Mãe aos 40

Mesmo com as possibilidades oferecidas pelos avanços da medicina, ser mãe aos 40 anos ainda não tem garantias de tranqüilidade. Ainda assim, as possíveis complicações não costumam superar a realização desse sonho.
por admin

Ser mãe é um sonho que, há muito, não tem mais tempo certo para se tornar realidade. Os avanços da medicina, hoje, permitem que mulheres com até mais de 40 anos tenham uma gestação sem maiores complicações. Entretanto, isso não é suficiente para garantir tranqüilidade. Mesmo mais bem preparadas e maduras, muitas ainda ficam apreensivas e podem até enfrentar problemas com a maternidade. Nada que não seja superado com toda a alegria que cerca a chegada de um bebê.

A dona de casa Cristina Silveira, de 72 anos, engravidou pela primeira vez aos 37, numa época em que os receios de uma gestação tardia eram ainda mais comuns. Apesar de fora de seus planos – e principalmente de Augusto, seu marido - a gravidez aconteceu, mas foi interrompida logo no princípio por um aborto espontâneo. "Ficamos muito decepcionados, porque nos animamos bastante quando soubemos que iríamos ser pais. Não nos lembramos em nenhum momento que não estava nos nossos planos ter filhos. Nossa família também ficou superfeliz, minha sogra só tinha ele como filho e queria muito ser avó", recorda.

Apesar da decepção, Cristina não hesitou em engravidar novamente e, no ano seguinte, já esperava outro filho. "Procurei engravidar logo, pois tinha 38 anos e naquela época não era tão comum engravidar com essa idade. Também tomei a precaução de procurar um médico especialista em gestação tardia", revela. Roberto nasceu saudável e, três anos depois, ela repetiu a dose. "Quando engravidei do segundo filho, já tinha mais de 40 anos. Não foi nada planejado, mas eu só usava o método da tabelinha e acabou acontecendo. Na verdade, foi uma grande felicidade, até porque eu não queria ser mãe de filho único, isso é sempre complicado", comenta.

Mas suas gestações não foram das mais fáceis: Cristina perdeu sangue e precisou ficar de repouso no início de cada gravidez. Ainda assim, ela garante que não se arrepende de nada e que seu desejo de ser mãe superou todos os problemas. "Obedecia rigorosamente as ordens do médico, que mantinha um enorme controle sobre minha alimentação e alguns cuidados especiais, principalmente na segunda gravidez. Apesar de tudo, enjoei bastante e não sentia fome nenhuma. Há 34 anos não havia toda essa quantidade de exames que existe hoje. Era no escuro mesmo. Meu marido me acompanhava em todas as consultas e se revelou um pai maravilhoso quando as crianças nasceram. Ele me ajudou em tudo", derrete-se.

As crianças nasceram de cesariana, uma por ser grande demais para sua estrutura física e a outra para possibilitar uma ligadura de trompas, já que Cristina não queria correr o risco de mais uma gravidez. Ela somente lamenta ter amamentado seus dois filhos por pouquíssimo tempo, apenas dez dias cada um. "Na época, a orientação que recebi do pediatra foi de dar leite de vaca e suspender o peito. Não era como hoje, que existe uma enorme campanha de incentivo ao aleitamento materno", diz. Cristina garante que o fato de ter sido mãe numa idade mais avançada não atrapalhou em nada sua relação com os filhos, nem tão pouco a educação dada a eles. "Parei de trabalhar quando engravidei do meu primeiro filho. Achei que estava na hora de sair da vida de funcionária pública e me dedicar somente a minha família. Eles sempre estudaram e trabalharam, não me deram nenhuma grande preocupação até hoje", declara.

Já para a roteirista Marina Amaral, a maior dificuldade foi superar o trauma deixado pela perda de seu terceiro filho aos 38 anos que, por um problema congênito, nasceu morto no nono mês de gestação. "Entrei em pânico quando soube, aos 40 anos, que estava grávida novamente. Tinha muito medo do que poderia acontecer, mas eu e o João, meu segundo marido, queríamos muito um filho em comum. Então, apesar de todo o sofrimento que havia passado há pouco tempo, resolvi tentar mais uma vez", revela.

Marina conta que sentiu uma enorme diferença entre suas duas primeiras gestações - aos vinte e poucos anos - e sua gravidez aos 40. "Me senti cansada, pesada. Não inchei ou engordei mais do que nas outras vezes, só lembro que o dia-a-dia era mais fácil. No dia do parto do meu segundo filho, por exemplo, cheguei a subir a ladeira da minha rua carregando minha filha de dois anos no colo", comenta. Mas sua última gravidez foi bastante diferente. Marina teve um descolamento de placenta e precisou permanecer de repouso por um bom tempo. "Tive que tomar uma medicação que agravou o meu problema de retenção de urina e volta e meia precisava correr para que o médico pudesse esvaziar minha bexiga com uma sonda. Ele chegou a tirar dois litros de urina de uma vez só. Acho que todos que esses problemas foram provocados pelo meu estado emocional, pela enorme frustração que senti ao perder meu terceiro filho. Ainda por cima depois de passar por um parto normal, sabendo que o bebê estava morto. Foi horrível. Acho que só quem passou por uma experiência dessa sabe a dimensão da dor que é", desabafa.

Seu último filho, Estevão, tem menos de um mês, mas em breve terá que ser operado por causa de uma hérnia inguinal. Entretanto, Marina encara o problema como mais um desafio da maternidade, apesar da apreensão. Sua única preocupação atual é não virar uma mãe superprotetora e medrosa, pois sempre ouve seus filhos mais velhos reclamando dos colegas superprotegidos. "Não quero ser uma mãe ultrapassada, mas sei que terei 58 anos quando ele estiver com apenas 18", diz.

A psicóloga Berta Loyola, de 44 anos, planejou o nascimento de cada um de seus filhos, mas foi aos 41 que ela, finalmente, realizou o sonho de ter uma menina. Foi durante essa gestação que Berta mais enjoou, apesar de não ter enfrentado nenhuma séria complicação durante a gravidez. "Não senti nada diferente pelo fato de ter mais idade. Apenas me preocupei com os problemas genéticos que poderiam se desenvolver, mas realizei todos os exames disponíveis na época. Também toquei minha vida normalmente. Arrumava a casa, dava banho nas crianças, levava pra escola, natação e preparei o jantar até o dia do parto", revela.

Ela conta que foi o seu filho mais velho quem mais curtiu a gravidez, pois já não sentia tanto ciúmes. "O segundo até hoje coloca o pé na frente dela para ela tropeçar e cair", reclama. Sua maior preocupação é com a morte, pois ela imagina que terá menos tempo para conviver com sua filha mais nova. "Quando ela tiver 30 anos, eu estarei com 71", conclui.

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