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Quando uma mulher decide ter um filho, milhares de dúvidas passam pela sua cabeça. Será que tenho capacidade de criar uma criança? Será que estou preparada o suficiente? No caso da adoção, esses questionamentos se multiplicam. Além da ansiedade natural de uma mãe de primeira viagem, há a preocupação com todos os cuidados que esse gesto implica.
A estudante de Direito Luci Rodrigues, 35 anos, sabe bem o que é essa sensação. Casada há oito, iniciou o processo de adoção de Letícia em julho de 2010. O primeiro encontro aconteceu por acaso. Disposta a adotar uma criança mais nova, ela conheceu sua futura filha através de uma comunidade virtual de apoio a pais adotivos. "A Letícia estava em um abrigo a cinco minutos da minha casa. Apesar de já ter nove anos, resolvi visitá-la. Ela era muito fechada e havia recusado outros interessados antes. Durante o nosso encontro, no entanto, mostrou-se muito receptiva e pediu que eu voltasse no dia seguinte".
Luci preocupava-se se ela entenderia o que de fato significava ser adotada. "Foi no meio de uma conversa franca que percebi que, apesar do abandono, das decepções e do medo de deixar o abrigo, ela queria vir morar conosco. No entanto, crianças mais velhas têm bagagem e isso deve ser respeitado. Não espere declarações de amor num primeiro momento, pois os vínculos vão sendo construídos no dia-a-dia. A adoção foi finalizada em dezembro de 2010 e a Letícia já recebeu sua nova certidão de nascimento com o novo sobrenome e o nome dos pais. Hoje, somos apaixonadas uma pela outra. Não podia ter outra filha senão ela", conta orgulhosa.
Estatísticas no Brasil
De acordo com dados publicados na Revista Época, em 2009, havia aproximadamente 22 mil pais potenciais registrados no Cadastro Nacional de Adoção, um número bastante superior às cerca de três mil crianças aptas ao processo.
Um estudo realizado em 2007 pela ONG internacional Associazione Amici dei Bambini verificou que 72% dos brasileiros preferem que elas sejam brancas. Destes, 67% pretendem adotar um bebê com cerca de seis meses, sendo que 99% efetivam a adoção de crianças com até um ano de idade.
O estado de saúde também pode ser um empecilho para que esses pequenos encontrem uma nova família. A grande maioria rejeita os portadores de necessidades especiais. A advogada com atuação na área da infância e da juventude, Silvana do Monte Moreira, confirma os dados, mas assegura que o cenário está mudando.
"Embora os possíveis pais ainda busquem por meninas recém-nascidas, o trabalho realizado por comunidades de apoio à adoção vem alterando esse perfil. Tenho conhecimento de várias adoções de irmãos, de crianças especiais e de adolescentes concluídas e mantidas com sucesso", explica Silvana, que também adotou uma bebezinha, hoje com dez anos, e é coordenadora do Grupo de Apoio Ana Gonzaga.
Ser assistido por algum grupo é uma ferramenta importante para quem deseja adotar. Nos casos que envolvem adoção tardia ou de crianças especiais, eles dão uma atenção especial abordando não apenas o lado positivo, mas questões conflitantes e práticas. "Antes de conhecer a Letícia eu já participava de comunidades virtuais e de encontros presenciais de apoio à causa. A troca de informações entre pais que já adotaram e que desejam adotar é muito rica. E o trabalho voluntário de psicólogos e de advogados auxilia bastante quem está nessa jornada", acha Luci.
Na próxima página, veja o passo a passo para adotar uma criança
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