Estilo de Viver

Importadas

por Cynthia Magnani | 12/07/2007

Conheça a história de mulheres que adotaram o Brasil como seu país




Importadas

Segundo dados do censo do IBGE, no ano 2000, existiam 510.068 estrangeiros vivendo no Brasil. Apesar de os números terem caído nos últimos 30 anos - em 1970, eram mais de 1 milhão; em 1980, pouco mais de 910 mil e, em 1991, cerca de 600 mil - ainda é fácil encontrar pelo país uma grande quantidade de portugueses, japoneses, italianos e espanhóis - de acordo com o instituto, as nacionalidades que possuem mais representantes em solo brasileiro. O Bolsa de Mulher então resolveu conhecer um pouco mais dessas mulheres estrangeiras que adotaram a nossa pátria como mãe gentil.

Vinda de um país onde a liberação feminina, principalmente a sexual, ainda não é bem vista por questões morais e religiosas, a libanesa Joelle Bachaalany, 26 anos, se adaptou rápido aos costumes da terra do feijão-com-arroz. "Mesmo com todas as diferenças culturais, sobretudo quando se trata do estilo de moradia, religião e estrutura política, minha maior dificuldade foi em relação à língua portuguesa, que demorei cerca de sete meses para aprender", conta a jovem funcionária do Consulado Libanês no Rio de Janeiro que, mesmo estando há 11 anos no Brasil, ainda sente falta dos encontros familiares, da comida libanesa e de ver a neve no alto das montanhas.

“Na Inglaterra, as pessoas vivem para trabalhar e, no Brasil, elas trabalham para viver. Também, o clima sempre ensolarado daqui nos encoraja a ter uma vida mais junto à natureza”

Quem não sente saudade nenhuma de sua terra natal é Judi Newsan. Com um passaporte de dar inveja a muito mochileiro, a australiana já se considera uma "carioca da gema" e costuma dizer que não escolheu o Brasil para viver, foi nosso país que a adotou. Filha de um funcionário da ONU, Judi já viveu no Uruguai, no Peru, no Irã, na Jamaica, em Vanuatu (!), na Itália, em Londres e, mais recentemente, na Irlanda.

Em 2001, ela recebeu um convite de sua empresa para liderar as operações no Brasil. Ela aceitou e trocou, sem se arrepender, a "fantástica" vida social que tinha no Reino Unido, com todas aquelas peças de teatro e musicais, por uma vida mais outdoor, onde as prioridades são as caminhadas e idas à praia. "Na Inglaterra, as pessoas vivem para trabalhar e, no Brasil, elas trabalham para viver. Também, o clima sempre ensolarado daqui nos encoraja a ter uma vida mais junto à natureza. Meu nível de stress diminuiu sensivelmente desde que cheguei no Brasil", diz ela, animada.

Judi confessa adorar as telenovelas brasileiras, além da comida, do clima e da alegria do povo. Como pontos negativos do país, ela cita a pobreza, a desigualdade social e a corrupção. "A violência também me assusta, mas é uma coisa que existe em todos os grandes centros mundiais. Não deixo que o medo faça mudar minha rotina. Apenas tomo algumas precauções e evito que o pior aconteça".

Com relação à famosa liberação sexual da mulher brasileira, Judi diz não ter estranhado tanto, afinal, a Irlanda do Norte tem uma cultura bastante parecida com a brasileira, nesse aspecto. "Em compensação, a Irlanda do Sul é bem diferente, sendo um dos países onde a religião católica romana atua de forma mais rigorosa. Eu diria que nesse sentido é um país mais parecido com o Brasil de um século atrás, embora ache que, mesmo assim, aqui ainda devia ser muito mais animado!", diverte-se. Joelle e Judi tiveram sorte, pois nem todas as estrangeiras que moram aqui vieram por uma questão de escolha. Muitas famílias tiveram que, literalmente, fugir de pressões políticas em seus países, deixando para trás suas conquistas, moradia, amigos, trabalho.

Em 1974, Anabela Araújo veio para o Brasil a passeio, conhecer uma parte da família que vivia aqui, mas por causa da revolução civil na Angola, seu país de origem, sua mãe decidiu ficar. Atualmente com 44 anos, a secretária executiva diz que o fato de ter o português como língua pátria ajudou muito em sua adaptação. "Ainda assim, meu sotaque português me deixava muito tímida, pois na escola e nos ambientes sociais, todos paravam para me ouvir falar. Por sorte, uma amiga percebeu meu constrangimento e, a cada palavra que falava, ela mandava eu repetir com o sotaque brasileiro. Minha necessidade de ser igual às minhas amigas foi tão grande que hoje ninguém diz que não sou daqui", diz Anabela.

"Sentia falta dos amigos, da escola e do meu país, mas tive que aceitar a situação, pois sabia que todos em Luanda estavam indo embora. Uns foram para Portugal, outros, para a Espanha e até mesmo para o Brasil", lembra a angolana que, apesar de também citar a hospitalidade do povo brasileiro, reclama que "aqui no Brasil, tudo é corrido, ninguém tem tempo para nada. É um país mais americanizado, diferente de Portugal e das colônias portuguesas, onde a família, a dignidade e o respeito ao próximo são tudo".

Para Olga Ana Kastaing de Oliveira, as rivalidades entre Brasil e Argentina não passam de lenda. Em 1956, ela veio para o Brasil pela primeira vez fugindo da ditadura de Perón, "muito mais dura que a brasileira", segundo a argentina. Depois de pouco tempo, a saudade da vida em Buenos Aires falou mais alto e Olga voltou para sua terra. Mas o tempo em que passou no Brasil também deixou marcas e logo ela voltou para viver com um brasileiro, com quem teve três filhos. Amante da alegria de viver e da musicalidade esbanjadas por nós, Olga, hoje com 76 anos, ainda não consegue entender a passividade do povo que a acolheu. "O que me decepciona no Brasil é a falta de honestidade por parte dos governantes, e a falta de reação da população com relação aos casos de injustiça e corrupção", protesta.




Mais matérias sobre

compartilhe esta matéria!

Siga o Bolsa de Mulher no twitter



últimos comentários (0)

ver mais
  • novo comentário

    Você
    :D


    Avise-me quando houver novos comentários nessa matéria




Bolsa Mobile

Receba as notícias e atualizações na rede do Bolsa no seu celular.
Saiba como.