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Filho de peixe, peixinho é... Partindo dessa máxima, muitos filhos decidem seguir os passos profissionais dos pais. Com portas já abertas, eles podem encontrar tantas facilidades quantas dificuldades, pois muitas vezes é difícil manter a história de sucesso alcançada pelos genitores. Amor à causa, tradição de família ou insegurança em relação ao mercado de trabalho? Filhos contam as razões de sua escolha.
Os pais são o primeiro exemplo do que é ser adulto. Desde pequenos, é através deles que nos deparamos com exemplares do mundo real. Aprendemos a distinguir o certo do errado, a fazer escolhas e, obviamente, a entender o que papai e mamãe fazem quando saem de casa de manhã cedo e só voltam à noite. Para uns, essa vivência gera fascinação pelo ofício dos progenitores, como aconteceu com a ainda estudante Lívia Adnet. Ela reconhece ter se espelhado neles para escolher, ou melhor, cair de amores pelo árduo caminho da medicina, mais precisamente a oftalmologia. "Eu sempre admirei a gratidão que as pessoas tinham pelo meu pai e me apaixonei pela medicina de uma forma que não conseguia me ver fazendo outra coisa", conta a estudante, desde cedo alertada das dificuldades da profissão. “Eles falavam que era complicado, pela dedicação que a profissão exige, mas que valia muito a pena. Como eles já passaram por isso, me compreendem. Então, nunca colocaram pressão”, diz Lívia.
Assim como Lívia, seu pai também se mirou em alguém da família, o avô dele, na hora de decidir o que seria quando crescesse. Sorte dela que, além do apoio, possui o legado de outras duas gerações, e uma estrutura já montada para quando partir para a prática. “Ter uma clínica com os aparelhos já é uma grande vantagem. Fora que o meu pai conhece muita gente do meio”, admite a estudante. No entanto, as cobranças, sobretudo externas, são inevitáveis. “A comparação sempre vai existir, principalmente feita pelos outros oftalmologistas e pacientes. Eu sei que terei que zelar pela reputação que eles criaram”, aponta Lívia.
Quando se vê a dedicação que um membro da família tem, sua ligação com o ofício e os elementos que o envolvem, é difícil não ficar encantado também. Ainda mais se essa pessoa que demonstra tanto amor à causa é alguém bem próximo. Desde criança, ao ser perguntado sobre o que gostaria de ser, Pedro Calmon Neto já sabia que seguiria o Direito, assim como seu pai. Admirador do papel que o advogado exercia na sociedade, “defensor não só das pessoas que causam dano, como também da aplicação correta das leis”, de acordo com as próprias palavras dele, Pedro não hesitou em querer ter mais semelhanças além do nome e aparência física do seu velho. “Eu achava muito bonito ver o meu pai em congressos e sustentações orais. E, ao ver como funcionava o mercado de trabalho, percebi que, para mim, seria mais fácil”, comenta ele.
Portas entreabertas, herança profissional, exemplos de uma carreira bem-sucedida e conselhos, muitos conselhos. Muitos quês a mais na hora de começar em uma profissão, em uma época em que a maioria não possui sequer um empurrãozinho. Apesar de ter escolhido a mesma profissão, Pedro buscou se distanciar um pouco do campo de visão do pai. Isso levanta outra questão freqüente, considerada um ponto negativo quando se opta por seguir a mesma profissão de pai, mãe ou qualquer membro da família: por mais que você se esforce para trilhar seu próprio caminho, sempre vai haver a desconfiança de que só conseguiu porque teve a ajuda dos parentes. “Comecei a trabalhar logo no segundo período, só que no escritório de um amigo do meu pai. Nunca quis trabalhar com ele para não ninguém achar que existe protecionismo”, explica Pedro.
A figura dos pais é importante e, sendo o exemplo bom, nada melhor do que se mirar nele. Afinal, noções de conduta, principalmente em um processo que deu certo, devem ser aproveitadas. Pedro Calmon afirma que, os melhores ensinamentos que recebeu sobre a prática do ofício foram dados por seu velho. “Ele sempre falou da importância de ser uma pessoa competente e honesta, daí vem essa vontade de querer ajudar, por saber que existe defesa, só que nem todo mundo tem acesso a ela”, alega ele, que não se sente livre das exigências. Segundo o advogado, existe uma cobrança com o nome, mais olhos vigiando e, claro, o desejo de superar o que já foi feito. “Meu pai é workaholic, trabalha de domingo a domingo, acorda às 5 horas e vai até às 10. Ele chegou tão longe que vai ser difícil ir além, mas estou estudando para isso”, garante Pedro.
Os depoimentos descritos acima ilustram casos em que não só a influência parental foi importante, como o fato de haver uma estrutura previamente montada para acolher os futuros profissionais. Só que nem sempre é assim. Em certas profissões ou empresas, o tal do nepotismo é visto com maus olhos. Isso porque, nesses casos, a idéia de preservar o cardume tornou-se ultrapassada. “Hoje em dia, muitas corporações optam por contratar pessoas que não tenham ligação com os seus empregados, visando exclusivamente a competência. Dentro dessa filosofia, não pega nem bem chegar em uma entrevista de trabalho e falar que conhece essa ou aquela pessoa”, atesta a consultora de Recursos Humanos Patrícia de Mônica.
Ouvir que o filho quer se espelhar em você representa, na maioria das vezes, motivo de orgulho. Sinal que a informação foi passada com clareza e, mais do que isso, recebida com admiração. Uma decisão que mexe com o ego dos pais de maneira positiva ou, na pior das hipóteses, negativamente. Membro da segunda geração de engenheiros da família, Mario de Freitas fez de tudo para superar a posição de seu pai e foi feliz na investida. Assim, quando ouviu de seu filho que ele seguiria a mesma profissão, não poupou comemorações. O problema é que, ao contrário de seu pai, avô, e de nossos entrevistados Lívia e Pedro, Julio optou pela conveniência. “Saber que o Júlio decidiu seguir a engenharia resultou em orgulho. Por eu também ter vivido isso, me colocou uma expectativa muito maior que, infelizmente, não foi concretizada. Eu estendi as mãos para ele e me decepcionei”, confessa Mario Freitas.
De fato, se um filho que não se mostra estimulado pelo que escolheu já preocupa e desaponta os pais, aquele que desdenha da própria profissão deles causa um impacto ainda maior. “A sucessão é muito delicada porque mexe com o orgulho de pais e o futuro de filhos. A identificação com o que o pai faz deixa qualquer um feliz, mas é preciso tomar cuidado para não imprimir um fardo muito grande a quem está começando. Por outro lado, facilitar demais também não adianta”, aconselha a psicanalista Elizabeth Ramos. Ela também fala sobre a pressão que muitos pais exercem para influenciar seus filhos na hora de escolher o que serão quando crescer. “Os filhos são uma extensão dos pais, que querem sempre o melhor para eles até por vaidade. É comum ver pais transferirem suas frustrações e estimularem as crianças a realizar o que não foram capazes de fazer ou não tiveram oportunidade. É preciso dar força sempre, mas buscando dar espaço para os jovens seguirem seu próprio caminho”, conclui ela.
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