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comentários (0)Uma parte da História esquecida e pouco conhecida pela maioria. Em meio às mudanças do Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX e à efervescência cultural da cidade, a região da Praça XI se transformava e passava a abrigar vários prostíbulos. Ali nasceu a história das polacas, mulheres judias nascidas nos países do Leste Europeu e trazidas ao Brasil para se tornarem prostitutas.
“É uma história muito triste e dramática. Eram moças muito pobres, algumas já eram prostituas lá, outras não, eram enganadas mesmo. Os homens casavam com elas em cerimônias com validade religiosa, mas nenhuma garantia civil. Depois, elas eram trazidas para cá, onde eram obrigadas a se prostituir”, explica a atriz Luciana Mitkiewicz, neta de poloneses que resolveu pesquisar o assunto e levar o tema para os palcos.
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O trabalho resultou na peça “As Polacas – Flores do Lodo”, escrita e dirigida por João das Neves, criador do Grupo Opinião, uma das mais importantes companhias de teatro do país, que sempre teve como mote o chamado “teatro político”. O espetáculo entra em cartaz no Rio de Janeiro nesta quinta-feira, 20.
“Esse trabalho tem muito a ver com o toda a minha trajetória, foi até justamente por isso que a Luciana me convidou. Espero que o público goste e que consigamos colocar em pauta não só a história das polacas em si, mas toda a questão da discriminação, da segregação social, que persiste até hoje no Brasil de forma velada”, destaca das Neves.
“É uma reflexão sobre o nosso lugar, fala dessa época instigante do Rio também e dos nossos pontos positivos, como a solidariedade, e Das nossas manifestações culturais mais populares, que sempre procurei resgatar nos meus trabalhos”, explica o diretor.
Luciana conta que nunca soube da história até quatro anos atrás. “Conheci tarde e por acaso. Nunca entendia por que me chamavam de 'polaca' de uma maneira jocosa. O que me encantou foi a superação delas, a história da solidariedade”, destaca a atriz. “Elas eram totalmente excluídas: imigrantes, pobres, prostitutas e judias que não eram aceitas pela sua comunidade aqui no país”.
Para driblarem as adversidades, as "polacas" se uniram. “Elas foram pioneiras no processo de associação das prostitutas. Tinham uma associação beneficente que as protegia, auxiliava quando uma ficava doente ou quando morria e precisava ser enterrada”.
Esse ajuda mútua é o mote da peça. O autor retrata a relação das prostitutas judias com as negras recém-libertas, que também acabaram vendendo o corpo para sobreviver. Se no começo havia muita rivalidade, logo as mulheres se uniram. “Até hoje o assunto é um tabu na comunidade judaica porque vai contra essa noção de solidariedade que existe entre eles. É inadmissível que um judeu fizesse isso com outro judeu”, analisa Luciana.
Além do preconceito sofrido em vida, essas mulheres – e suas famílias - passavam por outro momento difícil. Pela religião judaica, as prostitutas não podem ser enterradas no mesmo local que as outras pessoas. Por isso, seus túmulos ficam próximos aos muros dos cemitérios e, muitas vezes, são violados. Para que não sofressem com esse estigma após a morte, as "polacas" criaram o primeiro cemitério judaico do Rio de Janeiro, o Cemitério Israelita de Inhaúma, tombado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Sem dúvida, mais uma prova da força e superação dessas mulheres que não podem ser esquecidas.
Serviço:
"As Polacas - Flores do Lodo"
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro
De 20 de outubro a 18 de dezembro

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