Perfeito!

Para eles, não pode ser bom, tem que ser ótimo, perfeito, que nem um diamante. Por conta disso, lutam contra seus limites, se impõem padrões altíssimos e não admitem falhas. Quem são esses? Os perfeccionistas.
por admin

Ninguém é perfeito, mas, fala sério, quem não gostaria de ser? Estar sempre linda, bem vestida, escovada, vinte unhas pintadas. No escritório, um sucesso: colocações precisas naquela reunião com o poderoso chefão. No primeiro encontro com a cara-metade, dá-lhe tiradas espirituosas, olhar penetrante, charme à toda prova. Não há vaga apertada que assuste, nem contas a pagar esquecidas em cima da geladeira. Uau! Que perfeição! É o seu caso? Não?! Nem o nosso, querida! Nós aqui do Bolsa somos todas meninas normais, que erram e acertam como qualquer ser humano. Acontece que tem gente por aí querendo ser perfeitinha da silva, irretocável. Mais do que isso: batalham contra seus limites, se impõem padrões altíssimos. Enfim, não são perfeitas, mas perfeccionistas - fazem questão de tudo certo, conferem os detalhes, não admitem defeitos no outro, muito menos em si mesmas. Se empenhar para estar bem, em casa e no trabalho, é sem dúvida uma atitude louvável. Mas há limites. O tal do perfeccionismo é uma qualidade ou um baita de um defeito?

O bom é inimigo do ótimo: às vezes a gente perde um tempão com uma coisa que já está boa, atrás de algo nada menos do que perfeito e até inatingível. Mas, para perfeccionistas como a publicitária Natália Teodoro, bom é muito pouco. Ela quer ser excelente, cinco estrelas, 100%! No trabalho, não consegue delegar tarefas, com medo que os colegas não tenham o devido capricho. "Sigo o ditado: ‘quer bem feito, faça você mesma’. Com isso, passo mais tempo na agência do que o resto do pessoal, quero saber se cada detalhe da apresentação está no padrão. Chego em casa e ainda recapitulo antes de dormir se não esqueci nada", relata Natália, que não vê nenhum problema nisso, pelo contrário. “Todo mundo pede as coisas pra mim, porque sabe que vou fazer direito. Não é só no trabalho, mas nas reuniões de família também. Sei organizar um chá de panela ou chá de fralda como ninguém”, garante. Vem cá, e se alguma coisa der errado e não sair exatamente como você pensou? “Aí fico triste, até choro”, revela a perfeccionista.

Mas não é errando que se aprende? Não, pelo menos no ponto de vista da comissária de bordo Alice Galvão. Para ela, um erro é motivo de vergonha e frustração. “Detesto errar, quero sempre acertar e dar alegrias aos meus pais e amigos. Por isso, sou mesmo obstinada, verifico cada detalhe do que faço mil vezes, não dou margem a erro”, confessa ela, que não suporta a condição de iniciante. “Demorei a aprender a dirigir, porque ficava triste quando fazia barberagem. Eu sei que ninguém nasce sabendo, mas só gosto de fazer aquilo que sei fazer bem feito. Não gosto de me expor”, revela a comissária que já deixou de aprender muita coisa, por não aceitar cometer erros até acertar a mão. “Até no esporte sou assim: não sei jogar boliche, então não jogo. Pra quê? Pra pagar mico?”, questiona. Uma das características do perfeccionista é justamente essa: associar os erros à sensação de derrota e frustração. Por isso, arriscam-se menos e, muitas vezes, perdem a oportunidade de crescer.

A gente sabe que quem vive de passado é museu, só que um perfeccionista de verdade vive remoendo lembranças – mas só dos piores momentos, como conta a estudante Gabriele N. “Não me perdôo por comportamentos que tive no passado. Pode ser uma palavra que falei errado na frente de muita gente, ou uma frase na hora errada com meu ex-namorado, um detalhe que, talvez, as outra pessoas tenham deixado passar, mas eu não vou esquecer nunca”, diz a estudante, revelando mais um traço do perfeccionismo.

Bem longe do escritório e das reuniões de trabalho, tem gente que é perfeccionista trancada no quarto. Esse é o caso da fisioterapeuta Marli G, que exige de si desempenho nota um milhão nos quesitos figurino e apresentação. “Passo horas na frente do espelho, trocando de roupa até achar alguma coisa que fique perfeita no meu corpo e seja ideal para cada ocasião. Cada roupa minha tem sua combinação perfeita: sapato, adereços, até sutiã que combina direitinho”, revela Marli, que deixa os amigos e o namorado esperando horas a fio  toda vez que vão sair juntos. “O que eu posso fazer? Não consigo, me olho no espelho mil vezes, vejo se não tá marcando a barriga, troco de brinco por um que combine melhor”, diz ela, que se chega na festa e se dá conta de que esqueceu algum detalhe, sente vontade de voltar pra casa.

Para o psicólogo Paulo Próspero, o perfeccionismo é um grande inimigo do homem. “O perfeccionista sente-se inibido em suas atividades normais ao buscar sempre a perfeição, que, muitas vezes, é inatingível. O que leva à frustração”, explica ele, afirmando que tal comportamento pode deixar a pessoa paralisada, no meio do caminho, como, por exemplo, adiando prazos para entregas de trabalhos, com a falsa expectativa de que este vai ficar perfeito. E não adianta culpar o chefe exigente, os pais ou o resto da sociedade por isso: o problema está dentro de você. “O perfeccionista tem o super-ego muito rígido e exige demais de si próprio. Essa cobrança interna desmedida inibe ações ao invés de propiciar. É como se a pessoa tivesse um tribunal dentro dela, exigindo o impossível”, explica o psicólogo enquanto a gente pergunta: tem remédio? “O ideal é fazer o melhor possível, dar o melhor de si sem se exigir a perfeição”, conclui.

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