Dona de casa, sim!

Elas não fogem da luta. Cuidam da casa, dos filhos e do marido!
por admin

Por falta de alternativa melhor ou por real vocação pra coisa, tem muita mulher fora do mercado de trabalho e lá dentro do hortifruti, ou seja, são donas de casa. As condições do serviço não são das melhores: elas não tem horário fixo, nem salário e muito menos férias. Mas chato mesmo é ouvir dos amigos, nem tão queridos assim, que elas não fazem nada. O quê??? Mesmo com auxílio de uma empregada doméstica, cuidar da casa e dos filhos não é mole – trata-se de uma ocupação estressante e muito pouco reconhecida. Há quem se mostre bastante satisfeita por poder acompanhar o crescimento dos filhotes de perto, fazer cursinhos e cuidar de si – essas são chamadas, às vezes injustamente, de dondocas. Mas muitas se sentem frustradas e pouco produtivas, enquanto suas amigas conquistam os melhores cargos (e também algum dinheiro) no mundo lá fora.

Dizem que a gente nunca está satisfeita com o que tem: quem é dona de casa fica doida pra arranjar um emprego, enquanto quem trabalha fora quer mais é largar tudo e dar uma de "Amélia", como a advogada Márcia Galvão. Mesmo depois de ser mãe, a prioridade de Márcia sempre foi a carreira e os estudos. "Quando a minha filha completou seis meses, já voltei a trabalhar com força total. Hoje percebo como fui negligente com ela, uma vez que quase não ficávamos juntas. Eu trabalhava tanto que, quando chegava em casa, ela já estava dormindo", confessa.

Eles foram treinados para o papel de provedor e, por puro machismo, transferem toda a responsabilidade da casa e da criação dos filhos para a mulher.


Essa história teria um final infeliz, não fossem as férias de um mês em que a advogada pôde curtir a filha fulltime. "Ela já estava com cinco anos e foi praticamente um sonho: fazia passeios, contava histórias, a colocava pra dormir. Foi aí que resolvi deixar o escritório", conta a ex-advogada, admitindo que seu padrão de vida caiu muito, contando apenas com a renda do marido, mas nenhum bem material é tão valioso como o contato próximo com a filha.

Taí um ponto importante: la plata. A dona de casa Joana Santana que o diga! "Quando me casei, tranquei a faculdade e virei esposinha. No inicio, foi legal, ajeitei nossa casa toda, fiquei malhada e loira, sabia de todos os programas que passavam na TV. Mas ter que pedir dinheiro até para comprar uma revista na banca é complicado. Ele não é meu pai, mas meu marido", desabafa Joana, com a promessa de que vai voltar aos estudos no semestre que vem. "É uma longa caminhada. Tenho que estudar, arranjar um estágio, me formar... Ainda falta muito pra ficar independente financeiramente. Se o casamento acaba, vou ficar com uma mão na frente e outra atrás", diz.

Para quem não tem grandes preocupações com o saldo bancário, a maternidade pode servir como desculpa para deixar a carreira de lado. A publicitária Neide Ferreira optou por abandonar a agência assim que engravidou pela primeira vez. "Não pensei duas vezes. Detestava o que fazia e a gravidez caiu como uma luva para jogar o diploma pro alto", lembra. Hoje, três filhos depois, confessa sentir falta de trabalhar e ter outras responsabilidades. "Não é pelo dinheiro, mas sim pela sensação de estar produzindo. Tomar conta das crianças é maravilhoso, mas me sinto 100% apta a acumular as funções. Poderia trabalhar fora e ainda assim ser uma boa mãe. Do jeito que está, é como se eu estivesse me subaproveitando", comenta Neide, que anda procurando um emprego para se sentir mais útil e recuperar o tempo perdido – mas não é tão simples assim...

Nem sempre a carreira de dona de casa é seguida por opção. O mercado de trabalho apronta das suas para manter a mulher no lar doce lar, como aconteceu com a secretária Manoela Tavares. "Trabalhei a minha vida toda, até que empresa faliu da noite pro dia! Aí fiquei de molho sem conseguir arranjar um novo emprego", conta Manoela, que no início chegou a entrar em depressão, por não ter o que fazer. A secretária conta que seu casamento ficou por um fio, tamanha choradeira interminável dentro de casa. "Fui me habituando e aprendi a usar melhor o tempo, entrei em cursos como de artesanato e jardinagem – só coisas que gosto e ainda posso aplicar no meu dia-a-dia. A verdade é que meu marido está adorando ter sua mulherzinha só pra ele, cuidando de tudo, toda perfumada quando ele chega", comenta.

Segundo o psicólogo e terapeuta empresarial Ricardo Estevam, a maior parte dos homens quer mais é manter a mulher dentro de casa. "Eles foram treinados para o papel de provedor e, por puro machismo, transferem toda a responsabilidade da casa e da criação dos filhos para a mulher. Isso é bastante cômodo, porque se algo der errado, a culpa é sempre da dona de casa, que não teria cumprido a sua parte direito", afirma, acrescentando ainda que na cabeça masculina, quando a mulher trabalha fora aumentam as chances de traição.

Por questões de criação, muitas estagiárias de "Amélia" têm como sonho de vida casar e ter filhos, sem enxergar o trabalho doméstico como algo menor. Já quando a mulher é "do lar" por conta das dificuldades do mercado de trabalho ou por não ter com quem deixar as crianças, a situação fica um tanto mais complicada. "Ao abandonar seus projetos, ela pode se sentir frustrada e sofrer depressão, ter problemas sexuais, de obesidade ou desleixo com cuidados pessoais e até crise no casamento", explica. Ao ver do terapeuta, gostar das tarefas domésticas não é nenhum crime, mas é necessário buscar aprender coisas novas diariamente para, no futuro, não se arrepender de ter jogado a vida fora – pelo contrário, se orgulhar do próprio crescimento intelectual. Ricardo dá sugestões para não virar uma pessoa "cri-cri" (que só fala de criança e criado). "A sociedade cobra que a mulher evolua e é bom mesmo que ela não se acomode. Para isso, se não quiser ou puder entrar no mercado de trabalho, sugiro que ela estude, leia jornais, acompanhe os filhos, faça cursos... O que não pode é só saber discutir sobre receita culinária", conclui.

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