tempo percebi que era, na verdade, uma prisão. Eu era escrava dos meus próprios impulsos e desejos", afirma ela, que perdeu a conta de quantos homens já levou para a cama. "Nos últimos 15 anos, acho que nunca fiquei mais de um mês sem namorado ou sem manter relações sexuais com alguém", garante.
Daniele passou por situações tristes e delicadas na infância e na adolescência, como a perda do pai, o abuso sexual aos 11 anos e o envolvimento com drogas, aos 17. "Não sei até onde esses fatos me influenciaram, mas sei que as drogas me fizeram ter um comportamento muito auto-destrutivo. Cheguei a contrair doenças porque não me cuidava, pensava apenas no momento do prazer", conta. As atitudes de risco de Daniele a fizeram tentar o suicídio com 23 anos. Mesmo deprimida, ela não largava seus vícios: "Comecei a ter crises de anorexia porque queria ficar mais magra e atraente. Não conseguia parar de querer seduzir os homens e me entregava facilmente a qualquer um que se interessasse. Depois que rolava de tudo, eu me sentia horrível, me odiava, me achava pior do que uma prostituta, pois eu não vendia meu corpo, eu o dava. E a troco de quê?", desabafa.
Para Daniele, o ponto alto da satisfação que tanto procurava não ultrapassava a fase da sedução."Quando as transas eram péssimas ou escassas, e eu buscava o orgasmo sozinha mesmo - quatro ou cinco vezes por dia. Nos últimos anos, nem assim eu sentia prazer. O desejo que eu tinha era algo mecânico. Ficava até com mulheres e nada adiantava. Vi que estava doente", comenta Daniele, que, após muitas tentativas fracassadas, finalmente procurou tratamento com psicólogos e apoio junto ao grupo de Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA), uma espécie de Alcoólicos Anônimos (AA) para compulsivos sexuais. Está há três meses em "celibato", período que define como uma recuperação, no qual evita contatos mais íntimos com pessoas.
Segundo o psicólogo e terapeuta sexual João Batista Pedrosa, a repetição desenfreada da atividade (no caso, sexual) ou da vontade de praticá-la pode indicar a compulsão. "O comportamento compulsivo tem uma funcionalidade na vida da pessoa, como qualquer comportamento. Em muitos casos, a pessoa se condicionou - que pode ser fazer sexo, comer ou usar drogas - com o alívio de tensão ou estresse. Também pode ter uma função de fuga de um ambiente que é aversivo ou estar ligado ao Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)", explica Pedrosa. "O compulsivo está querendo sempre repetir determinada atividade: sexo, comida, drogas, colecionar objetos etc. Em alguns casos, a pessoa perde totalmente o controle num padrão de repetição que pode trazer sofrimento, causando prejuízos ocupacionais e sociais. Aí é hora de fazer um tratamento", alerta.
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