Dinheiro

Movimento pendular

por Maíra Donnici | 29/11/2004

Trabalhar dá trabalho, certo? Imagina se você for fazer isso bem longe da sua casa. Pois é, mas tem muita gente que praticamente viaja para chegar ao emprego. E a conseqüência disso pode ser estresse, cansaço e baixa do rendimento.




Movimento pendular

O que vem à sua cabeça ao ouvir a palavra migração? Não diga que pensou naquele bando de italianos dançando a tarantela enquanto viajam em um navio. Acabou de ser reprovada! Agora, se imaginou um pau-de-arara abarrotado de famílias vindas do sertão, está chegando perto. De fato, o fluxo de pessoas que vão de uma região à outra - ou mesmo entre cidades ou bairros distantes – em busca de oportunidades ainda representa uma realidade. Em um país onde arrumar um bom emprego ficou pior do que achar o mico-leão-dourado, uma imensa parcela da população é impulsionada a sair de mala e cuia para tentar a vida em outro lugar. Mas, como aqui no Brasil, sempre se dá um jeitinho, esse contingente demográfico encontrou uma nova alternativa: o deslocamento pendular. Com as oportunidades escassas, e sem condições financeiras para manter a vida perto do emprego, a solução é viajar de casa para o local de trabalho todos os dias. Só sendo super-heroína.

A secretária Rafaela Florenziano que o diga: "São três horas perdidas todos os dias. Eu saio às 07h30min e só volto depois das 21h. Chego sempre cansada". Como passa mais da metade do dia na rua, Rafaela reclama do estresse e da falta de tempo para cuidar do filho, de 13 anos. "Tento participar da vida dele por telefone, ligo umas 20 vezes por dia. Também compenso minha falta nos fins de semana", conta a secretária, que em função da conturbada jornada, vive estressada e não consegue nem ir ao médico.

Estresse, cansaço, falta de tempo... Quem vem de lá pra cá e depende do precário sistema de transporte público para se locomover sofre. Haja criatividade para arrumar mil maneiras de se distrair enquanto enfrenta o trânsito das metrópoles. Moradora de Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio de Janeiro, a designer gráfica Maria Dutra usa três meios de transporte diferentes para ir e voltar do Leblon, Zona Sul da cidade. "Para não inutilizar o tempo que eu passo no trânsito, ponho a minha cultura literária em dia. Leio uma média de três livros por mês", conta a designer, que, pela dificuldade financeira, não teve outra escolha senão viajar durante um sexto do seu dia. "No subúrbio, não há oportunidade para o que eu faço. Só que não dá nem para pensar em alugar um apartamento mais perto, porque os preços são muito mais altos", lamenta Maria, que nem sempre consegue tirar de letra o conturbado deslocamento. "É desconfortável, demorado, principalmente na volta, depois de um dia inteiro trabalhando. Fica difícil manter o bom humor", reclama a designer.

Aproveitando o embalo do pêndulo, andamos para outra mega-cidade e encontramos a administradora Erika Almeida, que também se adaptou ao modo de vida oscilatório. Há cerca de três anos, ela sai de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, e volta apenas para dormir. "Eu trabalhava em uma empresa perto de casa. No entanto, não via chances de progredir ali. As coisas melhoraram quando eu mudei para um emprego na Zona Oeste", conta Erika, que também costuma demorar duas horas cada vez que vai e volta do trabalho. Mas ela não dorme em serviço, transformou esse tempo em seu momento sagrado de cochilo. A nossa amiga paulista conta que pega dois veículos, um a menos que a carioca - e com bilhete único, privilégio de São Paulo. "O tempo que perco no trânsito é equivalente a uma viagem ao interior do estado. Sinceramente, eu adoro essa agitação. Hoje faço tudo perto do trabalho, nem conheço mais os meus vizinhos", comenta a administradora. Apaixonada pelo que faz, ela diz que não deixa o estresse do tráfego influenciar o seu rendimento. "Já que venho de longe, faço valer o esforço e não deixo isso afetar as minhas funções", diz Érika.

No entanto, o movimento pendular deixou de ser uma alternativa somente para os que não têm como morar perto do trabalho. Cada vez mais pessoas, como a engenheira Maria Teodora Rufino, optam por ficar longe da agitação dos centros urbanos, mas continuam no mesmo emprego. "Quando nossos filhos nasceram, eu e meu marido decidimos sair do Rio de Janeiro para criá-los em Petrópolis. Além do fator segurança, queríamos que eles crescessem em uma casa com horta, pomar, cachorros... Enfim, que eles pudessem ter os privilégios de uma vida mais tranqüila", relata a mãe-coruja, que leva cerca de duas horas para subir e descer a serra. "Apesar de a viagem ser cansativa, hoje, com os meus filhos grandes, vejo que o esforço valeu a pena", afirma a engenheira.

Visando o bem-estar de seus funcionários pendulares, as organizações contratam profissionais para cuidarem da integridade física e mental deles, como o psicólogo empresarial Ricardo Estevam. Segundo ele, quando o assunto é trabalhar longe de casa, a equipe feminina sai na pior. "Geralmente, as mulheres têm que dar conta da tripla jornada, como esposas, mães e profissionais, o que é difícil para quem passa quase o dia todo fora de casa. Elas se tornam estranhas no ninho. Em resposta, ficam estressadas, sem tempo para a vaidade e até com problemas sexuais", alega o psicólogo. Ao contrário do que muitos pensam, a queda do rendimento não é a principal queixa das pessoas que o procuram, já que elas compensam o tempo perdido trabalhando no próprio meio de transporte. "A preocupação maior é com a qualidade de vida, principalmente se os salários são baixos. Por isso, mesmo que seja duro esquecer do trabalho, o fim de semana deve ser aproveitado. Se o cansaço for extremo, pode-se dormir um pouco, mas é bom sair para lugares abertos, espairecer", recomenda Ricardo.

Em qualquer parte do país onde existe um centro econômico, vai haver trabalho pendular. O consultor da Catho José Carlos Figueiredo alega que, invariavelmente, todas as empresas possuem empregados que moram longe. No entanto, não pense você que elas travam suas portas giratórias para essas pessoas na hora da contratação. "Isso é muito relativo. Desde que o profissional consiga organizar o tempo dele, evitando que isso atrapalhe no seu rendimento, não há porque ter objeções", assegura José Carlos, revelando ainda que, normalmente, as grandes empresas até fretam ônibus para facilitar a locomoção dos trabalhadores. Viu só? Não precisa ficar tonta de preocupação. Tem muita gente nesse barco. Ou melhor, no mesmo pêndulo.


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