Dinheiro

Pré-conceitos

por Cynthia Magnani | 15/02/2008

Sofrer com eles no trabalho fere o lado profissional e pessoal




Pré-conceitos

A definição é do dicionário Aurélio: Preconceito = conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida; superstição; crendice; intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões etc.

A explicação fala por si só. Preconceito não é argumento, é algo irracional e prejudicial para toda a sociedade. Agora, imagine sofrer de algum tipo de preconceito dentro do seu próprio local de trabalho, lugar freqüentado, na maior parte das vezes, diariamente? Ruim, não é? Agora imagine mais: em um país como o Brasil, onde o desemprego atingia, em julho deste ano, 2,2 milhões de pessoas, a situação, mais que complicada, em que os trabalhadores ficam ao passar por algum constrangimento no trabalho. Muitos se calam, com medo de sofrerem represálias ou perderem sua fonte de sustento.

Assim aconteceu com J.B., 32 anos, logo que foi contratada para trabalhar em um grande escritório de administração. "Uma pessoa que trabalhava na área de RH da empresa disse que eu deveria emagrecer um pouco, porque minha silhueta não combinava com o perfil dos outros funcionários. É um lugar em que trabalham muitos jovens, quase todos de classe média alta, e que cuidam muito do corpo e da imagem. Na hora senti raiva e medo. Se eu não me encaixava no perfil da empresa, por que haviam me contratado? Não fazia nem uma semana que tinha sido contratada", conta. Com medo de perder o emprego que acabara de conquistar, J.B. decidiu esquecer o episódio e seguir em frente.

“O Brasil já caminhou bastante no sentido de constatar que o mais importante, independentemente de gênero ou raça, são as competências que o profissional possui”

Apesar da existência do decreto federal nº 6.215, que estabelece o compromisso pela inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, muitas empresas não possuem estruturas adequadas para receber esses funcionários. Fora disso, o preconceito que, infelizmente, ainda habita muitas mentes retrógradas, dificulta ainda mais a socialização dos portadores de deficiência.

A secretária A.C., 30 anos, sofreu na pele esses dois tipos de problemas. "Apesar de ter em seu quadro mais três deficientes físicos, além de mim, a empresa onde trabalhava não nos dava condições dignas de trabalho. Para mim, que sou cadeirante, era muito chato ver que as pessoas tinham que afastar ou entrar nas salas toda vez que eu precisava ir ao banheiro ou passar pelos corredores, muito estreitos. Uma vez ouvi um colega dizendo: ‘Sai todo mundo da frente, lá vem o trambolho!' Nesse dia não agüentei. Fui direto para o banheiro - que aliás, também era muito pequeno e não tinha barras para que eu pudesse me apoiar - e comecei a chorar", lembra ela, desolada.

Revoltada com o constrangimento e o preconceito de que foi vítima, ela decidiu tomar uma decisão. "Ainda não denunciei a empresa ao Ministério do Trabalho, mas pretendo fazê-lo. Por enquanto, apenas tomei o cuidado de procurar um advogado especialista em direito trabalhista, mas estou também procurando um que tenha experiência em direito dos deficientes. Assim que tiver uma boa estrutura legal, pretendo acionar a empresa na Justiça e exigir meus direitos. Não sei o que vai acontecer com meu emprego, mas seja o que for, não tenho medo. Quero apenas que eu e todos os deficientes físicos no país sejam tratados como cidadãos que somos", ressalta.

Além de contratar advogados particulares, quem se sentir prejudicado pode buscar ajuda em ONGs, Defensoria Pública e órgãos de prestação de serviços jurídicos gratuitos. O órgão com competência para investigar qualquer evidência de discriminação no ato admissional ou no curso do contrato de trabalho é o Ministério Público do Trabalho, ao qual o funcionário pode recorrer para acionar judicialmente o empregador.

Brincadeiras sim, mas com limite

C.P., 18, estudante de engenharia de produção, é freqüentador assíduo das missas de domingo de Santo Afonso, na Tijuca, no Rio de Janeiro. Participa do grupo jovem da igreja e vira-e-mexe é possível ouvi-lo cantando músicas religiosas entre os corredores da empresa onde é estagiário há pouco mais de um ano. Suas preferências geram muitas brincadeiras entre os colegas de trabalho, mas ele diz que, desde que haja respeito, não há problema. "Já fui chamado de papa hóstia, crente, pudico, coroinha etc. Procuro levar na brincadeira, e o clima acaba sempre tranqüilo com meus colegas. Contudo, alguns deles deixam de me chamar para sair porque acham que minha religião não permite. É uma grande bobagem, um pré-conceito e falta de comunicação. Se muitos deles conversassem mais comigo, se me conhecessem melhor, veriam que eu sou como eles, só que também gosto de ir à igreja, não apenas a boates e noitadas", ponderou o estudante.

Esforços contra o preconceito

Em âmbito federal, o Ministério do Trabalho e Emprego tem impulsionado ações e apoios estratégicos com a finalidade de contribuir para a consolidação de uma política nacional integrada de inclusão social e redução das desigualdades sociais com geração de trabalho, emprego e renda, promoção e expansão da cidadania. Segundo informado no site do ministério, essas ações são desenvolvidas por meio de diversos programas do Sistema Público de Trabalho, Emprego e Renda, como o Programa Brasil Gênero e Raça, que combate a discriminação por raça, cor, sexo, religião, opinião pública, ascendência nacional ou origem social, de acordo com as Convenções nº 100 e nº 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e outras discriminações, como idade, orientação sexual, estado de saúde, deficiência, cidadania e obesidade, através de ações educativas de sensibilização.

Na esfera não-governamental, existem diversos organismos que trabalham por condições justas de trabalho à população. O Instituto Ethos é um deles. A ONG, criada com a missão de mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, desenvolveu os Indicadores Ethos, que funcionam como um instrumento de auto-avaliação das práticas corporativas, a fim de que as empresas possam aprofundar seu comprometimento com a Responsabilidade Social Empresarial.

Segundo o documento, "a empresa socialmente responsável não se limita a respeitar os direitos dos trabalhadores, consolidados na legislação trabalhista e nos padrões da OIT (Organização Internacional do Trabalho). A empresa deve ir além e investir no desenvolvimento pessoal e profissional de seus empregados, bem como na melhoria das condições de trabalho e no estreitamento de suas relações com os empregados. Também deve estar atenta para o respeito às culturas locais, revelado por um relacionamento ético e responsável com as minorias e instituições que representam seus interesses".

A Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), associação que promove a disseminação do conhecimento na área, fazendo com que os profissionais de recursos humanos e os gestores de empresas tenham acesso ao que há de melhor em conteúdo e boas práticas das empresas, também trabalha no sentido de desestimular quaisquer práticas discriminatórias no ambiente corporativo. Para isso, oferece seminários, congressos e eventos que tratam de vários temas, sendo um deles as relações do trabalho, onde são debatidos os direito dos profissionais, trabalhadores e empresas.

Leyla Nascimento, presidente da seção Rio de Janeiro da associação, lembra também que não apenas o preconceito o problema. Existem também as pressões desnecessárias que funcionários sofrem diariamente e que fazem parte de uma verdadeira reação em cadeia causada pela alta competitividade que as empresas vêm enfrentando. Ela cita como exemplo a cobrança de resultados não factíveis, que levam os funcionários ao desgaste físico e emocional, causando estresse e problemas de saúde. "Tais formas de cobranças poderão, inclusive, caracterizar assédio moral. O preconceito por raça ou gênero é ilegal e gera procedimentos jurídicos. No tocante à mulher, o preconceito é um pouco mais velado, mas ainda há uma discriminação com relação aos salários e a assumir a determinados cargos", exemplifica.

Mas mesmo tendo consciência dos problemas, ela afirma que "o Brasil já caminhou bastante no sentido de constatar que o mais importante, independentemente de gênero ou raça, são as competências que o profissional possui. Como as empresas estão atentas à necessidade de buscar resultados e estes vêm com o seu corpo de funcionários e profissionais, percebem que reconhecer os bons talentos é um caminho sem volta", elogia.

Mais uma vez a competitividade se faz presente, desta vez na motivação das empresas para coibir qualquer forma de preconceito entre seus funcionários. Conforme alerta Leyla: "As companhias estão muito preocupadas com sua imagem junto à opinião pública e não gostariam de estar ligadas a registros de processos por preconceito. Até porque um funcionário que se sinta prejudicado certamente espalhará no mercado uma imagem negativa do lugar onde trabalhou e foi discriminado".

Mas o preconceito pode causar danos que vão muito além de um arranhão na imagem perante a opinião pública. "Uma organização que traz em seus princípios e valores qualquer ação discriminatória contra pessoas certamente não sobreviverá muito tempo no mercado. Ela acabará tendo perda de resultados, atrairá fornecedores de péssima qualidade, além de profissionais de valores duvidosos ou sem comprometimento", previne.

Mas, o que fazer quando o preconceito parte de seu superior imediato? "Pesquisas revelam que os profissionais escolhem a empresa, em primeiro lugar, pela boa imagem que possui, em segundo, pelos salários e benefícios e em terceiro pelo líder com quem irá trabalhar e que o entrevistou. Mas ao deixar a empresa, o fazem principalmente pela péssima liderança que possuem. Um líder que administra um setor e não é exemplo de ética, transparência, mas sim uma pessoa que discrimina seus funcionários, não faz jus ao cargo. Se há preconceito por parte do líder, ele deve ser denunciado à área de recursos humanos ou à instância maior da empresa", recomenda a presidente da ABRH-RJ.

Esforços de empresas, funcionários, entidades e órgãos públicos são todos são importantes, mas nenhum é definitivo sozinho, principalmente se não houver consciência e educação entre a população, para que o convívio diário com colegas de trabalho, vizinhos, parentes e conhecidos seja sempre coberto de respeito. O preconceito é ilegal e fere os sentimentos de quem o sofre. Cada pessoa é única, somos todos diferentes, mas temos em comum o direito de sermos respeitados.




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últimos comentários (4)

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  • taatyy
    taatyy comentou:
    24/04/2008 | 19:10

    thaty


  • maritcbh
    maritcbh comentou:
    03/12/2007 | 20:03

    Detalhe, não existe só os preconceitos citados na matéria, existe também a discriminação pela escolaridade e pelo tipo de cargo que um funcionário ocupa.


  • ginasgaitas_leonina
    ginasgaitas_leonina comentou:
    03/12/2007 | 15:08

    amiga me de algumas explicações sobre o cintoma pois preciso me tratar e tenho medo
    de pedir a conta pois meu patrão não vai deixar eu sair vai querer q eu peça a conta
    me ajude por favor amiga te agradeço desde já
    bjos!!!


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    Você
    :D


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