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Mentirinhas são comuns e quem jura de pé junto que nunca mentiu, com certeza, está mentindo. Uma pequena adequação no currículo para se encaixar numa vaga, o despertador que não tocou e causou o atraso para o trabalho... O problema é quando essa ação se transforma numa segunda - e mais conveniente - realidade, e seu criador passa a aceitá-la e divulgá-la como verdade absoluta. Este desvio é chamado de mitomania, o distúrbio de quem tem mania de mentir.
A diferença entre um mentiroso e o mitômano é que o primeiro tem finalidades práticas, enquanto o segundo encontra na fraude uma forma de suprir lacunas da vida. É o que explica a psicóloga clínica Denise Werneck: "Não são mentiras quaisquer, elas têm como objetivo o engrandecimento do ego da pessoa. É provável que o mitômano se sinta inferior, inseguro ou tenha dificuldade de acreditar em si mesmo. A autoestima é muito abalada e ele não consegue aceitar as próprias limitações. É como se a pessoa não aceitasse a realidade".
Marcelo Migon, psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria e doutorando da UFRJ, complementa: "O fraudador objetiva ganhos secundários, conta histórias ao mesmo tempo em que acredita nelas. É uma forma de consolo".
Desde a infância
É preciso estar atento: a mitomania pode dar sinais já na infância. Infelizmente o diagnóstico nesta fase é difícil. "O senso de realidade da criança é diferente do adulto. Quando ela diz que o pai é mais forte do que o Super-Homem ou que a mãe dará um brinquedo igual ao da amiguinha, quando não vai, é normal. É uma questão da fantasia da criança, muito importante nesta fase. Mas se ela passar da fase pré-escolar e não conseguir amadurecer para tolerar as frustrações sem recorrer à mitomania é sinal de que a criança se sente inadequada ou inferior", alerta Denise Werneck.
A mania de contar mentiras ou exagerar acontecimentos pode surgir em qualquer fase da vida. "Normalmente surge depois de um grande fracasso, quando a pessoa se sente injustiçada pela vida. Ela pode desenvolver um quadro de depressão ou usar a mitomania como forma de compensação. É como se fosse um antidepressivo, já que levanta o moral por um tempo", esclarece a psicóloga. "Muitas vezes o problema se apresenta unido à angústia profunda, TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), depressão ou pós-depressão", acrescenta Marcelo Migon.
Ilusão momentânea
O mitônamo sabe, no fundo, que o que diz não é totalmente verdadeiro, mas, segundo os especialistas, a mentira garante um equilíbrio interior. Ele se ilude momentaneamente e quase acredita na veracidade daquilo que conta, como diz o membro da Associação Brasileira de Psiquiatria: "Em determinado momento, o sujeito prefere acreditar em sua realidade mais do que na realidade objetiva exterior". Agora, quando o indivíduo tem certeza de que sua invenção é real, ressalta Denise Werneck, o nome da patologia muda: "Este é o delírio psicótico".
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