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A psicanalista Márcia Gaspar Gomes faz um relato emocionante sobre os sentimentos que inundam a mãe quando ela começa a interagir com o bebê.
por admin

Por Márcia Gaspar Gomes

Nasceu! Uma linda menina, cinco dedinhos em cada mão, de chuca-chuca com lacinho cor de rosa. Claro, o chuca-chuca corre por minha conta, por conta da minha fantasia, daquela fantasia que, durante a gravidez, me fazia pensar em meu bebê já bochechudo e rosado, nada tendo a ver com a imagem revelada pela ultrassonografia. Feliz, radiante, mas exausta!

Eis-me em casa com este pequerrucho ser que, pasmem! desconheço. Desconheço a ele e a mim, como sua mãe. Simultaneamente, um encontro maravilhoso, mágico e um desencontro radical com aquilo que imaginava ser um amor incondicional e já estabelecido. Surpresa, me dou conta de que temos uma relação a ser construída.

Hoje, olhando para trás, no a posteriori de minha própria experiência e na escuta de tantas mulheres, amigas e clientes que generosamente me confiaram o relato de suas emoções vividas neste pós parto, constato que, de fato, trata-se de uma relação construída de lado a lado. Cada um faz a sua parte.

Se tentamos descobrir o que quer nosso querido filho em seu choro, em seu apelo, o nosso pequenino também nos dá de si, nos retribui cada grama que engorda, seu sono tranqüilo, seu mamar ávido, nos enchem de alegria, restaurando em nós a idéia de que estamos no caminho certo. Contudo, há dias em que tudo parece desandar, nada o satisfaz. Nos estranhamos. São nesses encontros e desencontros que nosso código afetivo se estabelece, se faz linguagem.

Entretanto, nem tudo são rosas. Sem que se saiba porquê, há momentos em que ficamos como que num limbo, invadidas pela tristeza, por uma sensação de vazio, a auto-estima indo para o quinto dos infernos. Atingidas radicalmente em nosso narcisismo, experimentamos uma posição contrastante com a sensação de plenitude e onipotência que experimentávamos quando carregávamos a pequena majestade em nossa bela barrigona, acariciada e prestigiada por todos. São momentos pontuais, não patológicos, estruturantes desta relação e deste sujeito em constituição.

Confrontadas com o vazio deste 'não todo saber', engatinhamos na bela construção desta relação absolutamente singular com cada um de nossos bebês; abrindo, desta forma, caminho para que, num futuro, nosso sujeito, tocado pela aventura do descobrimento se lance em sua trilha pessoal e criativa, possibilitando assim, a transmissão entre as gerações.

Marcia Gaspar Gomes é psicanalista, psiquiatra, membro do Núcleo de Atenção Intensiva à Criança Autista e Psicótica do Instituto Philippe Pinel e membro Efetivo do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro.

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