O barato de ser mãe > Quatro filhos para quem não podia ter um

A atriz Elizabeth Savalla passou a adolescência acreditando, equivocadamente, que não podia gerar filhos. Teve um, dois e, com os gêmeos, quatro. Sem sair das novelas da Rede Globo.

por Redação

Passei toda a minha adolescência achando que não poderia ter filhos porque peguei toxoplasmose. Na época era uma coisa absolutamente nova. Houve uma junta médica para estudar dois casos em São Paulo: o meu e o de uma outra. Fui informada de que não havia possibilidade de eu ser mãe. Caso engravidasse, precisaria abortar. Do contrário, nasceria um bebê defeituoso. Maternidade para mim era fundamental. Soube disso com 12 anos de idade. Uma coisa é não desejar absolutamente ter filhos e outra é não poder. Queria muito. Fiz vários tratamentos. Com 19 anos não aguentava mais e disse: “Dane-se, não quero mais filhos”. Com 20 anos, me casei e engravidei. Conheci o meu marido e entre conhecer, namorar e casar, foram seis meses.

Casei nova e me tornei atriz. Tudo aconteceu junto. Veio o sucesso com a novela Gabriela. Uma loucura. Fiquei grávida e me lembrei da toxoplasmose. Através do teste, constatei que não tinha mais nada. Estava curada. Foi uma gestação legal porque trabalhei todo o tempo. Junto com a ”Gabriela”, gravava também a novela ”O Grito” que acabei em meados de abril. O personagem era virgem, mocinha. Eu com o barrigão e a câmera foi fechando, fechando… No último capítulo era ”close” só no olho. O Tiago nasceu no início de maio. Se a novela demorasse uma semana, ele nascia em cena. Ele foi muito querido, ansiado, esperado. Essa coisa de corpo para mim não tinha a menor importância. Engordar, o peito ficar enorme, nada me incomodava. Nem existiu tempo de pensar nisso porque trabalhava feito uma maluca. Sou uma sanfona, sempre fui. Engordei 10 quilos.

Os meus quatro filhos foram uma grande dádiva, queridíssimos. Desejava um monte de filhos. Penso que toda mulher grávida fica linda. A gravidez é uma coisa muito gostosa. E não há nada mais feminino. Primeiro porque homem não engravida. Segundo porque é um momento muito especial da mulher. Você não está mais sozinha, há uma outra pessoa dentro de você.

Quando olhei meu filhinho, senti a emoção maior de minha vida. Um calor que começou na ponta do dedo do pé, foi subindo pela batata da perna, pelo joelho, pelas coxas e quando chegou ao meu sexo, senti que veio uma coisa quente, como se tivesse saído a menstruação, o sangue. Continuou esquentando, subiu pelo meu peito que jorrou leite e comecei a chorar. Foi um líquido quente que subiu até à lágrima e a coisa mais bonita que eu senti na vida. Ver o rostinho daquela pessoa que ficou nove meses dentro de mim. Amamentava o bebê e cinco meses depois, estava grávida de novo. O Tiago estava com um ano e dois meses e o Diogo nasceu.

Foi outra gestação que curti muito. Não a esperava tão rápido. Diziam, naquela época, que se você está amamentando, isso não acontece. Engravidei e foi um barato. Estava renovando o contrato com a TV Globo e pensei que se soubessem do meu estado seria mais difícil renovar nas bases que eu pretendia. Estava com cinco meses e não aparentava barriga nenhuma. A tensão era tanta que no dia em que assinei o contrato, fui dormir normalmente e quando acordei no dia seguinte, apareceu uma barriga de cinco meses. Ela veio toda.

O parto do Diogo também precisou ser cesariana porque a última era recente. Ainda assim tentei um parto normal. Não aconteceu. O Diogo nasceu com um ótimo pós-parto. Com dois filhos pequenos para cuidar, sem empregada, com meu ex-marido gravando. Não tive tempo nem de sentir dor alguma. Era uma loucura. A volta da maternidade foi complicada porque minha mãe estava comigo e, de repente, inventou uma história e partiu. Não entendi nada e me senti muito carente. O pós-parto sempre desperta certa tristeza, depressão. Depois descobri: meu pai enfartou e ela precisou correr para São Paulo. Foi uma fase complicada.

Cheguei me sentindo completamente abandonada, com o neném pequenininho. Não dava nem para chorar muito. Tinha que correr. Era um para mamar no peito, o outro para comer, duas fraldas para trocar. O Diogo, o segundo, foi uma criança desde bebezinho absolutamente compreensiva e calma. A gente o chamava de boquinha porque ele estava sempre pronto para fazer uma boquinha. Todos os quatro foram muito calmos.

O médico queria ligar as minhas trompas. Não quis. Ele aconselhou eu esperar dois anos, pelo menos, porque o útero estava fino como uma folha de papel para gerar outro filho. Eu esperei os dois anos. Engravidei do Cyro e do Tadeu e sabia que seria a última vez. Então, como não acredito que não acontece nada por acaso e eu teria realmente que ter quatro filhos, vieram dois. Foi uma gestação mais ou menos tranquila.

Terminei a novela ”Pai Herói” em 79. Aconteceu uma coisa engraçada. Me ligaram da Globo, dizendo que era uma coisa ainda embrionária, prematura, mas que achavam que eu faria a próxima novela das sete. Aí respondi: ”Olha, é uma coisa embrionária, prematura, mas acho que estou grávida”. Me lembro que viajei para os Estados Unidos e lá me mostraram numa revista: ”Elizabeth Savalla inventa que está grávida e fica livre da novela”, como resposta vieram dois.

Quando eu estava viajando para Tóquio, o avião caiu mil metros, entrou num vácuo muito grande. Eu era a única passageira que estava em pé no avião, indo para o banheiro, pois era hora do jantar. Fui jogada no teto do avião porque ele perdeu a pressurização. O comissário de bordo felizmente se atirou no chão, era um vôo da Japan Airlines e por isso caí em cima dele, por falta de sorte do comissário, claro. Até então sabia que estava grávida, mas só de um. Continuei a viagem e nada aconteceu. Grávida de oito meses, a minha nova médica percebeu que o útero estava grande demais. Pediu uma outra ultra-sonografia porque desconfiou que poderiam ser gêmeos.

Eu me lembro de que deitada, comentei com o médico durante o exame: ”Você imagina, minha médica está maluca, desconfia que estou grávida de gêmeos”. O médico falou: ”Que são dois eu já sei, estou procurando o terceiro”. Foi muito engraçado, porque o Thiago e o Diogo ficavam brigando: ”Eu quero o neném para mim”, ”Não, ele vai ser meu filho”. Eles desejavam ser pais do irmãozinho. Na hora em que cheguei em casa foi ótimo porque disse: ”Não tem mais briga, cada um fica com um”.

Quando vi o Cyro e o Tadeu pela primeira vez, chorei muito porque achei que eles não vingariam. Eles eram muito compridos, muito magrinhos, não tinham carne, só, pele. Estão aí bonitões, grandões, saudáveis. Não tive leite para amamentá-los e eles eram alérgicos a leite artificial. Foi uma barra pesada. Botei a boca no trombone e descobri uma babá que alimentava a filha dela, a da patroa, e os meus filhos também. Uma vaca leiteira, graças a Deus. Isso salvou os meus meninos.

Quando me desesperei, comecei a ligar para as rádios, TVs, jornais, atrás de leite. Havia um único banco de leite, que funcionava como os bancos de sangue que existiam antigamente, isto é, as mães não passavam por nenhum tipo de exame e eram caríssimos. Isto gerava um problema social sério. As mulheres, geralmente muito pobres vendiam o leite. Quando começava a secar, engravidavam novamente para poder vender. Com o dinheiro alimentavam os filhos. Isso era uma bola de neve.

Cinco anos depois da minha luta, foi inaugurado o primeiro banco de leite humano do Pronav/LBA. Me convidaram para ser madrinha deste, exatamente pelo fato de ter lutado por esse projeto. Durante cinco anos inaugurei 22 bancos por todo o Brasil. Um trabalho voluntário que divulgava, não apenas, a importância do aleitamento materno, mas também promovia cursos profissionalizantes. Este projeto dava assistência alimentar e depois pediátrica para as mulheres. Infelizmente, por motivos políticos, D. Rosane Collor extinguiu-o.

Muitas coisas boas acontecem na minha vida, mas sem dúvida alguma, ser mãe é uma das melhores coisas que me ocorreu.

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