Estilo de Viver

Do bem

por Maíra Donnici | 18/02/2005

Miséria, corrupção, violência. São tantas coisas que fazem desse mundo um lugar inóspito. Ah, seu eu pudesse ajudar... Peraí. Você pode, sim, e até deve. Veja então o que algumas pessoas andam fazendo para um amanhã melhor.




Do bem

Miséria, corrupção, nações se bombardeando, matando gente inocente, poluição, pessoas passando fome, desigualdade, injustiça por todo lado - às vezes, sob o nosso próprio nariz. Por onde passamos, é impossível evitar  aquela sensação de que o apocalipse já se instalou aqui. Normalmente, quando assistimos de camarote alguma cena tocante, o célebre princípio se-cada-um-fizesse-a-sua-parte-seria-uma-notória-diferença vem à tona, até que as imagens de caos são esquecidas no simples desligar da televisão. E, assim, a gente vai seguindo, ora como se fôssemos alheias a essa realidade, ora inconformadas, pensando em como seria se tudo funcionasse no melhor estilo Imagine (a otimista canção de John Lennon). Bom, no entanto, alguns não se limitam apenas às boas intenções. É o caso das pessoas "do bem", gente empenhada em executar ações que, podem até não mudar o mundo, mas certamente contribuem para a melhoria do ambiente em que vivem.

Filantropia, que nada! Também não se trata de abraçar uma causa global ou de virar uma figura bíblica. Quem se empenha em fazer o bem sabe que não precisa ir muito longe. Pode-se começar ajudando aquele próximo, bem próximo mesmo. A estudante de direito Beatriz Peniche acredita que, primeiro, as ações se iniciam com os membros do quarto ao lado. “Eu auxilio como puder quem está à minha volta, principalmente meus familiares, nos mínimos aspectos”, explica Beatriz. Pode parecer pouco, mas ela garante que é o suficiente para tornar o convívio o melhor. Afinal, já dizia o Pequeno, porém não menos sábio, Príncipe: somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. “O que eu puder fazer, executo com boa vontade, e isso contagia os outros. Acho que, sendo generosa com alguém, essa pessoa pode agir da mesma maneira com outra, e por aí vai. Também penso em mudar através da profissão que eu escolhi. O direito estuda e tenta regular a sociedade, uma função fundamental”, alega.

E por falar em usar o ofício para fazer o bem ao próximo, a psicóloga Juliana Pagy é, literalmente, profissional neste quesito. Não satisfeita em cuidar da saúde mental de seus pacientes na clínica, ela uniu talento com a vontade de ajudar a sociedade voluntariamente. “Faço parte de um projeto chamado Casa da Árvore, uma iniciativa que visa auxiliar crianças, parentes e crecheiras de comunidades carentes em alguns morros do Rio de Janeiro”, conta Juliana. E não pára por aí. Decidida a estender seu conhecimento para assessorar os menos favorecidos, ela foi além: “Também presto serviços para o Conselho Estadual Anti-drogas (Cead), um pólo de tratamento de dependência química. O fato de gostar da minha profissão e de estar bem comigo influencia. Afinal, a maneira de lidar com o ser humano é o fator decisivo em situações em que uma palavra e um gesto de boa sorte fazem toda a diferença para quem está no fundo do poço. Tenho contato com pessoas que eu nunca teria, o que me traz experiência, gratificação, e me ensina a dar valor ao que eu tenho”, avalia a psicóloga.

Ser do bem é, antes de tudo, reconhecer a dimensão coletiva da realidade. Portanto, mesmo que uma ação não afete diretamente você, ela pode ter grande impacto na vida de quem precisa. Por acreditar nisso, a produtora Isabel Veiga está constantemente bolando alguma forma de ser solidária. “Eu não acho que vou mudar o mundo sozinha, mas tento fazer o que está a meu alcance, na minha família, com meus amigos, no bairro onde moro. Atualmente, canalizei minha participação na sociedade com um projeto de educação comunitário que prepara pessoas carentes para ingressar em uma faculdade. O diferencial é que não fornecemos só ensino acadêmico, como também conscientização, laser e cultura”, descreve Isabel, reconhecendo que ela se beneficia com a troca. “Eu me preocupo com a natureza também. Vivo catando lixo na praia, separando para reciclagem. Aprendi isso em casa: meu pai comprou um sítio com o objetivo de preservar uma nascente da Bocaina, em Minas Gerais, e restaurar a vegetação de lá. O que limita minha atuação, infelizmente, é a falta de acesso, pois não vejo muitas oportunidades perto de mim”, reclama a produtora.

Visando guiar instituições e pessoas como a produtora Isabel, que querem fazer o bem, só que não têm a menor idéia de como começar, surgem iniciativas como o Rio Voluntariado, uma organização não-governamental sem fins lucrativos, que tem como missão contribuir para a inclusão social por meio do voluntariado e de ações educativas. “As pessoas apresentam grande vontade de ajudar e não sabem como, acham que requer muito tempo. Por isso, nós oferecemos palestras para desenvolver o conceito de voluntariado - delineando direitos e responsabilidades – e estabelecer um elo entre cidadãos ou empresas e instituições sem fins lucrativos. É possível ser voluntário em diversas áreas”, esclarece a coordenadora de comunicação do Rio Voluntário, Liane Reis, acrescentando ainda que esse tipo de ação desperta a conscientização e faz a diferença. “Ser voluntário é uma forma de exercer a cidadania, pois permite que as pessoas usem seu direito de participar da melhoria da sua realidade. Isso causa uma sensação de satisfação enorme”, resume ela.

Então, se você associa o conceito de voluntariado a um princípio assistencialista, está muito enganada. “Fazer rodas de leitura com crianças, ler para cegos ou executar atividades-meio como, por exemplo, ajudando organizações, traçando planejamento, captando recursos, já representa uma forma de ajuda. Sempre existe alguém precisando do pouquinho do seu tempo e do seu talento”, define Liane Reis. Provavelmente você não tinha noção do quanto era fácil e agora já está louca para colocar a mão na massa, não é mesmo? Não é à toa que nós, mulheres, estamos sempre à frente de iniciativas em busca de um mundo melhor. “A maioria dos voluntários no Brasil inteiro são mulheres, com nível superior, entre 25 e 45 anos, o que significa que somos mesmo mais solidárias, talvez por uma herança cultural”, afirma a coordenadora de comunicação do Rio Voluntariado. Agora que você já sabe que não precisa mover moinhos de vento para fazer a sua parte, não deixe a vontade morrer. Em casa, na rua e nos mínimos gestos, o importante é ser do bem. 



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