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Se observarmos bem a atual realidade social do nosso país, poderemos perceber uma sociedade carregada de problemas diversos, frustrações, dilemas e poucas esperanças de mudanças e melhoras. Uma sociedade cansada de lutar pelos seus direitos, mas que, ao menos, ainda pode contar com o trabalho constante de organizações que atuam voluntariamente pelos direitos de todos, tentando colaborar, apoiar, ensinar e cuidar, na medida do possível, de toda a comunidade. E isso sem ter como objetivo principal o lucro financeiro - o que, hoje, podemos dizer que é algo admirável e raro...
Hoje, existem ONGs voltadas para os mais variados problemas. Segundo a educadora Maria da Glória Gohn, autora do livro "Movimentos e lutas sociais na História do Brasil", as ONGs podem ser classificas em três grandes grupos: as caritativas (ajudam e apóiam vítimas de calamidades, refugiados, crianças carentes, idosos ou inválidos); as ambientalistas (relacionadas às questões do meio ambiente e do patrimônio histórico); e as cidadãs (voltadas para a reivindicação dos direitos da cidadania, tendo grande atuação junto às políticas públicas, fornecendo subsídios para a sua elaboração, fiscalizando-as ou fazendo denúncias, no caso de violações ou omissões).
Mas como elas apareceram?
De acordo com pesquisas realizadas nos últimos anos, durante as décadas de 70 e 80, algumas entidades representativas da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), associavam-se a movimentos sociais que surgiam, mas evitavam praticar a filantropia e ter muito contato com as empresas. A idéia, na verdade, era acabar com o chamado "assistencialismo", um termo pejorativo em uma época marcada pelo regime militar, em que não se podia pensar muito em contar com a colaboração do governo.
Foi somente durante os anos 90 que o quadro sociopolítico do nosso país começou a mudar - com a redemocratização, houve também uma mudança na forma de os brasileiros se relacionarem com as questões relativas à cidadania e ao exercício e à garantia dos seus direitos e deveres. Com o tempo, as associações voluntárias foram se multiplicando, e o foco que antes estava quase que exclusivamente na relação capital-trabalho passou a se voltar para os direitos humanos universais.
Anteriormente, apenas nos Estados Unidos era utilizado o termo "organização não-governamental" para denominar as instituições civis de cunho social. Aos poucos, a sigla ONG adquiriu maior relevância em nosso país, mas foi somente na passagem dos anos 80 para os 90 que surgiram, por aqui, essas organizações, que seguiram o modelo norte-americano e participaram, também, de redes de cooperação global. Sozinhas, elas passaram a elaborar e monitorar projetos e atividades, assim como prestar contas à sociedade sobre suas finanças.
Foi, então, na década passada que muitas dessas ONGs conseguiram obter ajuda internacional para financiar alguns projetos - diferentemente do que ocorria antigamente com os movimentos sociais, que não conseguiam apoio só porque não apresentavam enfoque empresarial.
O antropólogo Rubens César Fernandes, diretor executivo da ONG Viva-Rio, em artigo publicado em 2003 sobre o surgimento das ONGs, destacou o crescimento delas nos circuitos de cooperação global. Para ele, foram a independência e o pequeno porte dessas entidades que facilitaram essas relações não-oficiais e a estabilização local. "O valor das ONGs vem do que elas fazem e não do que elas representam. Não podem falar em nome de outros, e nem constituem agências de financiamento, o que as distingue, por exemplo, das fundações", afirma Rubens.
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