A cena é fácil de imaginar: num táxi, duas amigas voltam de uma lancinante noitada numa festa. Uma, deprimidíssima porque não havia encontrado o ex-caso, reclama para a outra: "aquele mané não veio hoje, né? Quer saber, vou ligar para a casa dele!" e saca o celular da bolsa. Do outro lado da linha, uma voz feminina desfaz as esperanças e suscita as discussões mais carinhosas sobre a raça masculina: "esquece esse galinha imbecil, homem não presta". No dia seguinte, a amiga consoladora acordou mais cedo e foi conferir as últimas chamadas no celular. Descobriu que o último toque vinha do telefone da amiga deprimida, que também levantou e foi checar a que horas havia ligado para o tal cara. Depois de um minuto de silêncio, se tocaram do que tinham feito: uma ligou para o celular da outra, de dentro do táxi. A que atendeu estranhou ninguém falar nada do outro lado da linha, mas nem comentou o assunto já que consolava a deprimida. A culpada de tudo? Uma terceira amiga que não desgrudou a noite inteira, conhecida no meio como manguaça, demancha-samba, marvada, água-que-passarinho-não-bebe ou, simplesmente, cachaça.
Todo mundo sabe que beber demais danifica o nosso cérebro, o fígado, a pele, o estômago e, claro, o nosso moral. Principalmente quando o álcool deixa de ser um eventual estimulante social para se tornar uma necessária muleta. Mas, tudo bem, é inegável que uma bebericadinha – de vez em quando e em doses moderadas – é uma delícia. Até porque, cá entre nós, se não o fosse, ninguém acabaria uma noite de porre. Além do paladar de algumas bebidas, o álcool também dá uma deliciosa sensação de liberdade. E é aí que mora o perigo. "Acrescente a isso o contexto eufórico de uma festa, de uma comemoração de Copa do Mundo. A gente se sente ainda mais livre, vai perdendo a censura", explica a psicóloga Selene Barreto.
A censura, aliás, nem foi convidada para a chopada de calouros da engenheira Dora Sampaio. "Papo vai, papo vem, a mulherada toda gritando, rindo alto, aquelas coisas. Você vai se exaltando e não percebe que está ficando bêbada. Sei que, depois de quase uns dez chopes, eu senti a bagaça batendo", conta. A partir daí, os bons modos ficam pra trás e é a "danada" quem assume o (des)controle. "Comecei a rir loucamente, dançar, circular. Aí, claro, caí no chão, de calça branca, fiquei rolando naquela lama de cerveja derramada em que as pessoas pisam, uma coisa inacreditável. Fiquei dando em cima de todo mundo, minha reputação foi a zero. Até pra um gari que estava na rua, quando eu voltava pro carro, eu dei confiança", conta ela, que só lembra da história porque uma de suas amigas presentes faz questão de não deixá-la esquecer.
Pagar micos que são verdadeiros king-kongs movidos à álcool é a coisa mais fácil do mundo nessas situações. Mas, segundo a professora de etiqueta Janir Fraga, eles podem ser evitados. "Quando é você quem bebe e percebe que passou do limite, o melhor a fazer é sair da festa à francesa. No dia seguinte, ligue para o anfitrião, explique que teve uma pequena indisposição, mas não é preciso entrar em detalhes", aconselha. Assim, a sua platéia fica restrita ao taxista, ao porteiro ou a uma eventual boa alma que se proponha a acompanhá-la. A enóloga e colunista do Bolsa de Mulher, Sonia Melier, acrescenta outra medida fácil para que o álcool não suba tão torto à cabeça: "beba um copo d'água a cada drinque. É tiro sem queda", brinca. No entanto, essa salvadora providência pode arruinar ainda mais a sua noite por uma questão de tempo. "Se você já estiver bêbada, o estômago está aquecido e a água gelada pode virá-lo. Prefira comer alguma coisa, um doce por exemplo, e só depois beba uma água ou uma Coca-Cola", indica a professora Janir.
Agora, para muita gente, pior do que sentir na cabeça os efeitos da manguaceira é aturar a falta de limites de um bêbado. Principalmente quando ele é bem mais do que um alcoólico anônimo. "No aniversário de uma amiga minha, meu namorado tomou um porre homérico. Até aí tudo bem, se ele não tivesse me derrubado na pista de dança, e eu não estivesse de salto alto, cóqui no cabelo e meio quilo de maquiagem na cara. Tive que subir pra um quarto, dar banho nele de biquíni. Ele estava passando mal, então, amarrei nas orelhas dele as alças de uma sacola de supermercado para ele vomitar dentro até dormir. Sem condições", lembra a publicitária Patrícia Duarte, certa de que, pelo menos, inventou um interessante produto para os pinguços de plantão. Brincadeiras à parte, Janir Fraga explica como se livrar desse tipo de situação sem perder a classe ou o namorado: "ao perceber que ele está alto, retire-se, sempre se justificando dizendo que é você quem não está se sentindo bem". Se o rapazinho embriagado acabou estragando a sua noite, deixe para acertar as contas em casa. E, preferencialmente, no dia seguinte.
No entanto, se a mandureba bater sem perdão e urubu virar meu louro como num passe de mágica, o melhor é esquecer. "Quando a pessoa não é dependente e passa por um vexame, acaba ficando com sentimento de culpa. Nesses casos, o que deve ser feito é justificar com felicidade. Dizer que, apesar de tudo, foi divertido, que você estava num momento de alegria. É claro, se tiver, de fato, sido divertido", aconselha a psicóloga Selene Barreto. O porre vai ser motivo de piada por um bom tempo mas, apesar de "marvada", a bebida é sábia: provoca uma salvadora amnésia, melhor do que qualquer efervescente para os males da ressaca moral. Tim tim!
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