Casa e Família

Nossos velhos

por Lívia Diniz | 02/09/2007

O tempo passou, você cresceu e eles envelheceram. O que fazer agora?


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Nossos velhos

Eles nos deram tudo: casa, comida, educação, oportunidades de vida, colo, amor, carinho. O tempo passou, crescemos, fomos à luta. Agora são nossos velhos que precisam de carinho e cuidados especiais. No entanto, nossa vida corrida e atribulada nos impede de atender completamente suas necessidades. O que fazer então: recorrer a uma casa de repouso ou mantê-los aos cuidados da família?

A executiva Silmara Toledo, 43 anos, viveu esse dilema e ainda hoje tem dúvidas se tomou a decisão certa. Com um ritmo de trabalho intenso e muitas viagens internacionais por mês, ela preferiu mandar a mãe, D. Neusa, 74 anos, para uma casa de repouso. "Não sou casada, nem tive filhos. Minha vida é meu trabalho. Mas minha mãe adoeceu e ficava muito tempo sozinha em casa. Ela só podia contar comigo porque meu irmão mora fora do Brasil. Mas eu não tinha condições de dar o suporte que ela estava precisando. Juntas, decidimos que essa seria a melhor solução", conta ela.

Seria... se não fosse um detalhe: D. Neusa ficou cada vez mais triste e em processo de depressão. Mesmo estando num dos melhores estabelecimentos do tipo e rodeada de pessoas e cuidados, ela não suportou a pressão de ficar sozinha. Em pouco tempo, o processo de envelhecimento foi mais intenso, e mais intensas ainda ficaram as dúvidas de Silmara. "Será melhor ela ficar na minha casa com uma enfermeira de babá? Sinceramente, não sei o que fazer!", lamenta a executiva.

“Não devemos retirar o idoso do ambiente em que ele vive, onde estão suas referências e lembranças.”


O drama de Silmara também é compartilhado pela tradutora Helenita Garcez, 39 anos. O pai dela, Seu Américo, 82 anos, já teve acompanhante, foi para o asilo várias vezes e agora está na casa da filha, convivendo com o genro e os três netos. A filha garante que a tarefa não é fácil. "Todo mundo em casa teve que mudar a rotina e revezar nos cuidados com papai. Recomendo que meus filhos não levem os amiguinhos em casa para evitar tumultos, mas às vezes é inevitável. E sempre precisa ter alguém em casa com ele", descreve Helenita. De acordo com a tradutora, esse é o principal problema que a família tem que enfrentar. "De certa forma, você deixa um pouco de lado a sua vida em função do outro", constata.

Dedicação exclusiva

Para a psicóloga Elisa Magalhães, esse é um dos pontos que devem ser muito bem analisados. "Quando cuidar de um idoso se torna a principal função de uma pessoa, ela precisa avaliar se vale mesmo a pena. Senão ela pode ter uma sensação de frustração, achando que perdeu parte da vida em função de outrem, por mais que tenha muito amor e sentimentos positivos por trás dessa atitude", afirma.

Foi o que aconteceu com a fotógrafa Teresa Seixas. Por causa da mãe, Joana, ela teve que deixar a profissão de lado para dar apoio quando a doença de Alzheimer já estava fora de controle. "Foi dureza. Ela exigia 100% da minha atenção. Mas não podia simplesmente largá-la. Acho, sim, que poderia ter tentado encontrar outra solução porque fiquei seis anos afastada de tudo até minha mãe falecer. Ficar sem trabalhar pesa muito e o retorno ao mercado é bastante difícil", relata a fotógrafa.

Carinho e atenção

De acordo com a psicóloga Christianne Barbosa, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a solução ideal é deixar o idoso em casa em companhia de uma pessoa especializada, que possa ajudá-lo no dia-a-dia. Segundo ela, o asilo ou as casas de repouso devem ser sempre as últimas opções. "Não devemos retirar o idoso do ambiente em que ele vive, onde estão suas referências e lembranças. É claro que algumas vezes isso se torna inviável. Então, devemos conversar e perguntar o que ele pensa sobre a situação. Alguns preferem ir morar com a família e outros preferem uma instituição para não dar trabalho", afirma a psicóloga. E caso a saúde inspire cuidados específicos, o certo é verificar com o médico geriatra se eles podem ser feitos em casa ou em algum lugar especial.

Seja em casa ou em alguma instituição de longa permanência, é importantíssimo manter a mente do idoso ativa. Nada de tratá-lo como criança. "Devemos estimular sempre o idoso, lembrar o que ele gostava de fazer e incentivá-lo a continuar a desenvolver atividades diversas dentro de seus limites, é claro", explica Christianne. A psicóloga adverte que o ideal é sempre manter a autonomia do idoso, mesmo que ele tenha um alto grau de dependência do outro. Por exemplo, talvez ele não consiga se vestir sozinho, mas certamente conseguirá escovar os dentes ou escolher a roupa que quer usar. A família deve, então, estimular isso.

É sempre importante pesar os prós e contras em manter o idoso num asilo ou em casa. No ambiente familiar, algumas adaptações do ambiente e da rotina deverão ser feitos, porém, a companhia das pessoas queridas pode ser de grande valia. Ao contrário, mantê-lo num asilo pode significar muito conforto e segurança (se o local seguir as normas recomendadas pela SBGG), mas pode ser um ambiente isolado e sem vida para ele. "Reflita muito, não deixe nunca de conversar com o idoso a respeito. Ele é o maior interessado na questão", finaliza a psicóloga Elisa Magalhães.
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