Maria Cecília Lamartine não desgruda do celular e não vive sem checar, constantemente, seus três e-mails diferentes e os principais acontecimentos do dia na web. Patrícia Martins é igual: não fica sem conferir o correio eletrônico, sem navegar pela internet e, toda vez que passa pelo computador, verifica se recebeu alguma mensagem instantânea. Carolina Orofino nem sonha em viver desconectada do mundo e entra em pânico quando o seu celular fica fora da área de cobertura. Marina Fraga só desliga o computador para dormir e pode até esquecer a chave em casa, mas o celular, nunca! Muitos dizem ser esse o mal do homem contemporâneo: a ânsia de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a necessidade de estar sob o alcance de tudo e todos. E a tecnologia está aí para isso: serve como âncora desses nossos desejos, das nossas novas necessidades. Para o homem ou mulher do século XXI, o tal do "porto seguro" se resume em duas palavras: estar conectado.
Dentro da área de cobertura Difícil imaginar como já foi possível sobreviver sem esse poderoso meio de comunicação móvel, não é mesmo? Celular passa longe de ser modismo e, hoje em dia, é mesmo uma necessidade. É raro encontrar quem não tenha um - e até mesmo mais de um. Esse é o caso de Jorge Silveira, 30 anos, programador. Para sua tranqüilidade, ele tem dois aparelhos. "Preciso muito do telefone para trabalhar e acabei ficando com dois. Aí não corro o risco de perder telefonemas", explica Jorge.
“Quanto mais facilito para as pessoas me acharem, menos acredito que podem me achar ou que têm necessidade de mim”
Para Carolina Orofino, 25 anos, jornalista, o celular também é indispensável ao trabalho e à vida! Como sai muito e trabalha fora, o telefone acaba sendo o veículo para sua mãe saber se está tudo bem com ela. E, é claro, o dispositivo de localização dos amigos. "Sinto a necessidade de estar sempre localizável", diz. Até para a cama eles vão juntos! "Durmo com o celular ligado porque tenho a paranóia de que alguém pode precisar de mim durante à noite", conta.
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Internet e afins Se sentir incomunicável atormenta, de fato, muita gente. Além de estarem sempre "à mão", as pessoas querem, também, ter a sensação de onipresença - ou seja, querem estar em todos os lugares e saber de tudo - mesmo que de forma remota. Segundo a psicóloga e professora Rosa Maria Farah, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informação da PUC-SP, a sociedade contemporânea não relaxa, querem estar sempre um passo à frente de tudo. "Vivemos numa era em que a competição é muito grande, seja ela profissional, amorosa ou social", revela. Assim, a comunicação é cada vez mais importante.
Maria Cecília Lamartine, por exemplo, além do celular, utiliza programas de mensagens instantâneas, como o MSN ou o Google Talk. "Uso, ainda, meus três e-mails, Orkut e, às vezes, o fotolog para trocar mensagens", conta ela. E isso tudo quase que ao mesmo tempo. Maria Cecília contabiliza, em média, 15 horas por dia conectada. Se for contar o celular, aí passa para 24 horas mesmo!
Patrícia Martins, 49 anos, advogada, também não consegue se desligar do mundo - literalmente. Férias rústicas? "Por mais de uma semana, nem pensar!", diz. E que tal alguns dias de relaxamento total num spa, com muita energia positiva, mas nenhuma elétrica? Maria Cecília já passou férias assim, mas garante que só conseguiu aproveitar por um dia e meio. Quando viu que seu celular não tinha sinal, quase entrou em pânico. "Sinto forme de informação e, quanto mais conectada eu estiver, maior a variedade de conteúdos que posso absorver", revela. Por isso, se sente angustiada pela sensação de alienação, mesmo quando está de férias.
Necessidade ou prazer? A psicóloga Silvana Martani considera a tecnologia um vício e um sintoma de insegurança. Segundo ela, a necessidade de ser achado demonstra que o indivíduo não se sente seguro em relação a si mesmo. "Quanto mais facilito para as pessoas me acharem, menos acredito que podem me achar ou que têm necessidade de mim", explica Silvana, afirmando que o ser humano sempre quis ser amado e se sentir imprescindível, o que é normal. Mas o avanço das tecnologias só contribui para esse sentimento, levando a pessoa a cúmulos de exageros. Passar uma viagem tensa porque o celular não pega?
Silvana acredita que as pessoas não sabem mais relaxar. "Noto que andam tristes, frustradas, se sentindo por baixo", revela a psicóloga. E isso pode fazer um mal danado, contribuindo, por exemplo, para a depressão, o estresse e a ansiedade.
Todos no mesmo barco Quem sabe mais, quem é mais, quem é o melhor... Essa não é uma disputa só do mundo adulto, mas também da juventude. Apesar de a gente pensar que só os adultos, com milhões de tarefas, atribuições e responsabilidades, vivem conectados ao mundo, não é bem assim. Mesmo as crianças e adolescentes, que não têm tantas responsabilidades, estão se conectando de tal maneira que atrapalham sua vida e seu desenvolvimento. "Os adolescentes são um festival de insegurança: eles costumam estar conectados a tudo e a todos para medir prestígio", afirma Silvana Martani. E a psicóloga Rosa Maria completa: "As crianças vêm a máquina como um grande brinquedo, que podem usar à vontade. Os pais precisam impor limites".
Sem o estabelecimento de regras, essa "loucura" de estar sempre disponível em todos os meios - telefone, internet etc - acaba comprometendo a relação com a família e com os próprios amigos, já que o tipo de comunicação no meio virtual é outro, diferente do convencional olho no olho. Rosa Maria Farah afirma que a linguagem corporal e a expressão oral dos jovens ficam muito a desejar se eles perdem o hábito de se relacionar "ao vivo" com outras pessoas.
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