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Antes de casar, a pergunta que não quer calar é "E o casamento?". Depois, ainda não contentes, a pergunta de amigos e parentes muda "E o bebê? Quando vem?". No entanto, muitos casais ainda não estão certos se terão resposta a esse questionamento. Orçamento apertado, vida corrida, carreira que exige muita dedicação, violência... São tantos os quesitos que pesam na hora de fazer a encomenda à cegonha, que é inevitável a dúvida: será mesmo que os filhos são indispensáveis a um casamento feliz?
Não, obrigada
No que depender da psicanalista e economista francesa Corinne Maier, autora do polêmico best-seller No Kids - Quarenta razões para não ter filhos, recém-lançado na França, a resposta é não. A autora, de humor negro e ácido, curiosamente mãe de dois adolescentes, não poupa palavras quando fala sobre a decisão de ter filhos. Para a autora, eles custam caro, poluem e aprisionam. Corinne diz que, nesse último quesito, os filhos são muito criativos e certamente ficarão doentes quando você quiser sair para se divertir ou fazer uma festa com os amigos.
"Acho, também, que o relacionamento vai se desestruturando. Algumas pessoas dizem que isso só acontece quando o casal não sabe administrar, mas creio que não é o caso", diz a dona de casa Fabíola Moser, que acha que filhos são complicados mesmo. "Vejo pela minha amiga, o casamento dela balançou muito. Dar conta do trabalho, casa, filha etc. é difícil", ressalta. Fabíola jura que não é uma questão de abominar crianças, porque ela é apaixonada pela filha de uma amiga, que vez ou outra fica com ela. "Adoro a menina, mas, quando ela vai embora, é um alívio!", admite Fabíola. Segundo ela, filhos cansam e estressam além dos limites.
No Canadá, existe até um clube social internacional dedicado a casais e solteiros sem filhos, o NO KIDDING!, que tem filiais espalhadas pelo mundo inteiro. O sócio-fundador, Jerry Steinberg, afirma, logo de cara, no site do clube, que adora crianças, mas não 24 horas por dia. Ele diz que sua cota de paciência se esgotou após ajudar a criar os dois irmãos e conta que hoje é feliz mantendo o contato com as crianças de outra forma, através do magistério. Mas o objetivo do clube não é pressionar casais do mundo todo a cancelarem a vinda da cegonha e, sim, acabar com outro tipo de pressão: a sofrida por aqueles que optam por não ter filhos.
"A minha família me pressiona sempre que pode, é uma situação insuportável", desabafa Simone Aldano, administradora de empresas. Ela conta que, se quisesse ser mãe, pensaria em ter filhos só depois que tivesse certa estabilidade pessoal, financeira e profissional. "Agora estou muito mais preocupada em atingir meus objetivos profissionais e pessoais. Portanto, nesse momento, um filho só atrapalharia minha vida", explica Simone, que se tranqüiliza: "Ainda bem que meu marido pensa como eu! Por essas e outras nos damos tão bem".
De fato, uma boa parte de casais aqui no Brasil está resolvendo levar a vida exclusivamente a dois. Não restam dúvidas de que a taxa de fecundidade caiu. "Hoje, a média é de 2,1 filhos por brasileira", revela a socióloga Elisabete Dória Bilac, professora do Núcleo de Estudos de População (NEPO) da Unicamp. Segundo ela, a mudança de comportamento reside na percepção do que é família. "Antes, ter filho era uma obrigação, encarado como projeto de vida único após o casamento e modelo a ser seguido". Atualmente, a socióloga explica que as coisas são diferentes, porque existem vários projetos de família, de vida, principalmente por parte das mulheres, que muitas vezes colocam a carreira em primeiro lugar nos planos para o futuro.
Confiantes versus indecisos
"Com filhos, tudo fica mais gostoso", garante Maria Tereza Vianna, secretária, rebatendo quem diz que eles "prendem". "Dá trabalho, claro, mas é supergratificante", afirma Maria Tereza, "mãe velha", como ela mesma se denomina. A secretária lamenta não ter tido tempo para ter mais uns dois filhos e é categórica: "Conheço muitos casais que adotam. Se ter filhos não fosse tão bom, não existiria a adoção". Para ela, eles representam felicidade, a alegria de lutar com todas as forças por alguém, e acertar naquilo que os próprios pais erraram.
Elizabeth Kohnert é da mesma opinião. A bióloga, que engravidou um mês depois do casamento, também acredita que filhos são um tempero a mais na relação. "Eles completam a união, são uma continuidade dos pais e uma promessa de futuro", defende Elizabeth, para quem os filhos não privam de coisa alguma. "No início, quando são pequenos, exigem mais de nós. Mas, quando já estão criados, como é o meu caso, não nos privam de outra coisa senão da companhia deles, porque já têm seus próprios planos, toda uma vida para curtir", esclarece.
A psicóloga Miriam Felzenszwalb, uma das diretoras do Instituto Mosaico e membro da ATF-Rio (Associação de Terapia de Família do Rio de Janeiro), ressalta que ter, ou não, filhos é uma decisão única e exclusivamente pessoal, aliás, do casal. Quando bem tomada, só há bons frutos a serem colhidos. "As crianças podem ser um elo incrível e podem até fortalecer a relação que já está indo de vento em poupa", ressalta a psicóloga. O que, segundo ela, não funciona é ter filhos apenas para segurar uma relação que já não está mais dando certo. As conseqüências desse ato impensado comprometem não só o casal, mas também os filhos, que são quem mais sofrem com uma eventual separação.
Por isso mesmo, Cecília Mattos, consultora de moda, prefere deixar os filhos para depois, se é que realmente eles serão encomendados à cegonha. Cecília e seu parceiro até gostariam de ser pais, mas não fazem disso uma prioridade na vida do casal. "Acima de tudo, é uma grande responsabilidade colocar um filho no mundo, ainda mais hoje em dia, com tanta violência". Cecília sabe que um filho significa alegria, mas também preocupação, porque criá-lo hoje é uma verdadeira guerra.
E realmente é: sem contar o mundo lá fora, há mudanças de regras, horários, infra-estrutura, além de um gasto fenomenal que antes não existia na vida a dois. "Os primeiros anos são realmente de muita adaptação para o casal, porque a rotina muda completamente", revela a psicóloga Miriam Felzenszwalb. "É mesmo um terremoto", brinca Miriam. Afinal, a vida a dois deixa de existir e passa a ser contada a três, a quatro e sabe-se lá até quanto.
Para se ter uma idéia do que isso significa, o professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas Luís Carlos Ewald colocou na ponta do lápis os gastos da classe média de São Paulo com um filho, por ano, desde o nascimento até os 23 anos de idade. De 0 a 3 anos, lá se vão em média R$ 6.500; de 4 a 6 anos, R$ 15 mil; de 7 a 10 anos, R$ 17.500; de 11 a 14 anos, R$ 21.500; de 15 a 17 anos, R$ 22 mil e, finalmente, de 18 a 23 anos, é preciso desembolsar em média R$ 25 mil por ano. Não dizem que filho é um verdadeiro investimento? Está aí a prova e, uma vez feito o primeiro depósito, não há volta. "Filhos são um comprometimento de longuíssimo prazo, por isso, quando se tem o desejo de tê-los, é preciso certo planejamento antes da chegada da criança", aconselha Miriam Felzenszwalb.
A hora certa
No que diz respeito às emoções, não existe época certa para tomar a decisão de ter um ou mais filhos. Ela deve vir naturalmente e não devido a pressões. É assim que a consultora de moda Cecília Mattos encara o assunto. "Já senti muita pressão para ter filhos e ainda sinto a todo o momento, porque estou num relacionamento de seis anos e já tenho 36", conta Cecília, indignada, e faz pé firme: "Não mudei, nem vou mudar a minha opinião. E meu companheiro está do meu lado, ele também pensa que filhos precisam vir num momento de estabilidade emocional do casal".
É verdade, é preciso haver muita conversa e desejo mútuo na hora da decisão, porque é uma escolha que afeta a vida de todos e, bem ou mal, a vida a dois acaba sendo jogada para escanteio. A psicóloga Miriam Felzenszwalb explica que isso acontece porque existem ciclos de vida. Se a "etapa casal", por exemplo, não ficou bem cumprida, então é melhor nem pensar em ter filhos, porque a chegada deles envolve abrir mão de certas coisas. Se faz necessário negociar o sexo, os amigos, as saídas, as viagens e até mesmo a carreira. Afinal, o foco não é mais você ou o companheiro, mas o novo ser que depende de vocês. Mas, se o ciclo foi bem cumprido e o casal sente a coceirinha gostosa, a vontade inquietante de ter filhos, então mãos à obra!
Entretanto, quando falamos em finanças, esse é um terreno onde cabe um planejamento maior e mais concreto. A secretária Maria Tereza não pensou duas vezes - antes de ter a filha, esperou dois ou três anos para curtir a vida de casada e, enquanto isso, se estabilizar financeiramente. Ela e o marido fizeram questão de ter casa própria, um bom emprego e poupanças. "Uma fizemos para casar e a outra, em seguida", conta Maria Tereza. Deu certo. Maria Tereza conta que a sua maior alegria foi ser mãe.
Maria Tereza contou, e muito, com a ajuda da mãe, que ficava com a neném quando ela queria curtir o marido a sós. A bióloga Elizabeth Kohnert também acredita no famoso "jeitinho". "Quando passa a fase inicial em que a mãe precisa amamentar e sempre estar presente, é possível o casal sair, basta conseguir alguém de confiança para cuidar do filho", conta Elizabeth.
É claro que para tudo na vida há um limite. De nada adianta você ter filhos se não tiver nem um minutinho do seu tempo para se dedicar a ele e à educação dele. É o que pensa Cecília Mattos. "Ter um filho para deixar com a babá ou com a sogra não é ter um filho. Além do mais, esse negócio de ‘vou levar meu filho comigo para todo canto' não existe. Na hora H, a criança fica doente, e aí? Vai levar para o show? Vai levar para a praia às três da tarde? Não, não vai", alfineta a consultora de moda, que ainda não se sente preparada para abrir mão de sua independência, de suas viagens e de suas decisões de trabalho mais ousadas para ter filhos.
O veredicto
A conclusão dessa história toda é que não há conclusão! De um lado, os que gritam que ter filhos é um sacrifício que não vale a pena. No meio, os indecisos e, do outro lado, mães e pais radiantes, felizes da vida por terem feito o tal do sacrifício. É certo que um casamento envolve muito mais do que um filho. Além do amor, companheirismo e respeito, projetos e objetivos de vida em perfeita sintonia andam juntos na conquista da felicidade.
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