Estilo de Viver

Paixão por um fio

por Fernando Puga | 27/02/2004

Quando inventou o telefone, no século retrasado, Graham Bell nem imaginava que seu aparelho ia se tornar um fiel escudeiro feminino. Uma relação de amor e ódio, incompreensível para alguns homens, mas fundamental para muitas mulheres.




Paixão por um fio

Quando, lá pelos idos de 1876, Alexander Graham Bell usou sua mais nova engenhoca para, do último andar de uma hospedaria em Boston, nos EUA, chamar seu auxiliar Watson que se encontrava no térreo, o velho inventor escocês nem poderia sonhar que estava dando à luz a um dos mais fiéis companheiros da mulher, o telefone. Aliás, não exatamente companheiro, cúmplice. É que, para exercer sua terapêutica função de confidente e arma contra o tédio e a insegurança, é preciso um terceiro elemento com um mesmo aparelho do gênero nas mãos: outra mulher. Diariamente, no mundo todo, cabos e satélites transmitem vozes femininas aflitas, chorosas, ferinas e sorridentes. Só que essa quase dependência de teclas, fones e antenas pode acabar, de fato, saindo pela culatra. E, para isso, não basta quase nada além de um sinal de ocupado.

Para os homens, é surpreendentemente difícil entender como se dá esse íntimo relacionamento entre as mulheres e o telefone. O bancário Guilherme Vinhas é um que já observou um padrão de comportamento que, segundo ele, é algo quase obsessivo. "Uma mulher não pode ver um telefone com linha, desocupado. Parece uma obrigação dela tirar o bicho do gancho e ligar para qualquer amiga para falar sobre nada. Outra coisa interessante é quando toca o telefone para uma mulher. Ela nunca manda dizer que não tá. Ela pára o que estiver fazendo, e quem estiver fazendo com ela, para atender", garante. E a acusação é legitimamente aceita. "Não vivo sem telefone. Isso é incogitável pra mim", afirma a professora Juliana Albuquerque. Ela acredita que esse caso de amor vem de uma necessidade feminina de compartilhar intimidades. "E não há lugar mais íntimo no mundo do que uma linha de telefone, unindo duas pessoas em total privacidade e sem que uma precise olhar pra cara da outra. É a invenção perfeita, é o confessionário elétrico", diz ela.

Na rotina da publicitária Bianca Peixoto, por exemplo, o telefone ocupa um lugar de destaque. Todos os dias, quando chega do trabalho, ela saca o aparelho e começa a transmitir o seu boletim diário. "Ligo, pelo menos para duas amigas de fé, pra contar o que me aconteceu durante o dia. Quando os horários coincidem, a gente faz conferência, ficamos as três na mesma ligação. Aí, atualizamos as fofocas, é quase como uma novela. Os pontos altos, em geral, acontecem quando uma de nós está começando namoro ou terminando. Às vezes, a bateria do sem fio acaba e eu tenho que ir pro aparelho da tomada. O brabo só é a conta no fim do mês. Eu tento me controlar, mas não consigo", lamenta ela que, pelo menos, trabalha e paga as suas contas, o que não acontece na casa da estudante Andréa Portinho. "Tenho uma dívida vitalícia com o meu pai por causa da conta de telefone. É uma coisa antiga, desde a adolescência. Ficava de castigo no fim de semana, tiravam o aparelho do meu quarto. Agora, pelo menos, a gente faz a divisão das ligações para celular, que são mais caras. Mas nunca sai por menos que R$ 150, R$ 200. Aí, tenho que implorar e jurar que vou diminuir a conta, senão o dinheiro do meu estágio vai inteiro só pra isso", conta ela.

Mas, se por um lado o advento do celular representou a ruína financeira das dependentes de telefone, por outro, salvou vidas em momentos de crise e indecisão profunda, como no caso da empresária Mariana Perrone. "Sempre que preciso tomar uma decisão importante, pego o celular e saio ligando, não importa onde eu esteja. Uma vez, eu estava indo pra um encontro, terminar com meu namorado. Eu tava certa do que eu queria mas, na hora, foi me dando uma coisa, pedi pra ir pro banheiro e telefonei pra minha melhor amiga. Em dez minutos, tudo estava resolvido, voltei pra mesa, conversamos e resolvemos continuar. Sem o celular, eu teria tomado uma decisão precipitada e poderia ter me arrependido. Salvou minha vida", reconhece, emocionada. Acontece que esse santo aparelhinho pode, de uma hora pra outra, virar a casaca e se transformar no causador de muitas angústias. Basta entrar um homem na história. "Quando um cara pede o telefone de uma mulher e não liga, é o inferno. Porque, na nossa cabeça, não rola essa história de cordialidade. Se ele tem o número, é pra usar. Senão, são dias atendendo a qualquer ligação que nem uma desesperada, roendo as unhas, ansiosa. Pior do que isso, ligar pro namorado e ouvir sinal de ocupado. Não consigo ficar tranqüila, por mais banal que isso seja", reclama Bianca Peixoto. Pelo menos até que sua linha toque de novo.



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