Finalmente! Depois de caprichar no currículo, ser chamada para participar de um processo de seleção, passar por uma entrevista e ser aprovada para o cargo, chegou a hora do próximo desafio: o primeiro dia de trabalho. A noite anterior, sempre cheia de expectativas, dá o que pensar. Você vai pisar em um novo ambiente, cheio de pessoas desconhecidas, e ter seu comportamento comentado e observado. É como mudar de país: tudo é novidade. Você também vai precisar descobrir e adotar os hábitos, a cultura, o modo de vestir e a rotina. Antes de abrir a porta da empresa pela primeira vez e dar início a mais uma etapa da carreira, não basta respirar fundo e pedir proteção e muito sucesso ao anjo da guarda: é preciso observar alguns detalhes que podem fazer toda a diferença. Afinal, a primeira impressão é a que fica.
O principal mandamento da vida profissional é o da discrição. Não só no primeiro dia, mas pelo resto da carreira. Chegar na empresa querendo a luz de todos os holofotes não pega bem e causa uma péssima impressão. A webdesigner Juliane Gomes aprendeu isso na marra. Falante e extrovertida, resolveu conquistar os novos colegas contando piadas, fazendo comentários não muito elogiosos sobre o trabalho antigo e puxando conversa. "Não sei exatamente se era porque eu estava bastante nervosa, mas tagarelei sem parar o dia inteiro. No começo, as pessoas prestaram atenção, mas depois notei que elas foram se cansando, demonstrando uma certa impaciência. O ambiente de trabalho é muito diferente da escola, onde eu era muito popular. A gente acaba perdendo um pouco da espontaneidade, tem de seguir algumas regras. Com o tempo, eu consegui me acostumar", afirma. Se por um lado Juliane teve de esconder seu temperamento, a vendedora Danielle Fernandes viveu o contrário. Mais tímida, fez de tudo para chamar a atenção. "Falei alto, dei risada, vesti uma roupa mais ousada. Eu queria fazer o maior sucesso. Mas não dá pra ser assim todo santo dia, então tive de assumir que meu negócio é falar pouco e vender muito", filosofa.
De acordo com a especialista em recursos humanos Simone Turra, da De Bernt Entschev Consultoria, a melhor postura a ser adotada na estréia em uma nova empresa é a de observador. Afinal de contas, mesmo quem tem anos de experiência profissional sabe que é necessário um período de adaptação. "O primeiro dia de trabalho é de aprendizado. É necessário entender, desde o começo, qual o cargo que se vai assumir. Há pessoas que já chegam querendo mudar a cultura da empresa, dizendo que sabem uma maneira mais interessante de fazer as coisas. Na verdade, a melhor forma de começar um novo trabalho é mostrando interesse pela cultura da empresa, buscando informações sobre ela e seus produtos, conhecendo suas regras internas e tudo o que acontece lá dentro", opina. Foi na própria homepage da empresa onde ia trabalhar que o estudante Rafael Cardoso encontrou o que precisava. "Antes de começar a trabalhar, passei alguns dias lendo tudo o que pude sobre a empresa. Cheguei lá um pouco mais seguro, mas ainda tinha muitas dúvidas, que fui esclarecendo aos poucos com os colegas", revela.
Em alguns lugares, com grupinhos de amigos já formados, muitas vezes fica complicado se enturmar. Pode acontecer de os colegas não irem com a sua cara ou simplesmente implicarem com qualquer coisa em você. "Já trabalhei em um lugar onde foi muito difícil eu ser aceita por alguns colegas, por ser mais qualificada. Por mais que me esforçasse em me entender com eles, encontrei certa resistência. Me senti desconfortável no meio deles", relembra a administradora Juliana Martins. No entanto, há quem seja bem recebido desde o primeiro momento. Quando assumiu a função de estagiária numa empresa do ramo automotivo, a advogada Fernanda Damico não se sentiu um peixe fora d´água. Já com alguma experiência em estágio, não sentiu aquele friozinho básico na barriga. "Todos os departamentos me ajudaram muito. Tive ajuda para encontrar documentos arquivados, realizar chamadas telefônicas e obter informações específicas sobre a empresa. O nervosismo ficou para outros dias ao longo do estágio, quando me deram algumas oportunidades de realizar alguns trabalhos em que eu tive de superar a insegurança e a timidez", conta ela. A boa relação com colegas e superiores rendeu bons frutos: ao se formar, Fernanda foi contratada pela empresa e está lá há mais de cinco anos.
Quem tem amigos ou conhecidos dentro da empresa fica muito mais seguro nos primeiros momentos. Foi o caso do webmaster André Sá, que tem como colegas dois amigos da época da faculdade. "Conhecer alguém onde você está começando, ainda mais sendo amigos de longa data, me deixou mais à vontade. Eu sabia que teria um ponto de apoio no caso de me sentir muito perdido. Um desses amigos ficou encarregado de me orientar nas primeiras semanas, então me senti bem mais seguro. A única dificuldade que tive foi me inteirar rapidamente de alguns processos e de algumas partes do sistema da empresa, mas, com a ajuda do meu amigo, as coisas ficaram mais fáceis", comenta. Quem não tem a mesma sorte de André não precisa ter medo de pedir ajuda. De acordo com a consultora Simone Turra, tirar dúvidas quanto à nova função é indispensável. "A empresa deve oferecer treinamento e disponibilizar todas as informações necessárias para isso. Se houver dificuldades, não há problema em perguntar", afirma ela.
Estilo e comportamento
Para quem pensa que boa aparência e roupas discretas só servem para a hora da entrevista de seleção, um pequeno alerta: sua apresentação pessoal e seu modo de vestir serão observados diariamente. Apesar de alguns ambientes de trabalho serem informais, sair pelos corredores da empresa desfilando roupas ousadas vai chamar a atenção, sim, mas de maneira negativa. "Tive uma colega que estava sempre de calças justíssimas e barriga de fora. Logo começaram comentários maldosos sobre o comportamento dela dentro e fora da empresa. Tem gente que prefere mostrar atributos físicos ao invés de caprichar no serviço", alfineta Juliane. O ideal, segundo especialistas, é adotar a sobriedade.
Importante, também, é controlar a língua. Falar mal do ex-chefe e do antigo emprego, como fez Juliane no seu primeiro dia, é tão ruim quanto bajular o novo patrão. "É preciso não somente evitar esse tipo de coisa, como também não dar margem para que surja esse tipo de conversa. Nessa hora, a ética precisa falar mais alto", diz a consultora Simone. Essa e várias outras questões permanecem através dos tempos, mesmo quando já somos antigos profissionais e precisamos mudar de emprego. No entanto, como se pode notar, a resposta é simples: com muito bom humor, profissionalismo, jogo de cintura e humildade, é possível enfrentar o primeiro dia naturalmente – e ainda por cima não fazer feio.
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