Estilo de Viver

No balanço da balança

por Ana Kessler | 16/01/2004

Peso e felicidade quase sempre têm uma relação inversamente proporcional. Mas a ditadura da magreza não compromete a vida de algumas gordinhas que, satisfeitas com suas curvas generosas, esbanjam sensualidade.




No balanço da balança

Penetrar no mundo da obesidade feminina e seus meandros de formas voluptuosas não é uma tarefa fácil. Menos ainda encontrar mulheres acima do peso de bem com a balança, dispostas a abrir o coração e contar suas fórmulas da felicidade. A obesidade ainda é um tabu e incomoda até mesmo aquela invejável amiga gostosa que se acha um balão. Parece que, de repente, o mundo inteiro se sente gordo e perdemos a noção do que é obesidade. Será que a satisfação com o próprio corpo não seria mais uma maneira de encarar a vida e aceitar a si mesma, do que números em uma balança? Afinal, qual a ligação entre peso e felicidade?

A jornalista Vanessa Vianna tem 28 anos, 1,64m, 80 quilos e se acha maravilhosa, com o aval do namorado. "Fizemos um ano de namoro dia 14 de novembro. O nosso relacionamento é ótimo e ele me acha linda. Diz que meu corpo é gostoso de pegar. Uma vez entrei em paranóia, porque eu soube que as ex-namoradas dele tinham corpos de modelo. Mas ele conversou comigo e me convenceu que sou mais bonita que elas. Fisicamente, mesmo. É mole?", conta. O incentivo de uma pessoa querida, seja o companheiro, um amigo ou um familiar, é um ponto importante no aprendizado do se gostar.

Porém, antes de sair por aí dando forças a gordinhos, é bom avaliar as possíveis interpretações que suas palavras podem ter. A bailarina Susana Ramos, de 1,57m, 55 quilos e 25 anos, explica: "Contei para o meu namorado que tinha entrado no Vigilantes do Peso, porque queria perder dois quilos e ele disse: 'que ótimo!'. 'Que ótimo' é uma péssima maneira de um namorado incentivar o seu regime. Ele tinha que dizer: 'ah, meu amor, você não precisa emagrecer. Está perfeita assim!'", acredita. Com tendência para engordar, Susana tem a palavra determinação no cardápio de todos os dias. "Se eu não me cuidar, engordo fácil. O problema é que eu gosto muito de comer e, quando estou ansiosa, ataco a geladeira sem dó. Me manter em forma depende totalmente do meu autocontrole. Se isso me faz feliz? Não sei. Não gosto da privação em si, mas gosto de saber que tenho esta força de vontade dentro de mim. Me sinto poderosa", revela.

É difícil dizer o que desencadeia a aceitação ou não de si mesmo. Segundo a psicóloga Nair Santos, a auto-estima é um processo que se inicia ainda na infância. "A criança é um produto do meio e a auto-estima é fruto de como ela absorve as crenças que são passadas. Depende de vários fatores, por exemplo, se era comparada aos irmãos positiva ou negativamente, ou teve apelidos que provocaram o que nomeamos 'traumas da auto-imagem'", explica. Ela conta que uma paciente detestava o próprio nariz, porque aos 12 anos foi chamada de nariguda. Jamais notara o 'defeito', foi direto se olhar no espelho e nunca mais conseguiu enxergar outra coisa a não ser o seu 'vergonhoso' nariz.

Com a obesidade não é diferente. Muitas vezes, a pessoa vive em paz com o seu peso até algum espírito-de-porco lhe recriminar: "você está gorda". Esta frase pode ter o efeito de uma bomba atômica em egos mais sensíveis e, consequentemente, arrasar com uma despensa de cozinha, transformando tudo numa imensa - e bota imensa nisso - bola de neve. Foi o que aconteceu com a publicitária Carla Azevedo, quando engravidou. "Engordei muito e depois do parto não consegui voltar à antiga forma. Meu marido, na época, ficava dizendo que não gostava de mulher gorda e quanto mais ele falava, mais me deixava ansiosa e eu acabava comendo. Só consegui emagrecer quando nos separamos. Levei uma bela cantada de um colega de trabalho e, quando me permiti partir pra outra, emagreci oito quilos. Hoje, não sou magrela, mas aprendi a me valorizar", revela.

Saber explorar o que o corpo tem de melhor é uma arte que, se bem usada, pode aumentar a sua cotação no mercado. Quem dá a dica é Vanessa Viana: "a maioria das minhas roupas têm decote em V, que valoriza o meu colo. Um colar daqueles agarradinhos no pescoço e, voilá: uma gordinha bem bonita!". Saias longas e calças folgadas que não marcam o culote também estão entre suas preferidas. "Principalmente se você andar bem empinada, no estilo peito pra frente e bumbum pra trás! Ah, e dependendo da ocasião, use e abuse das costas nuas. São supersensuais". Quanto às cores, essa taurina boa de garfo recomenda tons pastéis ou escuros, como verde-escuro, cinza, laranja-escuro, preto ou marrom. "São elegantes, seja para blazer, calça ou blusa. Uso vermelho e azul-turquesa, também, que ajuda a realçar a cor verde dos meus olhos", conta.

Tão importante quanto cuidar do físico é nutrir a alma, sobretudo de respeito. "Cansei de provar roupas para o meu tamanho que não entravam. Na hora fico deprê, mas logo falo que elas é que não são para mim, mereço algo melhor e vou para outra loja. Tenho plena consciência do meu corpo. Se não querem o meu dinheiro, problemas deles. Lamento pelos vendedores, que perdem comissão e vivem disso. Há muito tempo sou extremamente feliz do jeito que sou", finaliza Vanessa.

Infelizmente, nem todo mundo tem a desenvoltura de nossa amiga. Há mulheres que não conseguem romper sozinhas as barreiras de um provador de loja. Para estas, um bom terapeuta pode ajudar. "As pessoas não se gostam porque não conhecem o seu lado positivo", afirma a Dra. Nair. "Há técnicas que usamos na chamada Terapia Cognitiva e Comportamental, para que a pessoa mude a forma de pensar e, assim, o comportamento", garante. Uma delas é a RPD - Registro de Pensamentos Disfuncionais. Como funciona? Com o acompanhamento de um profissional qualificado, anota-se a situação que aconteceu, que estado de humor provocou - alegria, mágoa, tristeza - e observa-se qual o primeiro pensamento que veio sobre a situação. "Este pensamento é o que te faz ficar chateada. Vê-se o que é real e o que é imaginário, sob um ponto de vista particular. Faz-se um pensamento alternativo e acha-se um caminho para sair. O que as pessoas pensam de você muda o que você está sentindo? O que pode te acontecer de concreto com a opinião dos outros?", comenta. Segundo a psicóloga, quando se tem mais clareza da situação, o imaginário baixa. E, quem sabe, as gordurinhas também.

Mas o que será que eles pensam disso tudo? Com a palavra, o filósofo Renato Noronha: "A beleza feminina é um mito criado, alimentado e propagado pelas próprias mulheres. Para elas, nunca estão bem e quase sempre com uns quilinhos a mais", afirma. Só que para os homens, esses detalhes são triviais. "Nós não vemos as coisas da mesma forma que as mulheres e nem com o preciosismo de centímetros e gramas. É claro que beleza importa e não temos como virar as costas para a estética", diz. Entretanto, mais do que o peso, o que mais assusta os homens é o gênio das mulheres. "É a ira que recai sobre nós quando, por descuido ou por gentileza, teimamos em não notar um ou dois quilinhos a mais. Uma mulher, sendo ela anoréxica ou totalmente obesa, pode ser perfeitamente sensual, bonita e insubstituível, basta apenas não escravizar a si mesma com o fantasma da balança e o mito da perfeição", garante.

Magras que se acham gordas, gordas que se vêem magras. No balanço da balança, o que pesa é o seu jeito de ver as coisas. Seja você mesma. Quer você pense que pode, quer pense que não pode, quem está certa é você.

Bibliografias recomendadas: "A mente vencendo o humor", de Dennis Greenberg e Christine Adesky; e "Terapia Cognitiva: teoria e prática", da precursora Judith Beck.



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