Dia das Mães

Mulheres francesas

por Emilia Ferraz | 26/02/2011

Práticas, descoladas e magras, elas têm estilo para dar e vender




Mulheres francesas

Recentemente, passei um fim de semana em Paris, hospedada na casa de um casal de amigos franceses. Ele, filho de intelectuais, cultíssimo e ultra- internacional. Ela, culta, chique, magra e fumante. O perfeito estereótipo da mulher francesa e do seu charme meio despojado, meio calculado.


Espalhados pelo apartamento: de um lado, cigarros, cinzeiros, livros e revistas. De outro, perfumes, cremes de beleza, bijuterias e bolsas. Na cozinha, indícios de guloseimas confirmavam que a mulher francesa sabe aproveitar do bom e do melhor para o paladar, sem denunciar na cintura.

“Também não tem muito a ver com o estereótipo da francesa intelectual, descendente de Simone de Beauvoir, que vive pelos fumacentos cafés de Paris com um drinque, um livro e um cigarro na boca, reclamando da vida”

Esse perfil da francesa, ou melhor, da parisiense de classe média, prática, descolada e, ao mesmo tempo, charmosa e com estilo para dar e vender, é o que mais exerce fascínio e admiração mundo afora.

Nos últimos dez anos, vários livros tentaram explorar esse estereótipo como um estilo de vida a ser adotado por mulheres de todas as gerações e nacionalidades. Edições como "French Women for All Seasons: A Year of Secrets, Recipes and Pleasure" (em português, "Mulheres Francesas para Todas as Épocas: Um Ano de Secredos, Receitas e Prazer) e "French Women Don't Get Fat" (Mulheres Francesas Não Engordam"), ambos de Mireille Guiliano, e "Entre Nous: A Woman's Guide to Finding Her Inner French Girl" ("Entre Nós: Um Guia da Mulher para Encontrar a Garota Francesa Interior"), de Debra Ollivier são exemplos.


A imagem escolhida a dedo nesses "manuais" é totalmente diferente da figura da mulher francesa sedutora, perigosa, charmosa e propensa a um ataque histérico por minuto, imortalizada na literatura em "Madame Bovary". Ou no cinema, em personagens vividos por atrizes como Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Carole Bouquet e, mais tarde, por Emmanuelle Beart e Juliette Binoche.


Também não tem muito a ver com o estereótipo da francesa intelectual, descendente de Simone de Beauvoir, que vive pelos fumacentos cafés de Paris com um drinque, um livro e um cigarro na boca, reclamando da vida. Aliás, rsse último perfil está um pouco restrito. Hoje em dia, os cigarros são proibidos em qualquer ambiente fechado de Paris.


A francesa dos guias não se enquadra na defininão de francesa do interior, com seu papel de parede floral, saia "maria-mijona", péssimo humor e mau gosto musical (só escuta pop francês). Como se pode notar, nem todos os estereótipos das representantes francesas do sexo feminino são bons instrumentos de marketing.


Em seu divertidíssimo livro "Le Dossier", a inglesa Sarah Long tece um retrato mais cômico. Sua personagem, Hortense de Montplaisir, é uma francesa que vive em Londres com seu marido diretor de empresa e um casal de filhos. Ela é uma esnobe careta que considera a França o centro do mundo. E acha que suas rivais mais próximas, as mulhereres inglesas, se vestem como um trapo (Topshop e All Star, nem pensar!).


Hortense faz paralelos entre Londres e Paris - onde tudo é melhor e de gosto superior. Traça, com boa dose de humor, o perfil da típica francesa orgulhosa de sua nacionalidade e do seu gosto apurado, seja nas vestimentas, seja na cultura e na gastronomia.


Em todos esses perfis, existem pontos comuns. Além do orgulho de seu país, a mulher francesa tem orgulho de sua família. A França é um dos países com a maior taxa de casais com filhos da Europa. É comum famílias bastante jovens com três ou quatro filhos.


Curiosamente, as férias são só do casal. Entre vários que conhecemos, nas férias, os filhos vão para casa dos avós no campo e os pais partem em nova lua de mel. Durante a estação de inverno, eles costumam ficar em família. Mas o verão é a dois.


Para mim, uma cena típica da mulher francesa atual se passa após o horário escolar, na padaria do bairro onde mora. A personagem em questão, bem vestida na volta do trabalho, perfumada, salto alto, um filho pequeno em cada mão, escolhendo um "brioche" ou "pain au chocolat" como "goûter" (lanche) para si e para cada dos pimpolhos. Leva também uma "baguette" para comer durante o jantar.


Como não engordam? Deve ser todo aquele cigarro que consomem sentadas nos cafés de Paris, livro na mão.

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