Casa e Família

A boa filha à casa torna

por Laura Jeunon | 15/10/2005

Liberdade, privacidade e tranqüilidade são os maiores desejos de quem buscou ter o próprio teto. No entanto, às vezes, é necessário retroceder. Ou seja, dar um passo para trás e voltar a morar na casa dos pais.




A boa filha à casa torna

Enquanto somos crianças, os pais são os nossos maiores heróis. Contudo, o tempo passa e, aos poucos, vamos percebendo que eles, na verdade, não possuem nenhum superpoder. Ou melhor (pior, quer dizer), carregam na bagagem grandes defeitos - que, inclusive, nos momentos de maior atrito e desentendimento, parecem superar em muito as qualidades. Essa transformação dos nossos heróis em verdadeiros vilões é um passo muito importante do processo de amadurecimento. Entretanto, é somente o primeiro de um longo caminho a ser percorrido. Beeeem lá na frente dessa jornada, iremos vivenciar a experiência que representa a passagem definitiva para a vida adulta: sair de casa. Ninguém volta a ser o mesmo depois que experimenta a sensação de viver sem a proximidade daqueles que te colocaram no mundo e te criaram. Só que às vezes acontece de a pessoa ter que retornar para a casa dos pais – seja porque resolveu se separar do marido, o aluguel do apê ficou caro demais ou, sei lá, o período de intercâmbio acabou.

Geralmente, aqueles que fazem as malas e se mudam de volta para o lar de seus criadores, não o fazem por amor à família ou saudade do papai e da mamãe. É muito mais comum isso acontecer quando não se restam muitas alternativas – principalmente financeiras. O músico Fabiano Conceição, de 26 anos, revela que voltar para a casa dos pais é extremamente complicado. "Porque tudo muda. Não é como antes. A casa passa a ser só da sua mãe e do seu pai e não mais a sua. Sinto isso a todo momento, cada vez que ligo o chuveiro ou pego um copo d’água", revela Fabiano, que precisou voltar para debaixo das asinhas da mãe depois que rompeu com a ex-namorada, com quem dividia um apartamento há três anos. “Sozinho não dava para manter um apê e foi somente por isso que voltei. Vivo pensando em sair daqui. Sinto falta de privacidade, de espaço, de silêncio. Minha mãe fala compulsivamente, então, pela manhã, me sinto tomando café no Maracanã. Mas ela não é tão ruim assim. Continua a mesma, quem mudou fui eu. Depois que se tem o próprio espaço, é difícil voltar atrás. Coisas que antes eram normais para mim dentro de casa, hoje me incomodam. Acho que é porque antes de sair daqui, eu só conhecia esse mundo. E depois que a gente sai as possibilidades se multiplicam”, analisa Fabiano.

Quando colocamos os pés fora de casa pra valer, infinitas portas se abrem. Longe dos olhos dos pais, sem normas e padrões familiares pra seguir, sem hora para almoçar, favores para atender e satisfações para dar, experimentar uma sensação de liberdade é inevitável. O engenheiro Daniel Paraíso, de 28 anos, chegou a voltar para a casa dos pais depois que foi transferido do Rio de Janeiro – onde trabalhou durante um ano e meio – para a sua cidade natal. “Eu sou um cara muito tranqüilo com tudo. Então, quando consegui minha transferência para voltar para Sergipe, sabia que seria estranho retornar para a casa dos meus pais, mas preferi tentar. Até para ir economizando o dinheiro que eu gastaria pagando um aluguel, para depois conseguir comprar o meu próprio apartamento. Nesse tempo, eu me dei conta de que, apesar de as responsabilidades triplicarem, de você ter que tomar conta de tudo e ter que pagar todas as contas, a liberdade não tem preço!”, acredita Daniel, que comeu comida congelada durante quase todo o período em que morou na Cidade Maravilhosa. “Eu tinha preguiça e também me faltava tempo pra cozinhar. Fiquei meio enjoado de comida de microondas, mas não me arrependo. Até porque é muito mais fácil você ter comida pronta morando sozinho do que liberdade morando com os pais”, compara o engenheiro, que acabou alugando um “apertamento”, como ele mesmo diz, antes do planejado – e  aprendendo a ir para a beira do fogão, preparar uns pratos básicos.

Parece que ninguém sai incólume da experiência de deixar a casa dos pais. Não tem como não se tornar uma pessoa, no mínimo, ligeiramente diferente. A psicanalista Priscila Gaspar afirma que essa mudança realmente acontece sempre. “A experiência de ter mais autonomia e independência faz amadurecer. O sujeito se ‘desprende’ dos pais e pode exercer seu papel de acordo com seus próprios desejos”, explicita a psicanalista. E por que razão costuma ser tão difícil voltar a viver debaixo do mesmo teto que o pai e a mãe? “Os pais sempre vêem os filhos como crianças, independentemente da idade. Enquanto, por outro lado, a independência faz com que o indivíduo se torne realmente adulto. Assim, voltar a casa dos pais parece uma regressão à infância”, esclarece Priscila Gaspar, acrescentando que o comportamento mais natural é mesmo os filhos se sentirem incomodados ao precisarem voltar para o lar onde foram criados. “É o esperado, visto que em geral buscamos o progresso, amadurecer e ir para a frente. Passa a ser difícil abrir mão de certas conquistas, como a independência, a liberdade etc. Ser tratado como criança novamente não costuma ser agradável”, constata.

Entretanto, em muitas ocasiões, ter a porta da antiga casa aberta para o seu retorno significa uma baita mão na roda. Nas situações mais difíceis – onde não sobra muito espaço para a vontade: é questão de necessidade mesmo – contar com o colo da mãe pode ser um privilégio. A artista plástica Suzana G. se separou quando sua filha ainda estava com seis meses de idade, e ela própria, com apenas 18 anos. “Eu engravidei cedo e me casei com o pai da minha filha, mas logo quis me separar. Para completar, os meus pais também estavam se separando e o apartamento onde eu morava entrou na partilha de bens. Conclusão: fui desalojada. Como já estava querendo me separar, isso foi a deixa. Voltei para casa para ficar perto da minha mãe. Contei com toda a estrutura para criar minha filha, isso me dava segurança, já que eu ainda era muito nova. Mesmo com meus pais separados, pude contar com o auxílio, principalmente financeiro, dos dois”, lembra Suzana. Contudo, ao mesmo tempo em que a ajuda era muito bem vinda, permanecer exercendo o papel de filha prejudicava sua função como mãe. “Lá, eu não era dona da casa. Para criar minha filha, isso era chato. Não tinha autonomia. Ela mesma não me respeitava. Se me pedisse algo e eu falasse que não, na mesma hora ela ia pedir para avó. Isso me deixava maluca! Me desentendia muito com a minha mãe por causa disso”, recorda a artista plástica.

Se incomodar em ter que voltar para a posição de filho é, provavelmente, um comportamento menos preocupante do que se sentir totalmente confortável nessa situação. “Existem casos em que a pessoa volta à casa dos pais e sente-se muito bem, o que parece ser puro comodismo. Em geral, filhos criados com excesso de mimo não amadurecem e jamais conseguem decolar seu vôo. São mimados demais para abrir mão do conforto e carinho que têm em casa”, analisa Priscila. Mas nem sempre o conforto em estar de novo ao lado dos pais significa que o indivíduo é mimado e mal-acostumado. “Em alguns casos isso tem explicação. É possível que a pessoa não estivesse realmente preparada para as responsabilidades da vida adulta. Ou ainda pode se tratar de uma fase em que se encontra fragilizada. Doença ou separação, por exemplo, são condições delicadas nas quais a pessoa pode estar regredida emocionalmente, precisando de atenção e carinho”, pondera a psicanalista. E nessas horas, vamos combinar que resgatar o colo da mamãe, nem que seja por um tempo determinado, não faz mal a ninguém.



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