Dinheiro

Juros. Fique longe deles!

por Laura Jeunon | 19/09/2005

Todo mundo já ouviu falar em juros, mas ele ainda é um bicho-de-sete-cabeças para muitos. Afinal, que diabos é, de onde vem e de que maneira afeta o nosso bolso? Aprenda a combatê-lo, para não desperdiçar seu rico dinheirinho.




Juros. Fique longe deles!

Hoje em dia o consumidor sofre constantes tentações. Se está em casa assistindo TV, o comercial anuncia que, na compra de um produto, você pode dividir em não-sei-quantas-vezes - e ainda só começa a pagar no ano que vem. Se estamos andando pela rua, de dois em dois metros, tem alguém lhe estendendo um mini-panfleto que diz: "dinheiro fácil". São facilidades que, no final das contas, se transformam num verdadeiro desperdício para o consumidor, que acaba gastando muito mais dinheiro do que gastaria caso se organizasse melhor e colocasse na ponta do lápis o quanto gasta de juros. Pois é, sem dúvida, não existe vivalma que não tenha ouvido falar em juros. Mesmo assim, ainda tem muita gente por aí querendo entender, afinal, que diabos é isso, de onde vem e, claro, como afeta nossos bolsos. Chegou, portanto, a hora de pôr os juros em pratos limpos e aprender, de uma vez por todas, como lidar com eles.

Se números e cálculos já não são coisas pelas quais os brasileiros tenham lá grande simpatia e – até mesmo – afinidade, o assunto juros, então, é para muitos um verdadeiro bicho-de-sete-cabeças (ou 36 dividido por quatro, menos dois). Só que nunca é tarde para fazer, a quem entende do assunto, aquela pergunta que, apesar de não querer calar, você sempre teve vergonha de colocar pra fora: afinal, o que são os juros? Quem responde é o consultor financeiro Cláudio Boriola, autor do livro “Paz, saúde e crédito”. “O juro é o preço do dinheiro. Dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer. Tomemos o exemplo de um fogão. O preço varia em função da lei da oferta e da procura. Quanto maior a quantidade de fogões no mercado, menos o consumidor pagará por ele. Com o dinheiro é a mesma coisa. Quanto mais dinheiro os bancos têm para oferecer aos seus clientes, menos eles cobram pelo empréstimo. O preço que os bancos cobram é a taxa de juros”, esclarece Cláudio Boriola, acrescentando que, para poderem emprestar, os bancos precisam captar recursos no mercado. “Para atrair esse capital, eles remuneram os clientes que depositam seu rico dinheirinho. Essa remuneração também é chamada de taxa de juros. Portanto, por definição, o que o banco lucra é a diferença entre a taxa de juros paga ao depositante e a taxa cobrada de quem pega um empréstimo. É o chamado spread bancário, de que muitos não possuem conhecimento”, define o consultor financeiro.

E, como você deve saber, não é pouco o que os bancos lucram, não. Isso porque, no nosso país, a taxa de juros paga pelas instituições bancárias àqueles que investem é imensamente menor que a taxa de juros cobrada nos empréstimos. “É muita diferença entre o que conseguimos lucrar se investirmos uma determinada quantia do quanto teremos que pagar se pegarmos um empréstimo nesse mesmo valor. Essas financeiras que têm por aí chegam a cobrar juros de 12% ao mês. Isso é quase 300% ao ano! Uma pessoa que pega emprestado R$ 100, ao final de um ano, tem que pagar R$ 400. Ao passo que, se tivesse aplicado essa quantia, teria no máximo R$ 118”, exemplifica a economista Sandra Blanco, autora do livro “Mulher inteligente valoriza o dinheiro” e criadora do site Mulherinvest.

Quem comanda

Outra pergunta pertinente que deve ser respondida o quanto antes é: quem comanda as taxas de juros? Cláudio Boriola nos explica que é o COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) que determina as taxas, mas faz isso levando em consideração o que acontece no mercado financeiro internacional e nacional. “O Brasil depende de capitais externos para financiar sua dívida. Nossa taxa de juros terá que ser sempre maior que a dos Estados Unidos para atrair esses capitais e investidores”, explica Cláudio. Aliás, para quem anda por fora, os juros brasileiros são, simplesmente, os maiores do mundo. “A taxa de juros no Brasil é alta assim para atrair capital e evitar que investidores tirem dinheiro do país. Como o Risco Brasil ainda é muito grande, o que significa que o país tem pouca credibilidade no mercado internacional, os juros altos são uma maneira de equilibrar isso, atraindo investimento”, esclarece Sandra.

A taxa Selic

A economia possui diversas taxas de juros. A chamada Taxa Referencial, por exemplo, a conhecida TR, é a utilizada para remunerar, entre outras coisas, os depósitos da caderneta de poupança. Fora do âmbito bancário, as lojas que oferecem compras a prazo, por exemplo, não poupam criatividade na hora de estipular as mais variadas taxas. E financeiras que oferecem crédito fácil (sem nem exigir documentação!) tendem a elevar o juros cobrado às alturas. Mas existe uma taxa básica de juros, essa que é determinada pelo COPOM: a chamada Selic. “Ela é uma balisadora, direciona outras taxas, mostra os limites do mercado. Está, hoje, em 19,5% ao ano. É em cima dela que tudo acontece”, ilustra Sandra Blanco. Uma definição bem no estilo “economês” ficaria assim: “A taxa Selic é o resultado da média diária das negociações dos títulos públicos. Suponhamos, por exemplo, que, num determinado dia, foram realizadas duas operações com títulos públicos. A primeira pagou uma taxa de 16% ao ano. A segunda pagou mais: 16,2% ao ano. A taxa Selic nesse dia será de 16,1% ao ano”, exemplifica Cláudio Boriola.

A inadimplência

E por que os juros cobrados pelos bancos e por financeiras, quando uma pessoa pede um empréstimo, são tão mais altos que a taxa básica de 19,5% ao ano? “As taxas de juros do crédito são bem mais altas que as do investimento porque, quando um banco ou uma financeira te dá um crédito, ele está embutindo nesse valor, além dos custos administrativos, a possibilidade de você e de tantos outros clientes não pagarem o que devem. Essas instituições pensam: quanto eu preciso cobrar para ainda ter lucro se um número X de pessoas não me pagar? É daí que surge uma taxa de juros exorbitante. Quanto maiores os riscos de inadimplência, maiores os juros cobrados”, explica Sandra Blanco. Levando em consideração que, geralmente, as pessoas que recorrem a essas financeiras que oferecem “dinheiro fácil” por aí são das camadas mais baixas da população, espera-se delas um risco de inadimplência elevado. Portanto, o que acaba acontecendo é que, para os que têm menos, são cobrados juros maiores. “Apesar haver uma certa contradição aí pelo fato de já ter sido provado que os que têm pouco são bons pagadores de dívidas, as financeiras chegam a cobrar 12% de juros dessa turma. O que é um absurdo. O consumidor não pode aceitar isso. Mas enquanto tem gente entrando nessa, vão explorar cada vez mais o cidadão”, alerta a economista.

Para Cláudio Boriola, acontece no Brasil uma “agiotagem generalizada”, uma vez que os juros cobrados são estratosféricos. “Os juros praticados pelo Plano Real é um verdadeiro paraíso de ganhos fáceis para as instituições financeiras. A classe média, a de menor poder aquisitivo, por não saber lidar com o dinheiro, recorre às falsas promessas do crédito-fácil sem saber o significado e a importância da palavra juros. O Sistema Financeiro Nacional pratica uma agiotagem generalizada porque empresta dinheiro às pessoas cobrando juros altamente extorsivo, vergonhoso, às vezes até superior aos cobrados por muitos agiotas que agem na clandestinidade. E isso às vistas de autoridades que nada fazem para impor o respeito ao consumidor mais humilde”, critica o consultor financeiro, alertando para o número de brasileiros que estão com o nome sujo na praça. “Hoje, possuímos mais de 142 milhões de CPFs cadastrados no SPC. Isso demonstra que os brasileiros estão cada vez mais endividados por serem vítimas do capitalismo”, afirma.

Combatendo os juros altos

Não é somente nas compras a prazo e nos empréstimos que os juros afetam o seu bolso, não. Em tudo que é comprado e pago, lá estão eles, embutidos nos preços. Segundo Cláudio Boriola, para que as taxas de juros praticadas no Brasil diminuam, é preciso que a inadimplência caia. E para que isso aconteça, não existe uma solução mágica. O segredo está na educação, investindo nos jovens de hoje, que serão os cidadãos de amanhã. “Devido a todos esses problemas sofridos por nossa população, lançamos o projeto "Educação financeira nas escolas", que visa oferecer melhores condições de conhecimento financeiro no Ensino Médio, fazendo com que, no futuro, tenhamos cidadãos conscientes de suas responsabilidades financeiras e que não passem por tantas dificuldades”, informa.

Hoje em dia, as pessoas utilizam o crédito de maneira equivocada. É o que defende Sandra Blanco. “Atualmente, as pessoas dividem a compra de supermercado em três vezes ou compram gasolina com cheque pré-datado. Isso está errado, porque gastos como esses fazem parte do consumo. Comida não é um patrimônio. É diferente de você financiar um imóvel. No teu orçamento doméstico, tem que ter dinheiro para o consumo mensal. Para bens de consumo, nunca faz sentido fazer crédito. Você tira o produto da loja e ninguém mais paga a mesma quantia por ele. As pessoas estão se enrolando mais e mais, pagando cada vez mais juros e, conseqüentemente, ficando mais pobres. É uma questão de disciplina, de comportamento. É muito importante as pessoas se ligarem em quanto estão pagando de juros numa determinada compra. Mas elas não olham o percentual. Se uma coisa custa R$ 100 e no cheque para 30 dias passa a valer R$ 110, o consumidor pensa: ‘ah, são só mais R$ 10’. Só que esses R$ 10 significam 10% de juros, o que é muita coisa!”, enfatiza Sandra.

Se você colocar no papel o quanto já pagou a mais por ter dividido tais e tais produtos em não-sei-quantas vezes, é capaz de cair pra trás. “Às vezes, a pessoa paga 20% de juros embutidos numa compra a prazo, sem se dar conta disso. Compra uma geladeira e acaba pagando o preço de três. Ao passo que, se ela passasse três ou quatro meses juntando esse dinheiro, compraria a mesma geladeira gastando três vezes menos. Além do que, pagando à vista, o consumidor tem um potencial de barganha muito maior. Só que as pessoas são muito imediatistas”, constata Sandra, que, assim como Cláudio Boriola, insiste que somente através da educação financeira o cidadão brasileiro vai estar preparado para lidar com o juros da melhor maneira possível. “As pessoas perderam esse senso, essa preocupação com o gasto em juros. Se houvesse educação financeira, elas saberiam utilizá-lo para poupar e não gastar mais e mais. Se os jovens começarem agora a aprender na escola a não desperdiçar seu dinheiro em juros, pode até demorar algumas gerações, mas a realidade com a qual nos deparamos hoje será outra”, aposta Sandra Blanco.

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