Crise dos 30

Agora é parece que é pra valer. Qualquer erro pode ser fatal, pois o tempo já não joga mais no mesmo time. Abre-se o placar da crise do 30, um drama que assola muita gente. Mas, se vivida com equilíbrio, pode se reverter em muitas conquistas.
por admin

Analisando a trajetória humana, podemos dizer, sem forçar a barra, que chegar aos 30 anos já é uma vitória. Sim, porque foram vencidas as agruras hormonais da adolescência, as loucuras da fase dos vinte, quando as perspectivas de vida mudam a cada troca de calcinha, e até os primeiros rastros da flacidez e da celulite, que surgiram sem implicar diretamente em sessões dobradas de terapia. Só que, por mais que ela se esforce para se sentir uma vencedora, a mulher - e o homem também – de 30 anos acaba se deparando com uma perturbadora constatação: o jogo já pode até ter começado, mas só a partir de agora os pontos começam a ser contados. Assim, abre-se o placar da crise dos 30, um drama que assola muita gente, mas que, se vivida com equilíbrio, pode se converter no pontapé inicial de uma verdadeira e definitiva conquista.

Um bom exemplo disso é Tatiana Vargas, arquiteta, 37 anos. Há exatos dez, ela começou a sentir estranhos sintomas, ventos que denunciavam que o tempo ia virar logo, logo. "A crise dos 30 é uma espécie de TPM que dura uns três anos. E parece que o mundo conspira contra, até comercial de detergente faz com que você repense a sua vida", lembra ela. O auge de sua crise foi aos 31, quando Tatiana terminou um casamento de seis anos e resolveu continuar sua “auto-análise” dividindo cama e escova de dentes com um garotão dez anos mais novo. “Foi uma decisão corajosa, mas muito bem pensada. Na verdade, enquanto decidia o que fazer do meu casamento, tive o primeiro contato sério com minha maturidade. Fui muito feliz nessa fase”, conta. No entanto, a troca de travesseiros não significou o fim da turbulência interna na vida da arquiteta. “Fiquei pensando se eu não estava aceitando a minha nova idade, se aquilo não era um desejo meu de voltar à juventude pelo meu novo namorado. Mas decidi deixar essas neuroses de lado e aproveitar a vida que eu tinha escolhido”, conta ela. Por fim, Tatiana confessa que o que mais a atormentou foi a sensação de que, depois de virado o contador, qualquer erro poderia ser fatal. “Dá muito medo porque a sensação é de que as coisas são mais definitivas. Só que, se a gente não se permitir errar, seja lá em que idade for, não vamos nem sair da cama de manhã”, reflete ela.

O questionamento-chave que rege a trilha sonora dessa conturbada chegada ao portal das balzaquianas não poderia ser mais simples e mais complexo: “que diabos eu estou fazendo da minha vida?”. Mais do que o suficiente para torcer qualquer cabeça pelo avesso, essa perigosa perguntinha sabe, como poucas, ser dolorosa. Principalmente se a largada dos 30 também representa o término de prazo. “Quando cheguei nessa fase, parei e me perguntei o que eu já tinha realizado de concreto. Não encontrei nada. Tinha a minha vidinha, meus namorados, meu consultório. Mas tem muita coisa que a gente planeja conquistar até lá e não consegue”, confessa a dentista Cristiane Pinho. “Além disso, tinha medo de ficar careta, de virar uma velha, de me acomodar naquele marasmo. Hoje, no entanto, Cristiane, com 35 anos, volta à pergunta que lhe tirou o sono por algumas noites e descobre outras repostas. “Percebi que só passei bem por essa crise porque já tinha algum conhecimento da vida e alguma maturidade. Coisas que eu tinha conquistado ao longo dos anos, mas que até então, não tinha percebido”, conclui ela. “Isso só não adiantou muito quando começou a aparecer pé-de-galinha, pneu. E você reclama e todo mundo te chama de histérica, de exagerada. Só te deixa ainda mais possessa”, protesta.

A estilista Amanda Oliveira é outra que também reclama da falta de sensibilidade do espelho que, nessas horas, está longe de ser um bom amigo. “Não tem essa história de que aos 30 ainda se está inteira, que a pele tá linda, que a bunda não cai. Cai mesmo, perdemos o viço”, garante. Foi por essas e outras que a professora Luciana Soares preferiu a companhia muito mais compreensiva dos cremes e loções. “Estou no meio da crise dos 30 e já percebi que ela me transformou numa pessoa louca por cremes. Tenho todos os anti-rugas que você possa imaginar no meu banheiro”, conta. “Não sei se, com isso, estou compensando, mas realmente essa fase deixa a gente mais carente”, reconhece Luciana, que acabou encontrando nisso o lado mais legal da crise dos 30. “Estou mais próxima dos meus amigos do que nunca. Talvez porque estejamos todos passando pelos mesmos problemas, estamos bastante unidos, ninguém deixa nenhuma bola murchar”, conta ela.

A crise dos 30, entretanto, não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Muito pelo contrário, ela deve ser encarada como um pincher, aquele cachorro magro e pequenininho, metido a valentão, mas que, com um simples passa-fora, recolhe sua personalidade raivosa à sua insignificância física. “Ela pode se manifestar de muitas formas. Algumas se deprimem, outras mudam de emprego ou assumem novas responsabilidades. Mas tudo isso é fruto de uma profunda auto-avaliação”, resume a psicoterapeuta Maria Adelaide Ferraz. Segundo ela, a crise dos 30 anos é o primeiro ritual de iniciação na vida adulta. É a partir dela que se inicia o verdadeiro processo de autoconhecimento e que começamos a nos levar mais a sério. “É um período de cobrança por uma contribuição ao mundo própria, única, de respeito à individualidade”, explica. Por isso, para sair inteira de furacão, auto-estima é fundamental. “É importante ter confiança na própria capacidade e não se deixar imobilizar pelas dúvidas e pela cobrança excessiva”, diz Maria Adelaide. O resultado disso é sabedoria, algo fundamental para a aproveitar a vida que, afinal de contas, está apenas começando.

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