Filhos. Aquelas pessoinhas mínimas que saem de dentro de você chorosas, indefesas e carentes de cuidados. Desde a primeira vez que os toma nos braços, você já pensa em como poderá criá-los da melhor forma possível; ensinar valores, instruí-los e amá-los. Afinal, eles são os bens mais preciosos para uma mãe. No entanto, quando ser mãe não representa a única função que a mulher exerce - ou se ela não quer ou não tem vocação para limpar bumbum de neném – fica difícil cuidar dos filhos em tempo integral. Nesse caso, pelo menos nos primeiros anos, a solução é deixá-los com uma especialista em crianças, as profissionais vulgarmente conhecidas como babás. E essas, digamos, mães de aluguel, ficam tanto tempo com as crianças, que acabam exercendo influência na sua criação.
Elas vestem, dão comida, banho, limpam, brincam, levam, pegam, contam histórias, ninam, e passam o dia com filhos que nem são delas. Muitas vezes, assumem o herdeiro seguinte e até os filhos dele. Foi assim com o advogado Ciro Machado e seus dois filhos, Lia e Mario, cuja babá transcendeu gerações. O resultado é óbvio: ela virou não apenas membro da família, como também influiu na personalidade de todos. "Minha babá cuidou de mim até os dezesseis anos. Dava banho, comida na boca e fazia todas as minhas vontades. Isso porque eu tive uma doença que me mantinha em casa e, por vezes, ela era a única pessoa que brincava comigo. Como não tinha filhos, dedicou a vida inteira a minha família", conta ele.
Eram tantos os mimos que até a mãe de Mário reclamava dos tratos dados pela babá, cujo amor era incondicional. Mas, sem dúvida, quem sofreu mais foi a mulher de Mário, a psicanalista Lúcia Machado. “Tem um episódio que registra exatamente a proporção dos mimos. Na nossa lua-de-mel, estávamos nos preparando para dormir e ele chegou, olhou pra mim e gritou: ‘não tem pasta de dente!’. Nesse momento, eu percebi que, se não tomasse alguma providência, ele seria sempre assim, tudo graças à baba”, relembra Lúcia, que tratou de consertar o marido.
Definitivamente, algumas mulheres não possuem muita aptidão para certas questões da maternidade. Querem ter filhos, sim! Só que cheirosos e quietinhos. Para atenuar o trabalho “sujinho”, contratam uma babá para trocar fraldas, preparar a mamadeira, enfim executarem toda a parte técnica. E elas parecem ser, de fato, especialistas na função – melhor do que muita mãe biológica por aí. A arquiteta Anita Soares que o diga: “Eu não tenho o menor jeito com crianças. Então, para que meus filhos não saíssem prejudicados, contratei uma babá”, explica Anita. É claro que, passado algum tempo, a pessoa deixa de ser uma estranha no ninho e vira membro integrante na formação da criança. A filha de Anita, por exemplo, de tanto ficar com a babá, passou até a adotar algumas expressões do seu vocabulário.
Atarefadas, sem jeito, paciência. A verdade é que, não importa o motivo, hoje em dia, está cada mais normal a criação de crianças junto aos serviços de babás. “Hoje em dia, você vai em festas infantis e só encontra crianças com acompanhantes, que ficam o tempo todo junto, vigiando, cuidando para que elas não sujem as roupas, comam direito e não se machuquem”, diz a advogada e mãe de gêmeos de cinco anos. Para algumas crianças, o período vai desde o berçário até os tempos de maternal e, às vezes, de escola. Aos dez anos de idade, Ingrid, a filha mais nova da professora Georgina Rodrigues, conta com a babá para praticamente todas as suas atividades. Com dois filhos criados e aos 45 anos, Georgina resolveu dar chance ao acaso e dar a luz à uma filha 15 anos mais nova que o seu filho mais novo. No entanto, depois de anos de fraldas trocadas, choros, mamadeiras, o gás já não era o mesmo. A solução foi adotar os cuidados da mesma babá, que já havia sido responsável pelos outros dois filhos. Com Ingrid, os cuidados foram maiores. “Minha filha tem babá até hoje. Até as amigas acham estranho, mas ela está tão acostumada a ter alguém com ela, que eu não consigo dar um fim nisso. Sei que isso a tornou mais infantil”, reconhece Georgina.
Seja por escolha, ou mesmo por falta de opção, quando o auxílio extra está dentro de casa, cuidando das crias, fica difícil não ter uma ligação afetuosa ou alguma influência na criação dos rebentos. A psicanalista Alba Duarte explica que é preciso tomar diversos cuidados na hora de contratar uma babá. “A mãe precisa dosar quanto tempo a criança passa com outra pessoa. Existem funções que só ela pode exercer. Claro que, se ela trabalha muito, a babá é essencial. Mas existe um limite nesses cuidados. A formação do filho como sujeito tem muito peso nessa idade, e a mãe deve se esforçar para estar sempre presente, pelo menos nos momentos mais importantes”, analisa a psicanalista. Outro fator relevante é ver bem quem é essa pessoa, suas qualificações e se ela é mesmo de confiança. Precaução nunca é demais. Ah, mais uma coisa: se a criança passa tempo demais com sua assessora, cuidado para ela não confundir e pensar que tem mais de uma mãe.
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