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Fomos habituados a seguir um modelo de beleza eurocêntrico. Mulher bonita é alta, magra, tem cabelos lisos, formação óssea longilínea. Em um país como o Brasil, onde a mistura de raças resultou em um número infindável de "belezas", este ideal é praticamente inalcançável para quem, em sua mistura genética, não tem estes componentes.
Podemos dizer que há como seguir um "padrão de beleza"? Para o psicólogo e psicoterapeuta Marco Antonio De Tommaso, absolutamente não. "Quando falamos em padrão, estamos falando de um atributo que 50% das pessoas possuem. Em se tratando de beleza, os atuais ícones de beleza – as modelos – correspondem a 0,5% deste chamado ‘padrão’. A primeira conclusão é que não existe um padrão de beleza, uma vez que uma porcentagem ínfima da população o possui", diz.
Isso não evita a avalanche de informações que recebemos de todos os lados, nos puxando para este, digamos, "modelo": as revistas de moda têm modelos magras e jovens; as atrizes do cinema e da televisão têm pele, cabelos e unhas impecáveis; as grifes enlouqueceram nos manequins e as medidas estão cada vez menores – como se, para ter o “direito” de entrar em determinada roupa, a mulher devesse seguir o que a ditadura estética impõe. Para isso há um arsenal de armas: a toda hora surgem novos tratamentos estéticos, dezenas de cosméticos com tecnologia avançada, dietas milagrosas, cirurgias estéticas com maior tecnologia e preços um pouco mais acessíveis. Como resistir?
Se o seu tipo físico foge ao ideal buscado pela maioria, inevitavelmente, você estará excluída. Será diferente. Falando como padrão, será "menos". Menos bonita, menos magra, menos malhada. E aí, o que fazer? Uma pesquisa recente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), encomendada ao instituto Datafolha, mostrou números que – please! –, devem nos fazer pensar: o Brasil é o segundo país do mundo (atrás apenas dos Estados Unidos) em procedimentos cirúrgicos com finalidades estéticas. Entre setembro de 2007 e agosto de 2008, registrou-se 1.252 cirurgias estéticas por dia. Ou 547 mil cirurgias em um ano – o que, somado aos procedimentos cirúrgicos reparadores, totaliza 629 mil operações deste tipo. Foram 69% de cirurgias estéticas contra 31% de cirurgias reparadoras.
A pesquisa mostrou que os implantes de silicone somaram 96 mil, ultrapassando as lipoaspirações (91 mil) – e que as cirurgias de aumento dos seios são 74% mais freqüentes do que as de redução da mama (que totalizaram 55 mil no mesmo período). Uma prova irrefutável que estamos, definitivamente, vivendo em um Brasil siliconado. Este é o atual modelo. Ai daquela que ainda entrar em um sutiã M.
Outros números divulgados pelo levantamento traçam o perfil das brasileiras que se submetem a cirurgias estéticas: 38% tinham entre 19 e 35 anos; 34%, entre 36 e 50 anos; e 28% de outras faixas etárias. Foram 88% de cirurgias realizadas em mulheres, contra 12% em homens. As intervenções estéticas mais realizadas foram: mama (33%), lipoaspiração (20%), abdome (15%), pálpebras (9%), nariz (7%), face (7%) e outros procedimentos (10%).
O médico Jorge Antônio de Menezes, membro titular e especialista em cirurgia plástica da SBCP/Minas Gerais, diz uma frase muito oportuna sobre a ditadura da beleza, em um excelente artigo publicado no site Medicina Avançada, da Dra. Shirley Campos: "(...) na busca do corpo ideal, pessoas querem a todo o custo se adaptar aos padrões reinantes, e visando um resultado rápido recorrem a grandes cirurgias de correção e implantes, em processos que muitas vezes submetem o paciente a diversos tipos de procedimentos em uma só cirurgia. É fundamental alertar que a cirurgia estética é um procedimento cirúrgico e como tal deve ser respeitado. Fazer uma coisa de cada vez e a seu tempo e não se expor a riscos desnecessários, que podem vir a terminar em resultados insatisfatórios ou até mesmo em complicações graves para o paciente".
Em outro trecho, em relação ao número desproporcional entre cirurgias estéticas e reparadoras, ele escreve: "As prioridades inverteram-se. Se um marciano chegar hoje à Terra, vai achar que a celulite é mais importante do que a queimadura". É ou não é para se pensar? Principalmente tendo sido escrito por um cirurgião plástico consciente de sua responsabilidade social?
O médico chama a atenção para os perigos de se buscar, a todo custo, esse padrão de beleza ideal através de dietas milagrosas, fórmulas mágicas de remédios para emagrecimento e excesso de exercícios físicos. "Em um determinado momento os excessos poderão ter uma conseqüência danosa ao organismo, levando a uma desnutrição silenciosa ou a uma fadiga crônica, prejudicando a vida profissional ou pessoal do indivíduo", escreve no artigo.
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