
Dez metros à esquerda do meu prédio, há uma escola. Dez passos à direita, um curso pré-vestibular. Significa que, para um lado ou para o outro, é impossível chegar até a esquina sem esbarrar em dois ou três adolescentes.
Em regra, eles têm espinhas, carregam mochilas e se aglomeram em círculos, compostos por alguns meninos e apenas uma ou, preferencialmente, duas meninas, que falam alto e gesticulam. Frisson.
A poucos gelos baianos das rodas de adolescentes, outros se encaixam em dupla. Nos primeiros dias de junho, quando o inverno parece atropelar o outono, os namoradinhos são os meus protagonistas.
Namorados, por definição, esquecem-se do resto do mundo. Em Botafogo, mesmo com o buzinaço, a massa apressada e as britadeiras famintas, os namoradinhos não estão nem aí: trocam olhares, beijam-se, fazem cócegas, beijam-se, roçam seus corpos magros, beijam-se e não consigo parar de observá-los de canto de olho.
Usam calça jeans, tênis e gírias. As meninas, brincão. Os meninos, moletom. Dividem um rissole de presunto com catupiry. Eu como o meu, sozinha. Eles, eles juram e beijam, beijam-se, beijam os dedos em cruz e a ponta do nariz. O primeiro amor, tão ingênuo quanto arrebatador, é o mais convincente (entre todos os que ainda virão) de que vai durar para sempre.
Adolescentes odeiam. Odeiam a menina que comprou vestido igual. Odeiam o garoto que chegou na frente. E adolescentes amam, amam despudoradamente. Além dos exageros típicos da idade, adolescente não tem medo de ser descoberto pelo pai, não tem medo de acidente de carro, de repetir o ano, de fazer tatuagem, de furar a língua, de pular de bung jump, nem de outras situações de alto risco, como se apaixonar. Eles simplesmente sucumbem e passam a língua entre os lábios do outro, dentro da orelha do outro, mordem o pescoço, ficam ofegantes ali na frente de todo mundo, na rua, na minha frente e é tão bom. Não sabem que, pelo resto da vida, vão querer repetir o que vivem agora: esse amor dos 16 anos - fogo e entrega. É quase como um desejo de ser jovem para sempre.
Se ainda não disse, é melhor dizer agora: a paixão acaba. Neste dia, dói e provoca sensação iminente de morte. A parte boa é que, antes de morrer, a paixão não dói: arde.
Como os adolescentes, não tenho medo. Escolho o esmalte com que pinto as unhas dos pés não pela cor mas pelo nome: semana sim, semana também, peço à manicure, como quem reza para um santo milagreiro, o esmalte chamado "Paixão". Para variar, "Carinho", "Fetiche", ou "Volúpia". Mais adiante, gostaria de passar o "Amor" ou então o "Love". Aliás, se pudesse, moraria em Amor, uma cidade que fica lá em Portugal.
Toda sexta deveria ser Sexta-feira da Paixão. Todas as frutas, como o maracujá, deveriam ser frutas da paixão - exceto as maçãs, que deveriam ser todas do amor. E todos os amores, perfeitos. E, mesmo depois dos 30, 40 60, todos os namoros deveriam ser de adolescentes, como os da minha esquina.
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