Ela está lá no dicionário como sinônimo de cólera, ódio, ira, rancor, grande aversão, horror. Mas, sobretudo nos estressantes dias de hoje, ninguém precisa ir ao pai-dos-burros para conhecer esse sentimento com que convivemos desde a mais tenra idade, a raiva. Tanto que, para vivermos em sociedade, temos de começar a aprender a dominar a emoção agressiva logo aos primeiros "não pode" ouvidos de nossos pais. Suas origens causadoras serão tantas ao longo da vida que, se desde cedo não encontrarmos formas razoáveis de expressão para ela, corremos o risco de arrebentarmos aquele vizinho que segura o elevador, arrasarmos o namorado que olha as bundas alheias, trucidarmos os chefes intolerantes com a TPM. Não que estivéssemos completamente sem razão nessas situações, mas isso é outra história, ao menos para quem se pretende "civilizado".
A raiva é o sentimento chave da violência. É nela que está força geradora dos impulsos agressivos contra quem nos ofende, fere ou invade a nossa dignidade. Se perdermos o domínio sobre ela, rapidamente nos sobe à cabeça. "Dei uma incerta na casa do meu namorado, encontrei ele com outra e baixei o barraco", lembra a bancária Ana Viotti, que jura não se reconhecer em meio a tanta gritaria e quebra-quebra. "Eu sou uma pessoa controlada, pacífica, mas, de repente, me vi possuída. Xinguei, gritei coisas absurdas, chutei cadeira. Só me lembro de ter muita vontade de destruir os dois. Depois, tive uma crise de choro e saí correndo pela rua", lembra. O rapaz, mesmo cheio de culpa no cartório, ainda tentou acalmá-la, mas foi impossível. A fúria de Ana era tanta que, mesmo nunca mais tendo visto o ex-namorado depois daquele dia, ela ainda guarda rancor. "Se eu o vir na rua outra vez, acho que sou capaz de retomar a briga", acredita.
“O sentimento surge quando estamos certos de que poderíamos ser atendidos em nossas expectativas e não o fomos por vontade do outro”
A raiva é filha da frustraçãoA frustração é a nascente da raiva. Na opinião da psicóloga Silvana Martani, o sentimento surge quando estamos certos de que poderíamos ser atendidos em nossas expectativas e não o fomos por vontade do outro. "É como se negassem-nos algo pelo prazer de negar. Se entendermos as razões e as limitações que levaram o outro a não nos atender, não há raiva", define. Por isso, só sentimos raiva daquilo a que atribuímos algum valor. E, se a alimentarmos, a raiva vira ódio. A emoção de um momento de desequilíbrio toma emprestada a argumentação justa da racionalidade, unindo o desejo de revide à frustração inicial, se transformando em sentimento.
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