Quem tem medo do tempo?

Como a morte, envelhecer é inevitável. Mesmo assim, ver a pele ganhar rugas e o corpo perder a mobilidade pode causar um sofrimento profundo. Mas aprender a conviver com o passar dos anos traz, além de amadurecimento, felicidade.
por admin

A única certeza que existe na vida é a morte. Quem nunca ouviu alguém fazer essa sábia afirmação? Ou, então, quem não se lembra daquela frase que aprendemos - no primário, talvez – que diz que os animais nascem, crescem, se reproduzem e morrem? Essas duas sentenças mostram que as pessoas têm consciência do destino inevitável de todos os seres humanos. Entretanto, não basta saber que envelhecer faz parte do percurso da vida. Numa sociedade regida pela lógica capitalista de que o novo é sempre melhor, tornar-se velho é praticamente um tabu. E a preciosa maturidade – que aflora somente quando as pernas já não têm a mesma firmeza – não é valorizada a ponto de fazer as últimas fases da vida serem ainda melhores. Deveria mesmo ser assim?

Se até quem é jovem precisa lutar para se encaixar nos padrões de beleza atuais, quando a idade vai chegando, a cobrança é ainda maior. A mãe de Renata C. Almeida era de parar o trânsito quando era moça. "Minha mãe era o maior mulherão, o modelo de beleza na época. Tinha bundão e cinturinha fina. Na rua, ela era confundida com a Martha Rocha, a miss", conta a filha. Hoje com 73, a mãe de Renata desenvolveu algumas estratégias para ganhar ares de mais nova. “Ela prefere ficar um pouco mais cheinha, porque quando emagrece o rosto afina muito e ela fica com cara de quem está doente, aparentando mais idade. Ela também usa roupas jovens, coloridas, sandálias modernas, não para parecer garotinha, mas porque é vaidosa. Sempre foi! Ela sabe se cuidar e se valorizar”, assegura Renata.

Sem dúvida, cuidar do corpo e procurar estar sempre bonita é uma maneira de amenizar a sensação de envelhecimento e, principalmente, estar bem consigo mesma. O problema é quando a vaidade torna-se uma obsessão. Mulheres que fazem uma plástica atrás da outra, por exemplo, provavelmente escondem uma grande angústia. “Casos como esse evidenciam uma imaturidade para lidar com estas novas etapas da vida. Um medo, por vezes infantil, de perder seu valor. É comum encontrarmos isso em mulheres que não conseguiram desenvolver bem seu papel enquanto ser feminino e acabam baseando a sua identidade quase que exclusivamente em sua aparência”, explica a psicóloga Ângela K. Marigny.

Isso não significa que a preocupação em ver que o corpo já não é mais o mesmo dos tempos “áureos” – como se diz – não seja normal. “O novo sempre causou medo nos seres humanos. Assim é com a velhice, uma nova fase na vida, que devemos primeiro conhecer, para depois aprendermos a lidar com ela da melhor maneira possível”, orienta Ângela. Segundo Carlos Bein, também psicólogo, a preocupação com o envelhecimento faz parte de um instinto de conservação presente nos humanos, que faz com que a morte assuste. “Contemplar o avanço da velhice no espelho, faz-nos lembrar que o nosso momento final vai se aproximando. Às vezes leva a pessoa a questionar erros cometidos no passado e querer recuperar o tempo perdido. Há também a perda de aptidões físicas e psíquicas, o corpo não agüenta o que agüentava na juventude, a memória falha, assim como o desempenho sexual. E, sem dúvida, tudo piora se o entorno cultural devolve uma imagem negativa da pessoa idosa e ignora os valores que vão se adquirindo com o transcorrer dos anos”, argumenta o psicólogo.

Será, então, que a maioria das pessoas tem enxergado a velhice de uma maneira distorcida? “A nossa sociedade está cada vez mais dominada pelas relações mercantis. A produção industrial valoriza a mão-de-obra jovem, porque ela tem menos problema de saúde, resiste mais à fadiga, exige menor salário, tem conhecimentos mais atualizados e mais facilidade de se adaptar a mudanças. E se o mercado valoriza mais o jovem, isso se traduz na desvalorização das pessoas de mais idade”, deduz Carlos Bein. Só que nem sempre foi assim, pode acreditar. “Em outros momentos históricos e em outras culturas, era atribuído um valor à figura do homem e da mulher idosa que raramente lhes é outorgado hoje em dia”, garante ele.

Se, por um lado, o passar dos anos prejudica a forma física, por outro, é somente o acúmulo de experiências que enriquece a mente. “O equilíbrio, ponderação e tranqüilidade que a idade traz são qualidades que muitas pessoas almejam”, afirma Ângela. A dentista Áurea Maria de Souza, de 54 anos, assegura que não trocaria a idade dela pela de sua filha, que tem 22 aninhos. “É horrível, sim, ver o corpo definhando. Mas sinto com muita força como a idade me fez bem. Talvez porque tive uma história muito atrapalhada, vivi muita ansiedade, depressão e angústia na juventude. Sei o lado negro da vida e só quem me tirou dele foi a minha maturidade. As coisas se arrumam dentro da gente, você aceita melhor os seus limites. Perde no físico, mas ganha no espírito”, diz ela, lembrando que o amadurecimento é um processo lento e que não cessa nunca. “Somente ao longo do tempo é que conseguimos refletir. Amadurecer te traz paz em relação ao mundo e as pessoas. Eu ainda sonho em conseguir superar meus traumas, em criar sabedoria, em poder ser útil para os meus filhos e futuros netos”, confessa Áurea.

Assim como a morte, envelhecer é inevitável. Saber aceitar essa condição é um dos maiores segredos para ter felicidade quando a juventude já deu adeus há tempos. Se não, a pessoa acaba passando toda a segunda metade da vida na angústia de não poder voltar a desfilar na praia com aquele biquíni que mal cabia na palma da mão. Se você se encaixa nesse perfil, saiba que sempre é tempo de mudar. “O primeiro passo é tentar colocar os valores sociais em segundo plano e mergulhar no próprio interior a procura da verdade pessoal. Existe no ser humano uma capacidade natural para envelhecer de um modo harmônico. Na medida em que essa capacidade é cultivada, a pessoa começa a se sentir melhor com ela mesma. Por sua vez, quem está ao redor também se sente melhor com ela, produzindo um fluir de energias que faz com que a autoconfiança aumente cada  vez mais”, conclui Carlos Bein.

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