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Diz o ditado que querer é poder, mas muitas vezes olhamos para a nossa lista de projetos e, pronto, vem o susto. Existem mais coisas por fazer do que atividades já concluídas. Colocá-las no papel - ou pelo menos na cabeça - é fácil. Difícil é levar o que planejamos adiante. Começamos a academia e, alguns meses depois, paramos. Iniciamos a dieta e desistimos (fica sempre para a segunda-feira que nunca chega!). Familiar? Há, também, pessoas que começam uma carreira, cursos, faculdades e até mesmo relacionamentos, mas perdem o ritmo e jogam tudo para o alto. Falta de tempo, perda de interesse, mudança de rumo. Essas e outras justificativas (para não dizer desculpas) deixam as pendências cada vez mais no plano das idéias. Sem perceber, acabamos adiando, também, a nossa felicidade, porque, para ser feliz e alcançar os objetivos de vida, não basta querer. Tem que poder. A arte é saber como chegar lá sem tropeçar no meio do caminho. Preparada?
De galho em galho
Fernanda Lopes, recepcionista, nunca esteve. "Não sou do tipo que paro cursos pela metade, mas, definitivamente, não tenho foco. Talvez por me identificar com um monte de coisas! Fiz Técnico em Enfermagem, Direito (peguei carteira da OAB, mas odiei advogar), por muito tempo quis ser policial, depois trabalhei como inspetora penitenciária e atualmente sou recepcionista bilíngüe. Uma novidade: vou fazer Serviço Social! Nunca fui a criancinha que desde cedo sabia o que seria ao crescer", conta Fernanda. Para ganhar foco, ela acha que falta se encontrar profissionalmente. "Aliar o prazer no trabalho à crença de que eu realmente estou fazendo a diferença e somar isso ao retorno financeiro que me permita viajar, continuar estudando. Sou muito sonhadora", reflete.
Já Eduardo Guimarães*, designer por vocação, e não por formação, começou duas faculdades, mas nunca terminou. "A primeira comecei a fazer sem saber direito o que eu queria da vida e a outra tinha a ver comigo, mas não terminei por dois motivos: financeiro e desinteresse. Eu fazia muitos questionamentos sobre o que era ensinado, porque tinha uma experiência de mais ou menos três anos na área. Justamente por já estar trabalhando nela, não tinha paciência para teorias. Isso acabou me desmotivando", diz. Sem contar que, trabalhando por conta própria, Eduardo tinha horários muito desregrados e as conseqüências sobravam para a faculdade. "Eu acabava negligenciando", entrega.
A publicitária Mariana Kohnert é outra vítima curiosa de muitos começos e poucos términos. Ela sempre quis driblar o sedentarismo, mas não se lembra de ter passado mais de um ano em uma mesma atividade física regular. "Tirando, é claro, as aulas de balé durante a infância, quando a minha mãe me puxava pelo braço às seis da manhã", conta. Quando ganhou o poder de decisão, Mariana optou pela volta ao balé. "Decidi que era isso que me motivaria a me exercitar, já que todos ao meu redor ficavam chocados com o meu sedentarismo", diz Mariana, que dançou por 10 meses e resolveu migrar para o basquete. "Fui selecionada para o time do colégio mais por ser alta do que por talento. Depois de uns três meses, desisti. E acabou aí minha carreira nos esportes de grupo", conta.
Foi a vez de entrar para uma academia e, mais uma vez, não durou muito tempo. "Até hoje, acho musculação o exercício mais maçante já inventado pelo homem. Levantar plaquinhas me dá um sono imbatível. Elas venceram!", brinca Mariana. Venceram, sim, mas a publicitária não se deu por vencida! Uma amiga a chamou para uma aula experimental de Tae Kwon Do. "Aí estava! Eu não devia me tornar bailarina, pivô ou saradona. Meu destino era ser uma lutadora. Mas, dois anos e quatro faixas depois, estava eu pulando fora de novo", confessa. "O fato é que eu fazia exercícios porque tinha que fazer, nunca por escolha, mesmo buscando uma atividade com que eu me identificasse. Assim que surgia uma desculpa melhor, voltava ao sedentarismo", entrega Mariana.
Ela experimentou, ainda, o spinning, a Yoga e, mais uma vez, o spinning. "Primeiro mês, três aulas por semana. No segundo, eu fazia um esforço para estar presente em pelo menos duas. No fim, se eu fosse uma vez por semana, era lucro. E acabei aqui, sentada numa cadeira, acumulando calorias e aguardando a próxima investida aeróbica", comenta. Aliás, fato curioso: todas as aventuras na academia foram, na verdade, na mesma. "Eu entrava e os professores já sabiam que eu não ficaria até o final. Estou até acostumada a ouvir ‘saiu da toca? Agora é pra ficar? Acho que não, hein?'. Ou depois de dizer "sim, dessa vez eu fico", ter como resposta ‘O.K., vou fingir que acredito'", ri.
Menos desculpas, mais ação
Abandonar metas ou tarefas no meio do caminho, começar muitas coisas sem concluí-las, ficar pulando de galho em galho, falta de motivação, adiar responsabilidades, entre outros, são sintomas claros de dispersão, uma característica da vida moderna. "É até comum, mas não normal", explica o psicólogo Elízio Machado. "Na sociedade caótica em que vivemos, com tantas transformações em tão alta velocidade, é natural que as pessoas fiquem indecisas e precisem lidar com a incógnita de ‘o que será melhor para mim?'. Não podemos classificar a falta de foco como doença, mas certamente é um distúrbio causado, entre outros motivos de ordem pessoal, por essa correria em que vivemos", explica.
Segundo a consultora de comunicação Renata Di Nizo, autora de A educação do querer e O meu, o seu, o nosso querer, ambos da Editora Ágora, essa é uma grande diferença entre o mundo ocidental e o oriental. "No Oriente, as pessoas aprendem, desde criança, a se disciplinar. Na escola, fazem exercícios físicos, como artes marciais, que trabalham a disciplina e auto-superação do corpo e, conseqüentemente, da mente. Por isso, enquanto aqui a gente quer isso, quer aquilo, lá eles vão com calma, com foco. Alguém já viu uma matéria na escola chamada ‘educação da atenção' ou ‘educação da vontade'? Não existe, mas é o que precisamos aprender", afirma.
De acordo com o psicólogo Elízio Machado, muitas pessoas têm uma formação ruim para a vida, isto é, acabam não sendo educadas para viverem e enfrentarem, sozinhas, as adversidades. "Alguém dizer, por exemplo, que não tem tempo para isso ou para aquilo é uma grande desculpa para se ausentar de responsabilidade", alerta Elízio. "Desde pequenos, aprendemos a mentir para enfrentar obstáculos. As desculpas que inventamos, portanto, nada mais são do que mentiras para os outros e para nós mesmos", completa.
Para a recepcionista Fernanda Lopes, existe ainda um outro problema. "A vida cobra que sejamos perfeitas em tudo: que tenhamos uma família unida e feliz, saúde, que conquistemos ou mantenhamos um corpo escultural, que sejamos os melhores na nossa carreira, que tenhamos aparência mais jovem do que a idade. Acabamos ficando escravas da infinita busca por objetivos muitas vezes inatingíveis ou absurdos. Por isso, as pessoas começam a ficar frustradas com as metas que traçam, mas não alcançam", acredita Fernanda.
No entanto, o designer Eduardo Guimarães acredita que não existe ‘eu não consigo', mas sim ‘eu não quero'. A publicitária Mariana Kohnert, por exemplo, sempre soube, lá no fundo, que se tivesse que escolher entre assistir a grama crescer e uma atividade física, o exercício sairia na pior. "Não consigo ser uma dessas mulheres centradas - que eu gosto de chamar de frenéticas - que carregam uma mala com todo o equipamento de ginástica o dia inteiro só pra não deixarem de se exercitar. Prefiro encher minha mochila com livros, biscoitos, Mp3", afirma, com firmeza.
Pois é, para Eduardo, quando queremos algo de verdade, damos um jeito, nos desdobramos e alcançamos nosso objetivo. Já quando não queremos, arranjamos desculpas para justificar o fracasso. "No meu caso, se eu realmente quisesse, teria terminado a faculdade", garante. Hoje, ele pensa em começar um novo curso, mas o que impede é a falta de dinheiro. "Acabei priorizando outras coisas. Por exemplo: queria muito ter um carro e juntei dinheiro para isso, deixando a faculdade de lado. Agora, para começá-la, preciso terminar outras coisas que priorizei", explica.
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