Ao fazer uma escolha profissional, muita gente até considera a possibilidade do surgimento de futuros questionamentos sobre essa decisão. Só que o que não se imagina, na maioria dos casos, é a quantidade de vezes em que essas incertezas vão aparecer no já naturalmente sinuoso caminho trilhado por qualquer carreira. Às vezes, repensá-la pode ter resultados altamente produtivos mas também pode agravar crises pessoais e gerar estagnação nos rumos do trabalho. E, pior ainda, tranformar esse engessamento na força mestra de um ciclo vicioso. Mas crises devem ser encaradas como períodos de aprendizagem, com a certeza de que mais cedo ou mais tarde outras dúvidas irão surgir, e que afundar nessa areia movediça pode verdadeiramente comprometer os rumos de uma caminhada profissional.
Joana Correia, de 28 anos, se formou em Farmácia e hoje trabalha numa das maiores indústrias alimentícias do país. O trabalho não a aborrece, mas o dia-a-dia ao lado de conservantes e aromatizantes não era exatamente seu objetivo nos tempos de faculdade. "Quando comecei a estudar queria me especializar em clínico-assistencial, trabalhar em hospital, ter conhecimentos terapêuticos, enfim, fazer minha carreira na área de medicamentos. Mas, infelizmente, isso é muito difícil. Acabei me habilitando em indústria e alimentos. A remuneração é realmente boa, não posso reclamar disso, mas o reconhecimento, que era o que me atraía na carreira, é baixíssimo. É um trabalho de análise, às vezes beira o burocrático. E o que eu queria era trabalhar com saúde, terapias", revela.
Os sintomas da crise de identidade profissional de Joana acabaram se alastrando para outros setores de sua vida. Separada oficialmente há quatro meses do pai de sua filha Alice, de dois anos, ela se diz mergulhada numa autêntica crise dos trinta. "Todo dia, quando deito pra dormir, fico pensando em como vai ser no dia seguinte. Estou superansiosa em relação a minha vida sentimental e profissional. E não paro de comer!", confessa ela. "É uma fase em que se engorda muito mesmo", confirma a psicóloga Berenice Siqueira. Ela comenta que as primeiras crises de questionamento profissional costumam surgir próximo aos trinta anos, quando, em geral, se fecha o primeiro ciclo de uma carreira. "É uma época de fortes exigências internas e externas. A base da vida profissional já está consolidada e surgem as primeiras frustrações com relação ao idealizado. E isso acontece não só na carreira como na vida íntima também, são crises que coincidem. É mesmo um período muito difícil", comenta ela.
Graduada em pegadogia e psicologia, Alessandra Pinho seguiu a carreira que sempre quis, a de psicóloga escolar. Trabalhando na área há oito anos, ela é outra que se confessa decepcionada com o baixo reconhecimento da profissão. "As pessoas sabem que eu existo, os pais dos alunos sabem, mas não têm idéia do que seja o meu trabalho. A maioria acha que eu fico ali, sentada numa sala e quando aparece um aluno mais problemático eu entro em cena. Na escola, com a coordenação e a direção, eu me entendo, mas não há exigência crítica da sociedade. Sinto falta disso para poder buscar aprimoramento", conta. Repensando suas decisões, Alessandra acabou descobrindo possibilidades mais arejadas para os rumos de sua carreira. "Tenho conversado muito sobre esse assunto com colegas mais experientes e estou percebendo a importância da expansão dos papéis do psicólogo, sem divisão técnica. Para mim, isso pode funcionar, até porque me abro para outras áreas que podem ser surpreendentemente sedutoras. Estou descobrindo uma ótima terapia nessa busca por novos trabalhos", garante.
Berenice Siqueira acrescenta ainda que o momento histórico e social contribui imensamente para esse tipo de questionamento profissional em determinados setores. "Já passamos por fases de tranformações muito profundas em algumas áreas que foram decisivas para o futuro delas. Foi assim com a revolução industrial, com a revolução tecnológica. Agora, estamos vivendo a revolução da informação que está atingindo em cheio o profissional desse ramo", diz ela. O jornalista Pedro Coutinho é um exemplo disso. Ele acredita que há uma supervalorização da multiplicidade da informação na sociedade e que isso é um prato cheio para crises existenciais dele e de seus colegas. "Já vi a mim e a amigos passando por essas dúvidas. Enfrentamos muitas vezes bifurcações que nos levam a optar por caminho de jornalista multiuso, que pode ser muito interessante sob o ponto de vista mercadológico, mas muito perigoso no aspecto de qualidade do trabalho da informação. É muito difícil encarar esse problema por que a área está passando no momento e lidar com as frustrações que ele acaba gerando, direta ou indiretamente", reflete. Apesar dos pesares, Berenice faz uma recomendação geral pelo otimismo. "Nada é mais comum hoje em dia do que crises, sejam elas econômicas, sociais ou individuais. O risco é o de, com o medo, acabar tendo a evolução comprometida e a carreira estagnada. É preciso realmente ver o lado bom e aprender com esses questionamentos, encarando-os como um elemento vital no processo natural de crescimento profissional", conclui ela.
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