Primeiro, foi para comprar imóveis. Na impossibilidade de dar uma grande parcela como entrada e ir quitando o resto no decorrer dos anos, se juntar a outras pessoas em uma administradora e contribuir mensalmente pareceu ser uma boa solução. Assim se fez o consórcio, mais uma opção para quem deseja adquirir um bem e não tem como pagar tudo de uma vez. E a alternativa realmente se consolidou. Cada vez mais bancos, instituições financeiras e lojas oferecem a empreitada, adotada por milhões de brasileiros. Hoje em dia, o consórcio serve para tudo: carros, móveis, eletrodomésticos... Tem gente que entra nessa até para comprar radinho de pilha. Mas claro que, como em toda forma de pagamento a prazo - nesse caso, a looongo prazo –, existem vantagens e desvantagens.
Seja por necessidade ou por puro consumismo, a gente sempre tem algo que almeja comprar e não pode. Dependendo do bem, se a vontade é grande e o impulso prevalece, nada como levar o objeto do desejo e ir pagando aos pouquinhos, sem sentir, certo? Vamos lá, você sabe que não é assim. Quando o dinheiro está curto, dívidas, juros, multas, datas de vencimento e qualquer obrigação financeira se tornam um grande problema. Chega no meio do mês e você já está doida para o salário bater na sua conta – esse estranho desconhecido, que mal chega e já vai embora, sem ao menos se despedir.
Atendendo a pedidos, o consórcio veio para representar uma forma diferente de compra, porque se dá pela união de pessoas, formando um grupo de consorciados de aproximadamente 50 a 100 membros, com um único objetivo: adquirir o mesmo produto. Também se difere porque a troca não se consolida no ato, ou seja, a aquisição do bem se dá futuramente. É como se fosse uma poupança para garantir um bem. A partir de seu preço, é estipulado o valor de cada cota, acrescida de uma taxa de administração, que vai depender de cada instituição financeira. "O consórcio tem um preço fixo em parcelas e a pessoa, ao invés de tirar o bem na hora da transação e continuar pagando, só recebe se for sorteada ou no final da data estipulada", explica o consultor financeiro Cláudio Boriola.
Funciona da seguinte maneira: o interessado procura uma administradora ou outro estabelecimento SEGURO – o que significa consultar a idoneidade da empresa de consórcio, no Banco Central ou nos órgãos de defesa do consumidor mais próximos – e começa a quitar as cotas conforme seu vencimento. Uma boa notícia: dentre as alternativas de compra a prazo, o consórcio sai na frente no bolso, já que o único ônus assumido é a taxa de administração. ”Essa taxa é, geralmente de 10% do valor do bem, enquanto no financiamento, variam de 40% até 150% do valor do bem”, coloca o diretor do comitê de controladoria da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, professor Luiz Roberto Nascimento.
Diferentemente do financiamento, em que a garantia, caso haja inadimplência, é o próprio bem, no consórcio, a pessoa vai, simplesmente, estar fora. “Os consorciados recebem um documento denominado carta de crédito, que se transformará no bem visado, futuramente. No entanto, se não puder mais pagar, ele vai receber o que já gastou. Por outro lado, se mudar de idéia e quiser comprar um bem diferente, o negociante recebe a importância no final e troca”, esclarece Cláudio Boriola.
Tem-se, então, um ponto positivo. A única penalidade é que, quem desistir não concorre ao sorteio e não pode dar o lance. De acordo com Luiz Roberto Nascimento, o limite para deixar de pagar sem ter que esperar o encerramento do grupo é de 30 dias após o início da negociação. Além disso, dependendo do contrato, o desistente deverá arcar com juros de 1% ao mês e multa de 2% sobre as parcelas não pagas, cujo valor será calculado sobre o preço atualizado do bem. “Se o não-contemplado atrasar mais de uma prestação, poderá ser excluído do grupo, conforme estabelecido no dia de sua entrada. Caso ele já esteja de posse do bem e o atraso for superior a 30 dias, correrá riscos de a administradora executar as garantias fornecidas pelo consorciado, além de cobrar multas e juros”, alerta ele. Portanto, estejam atentas às cláusulas de contrato.
Como não se trata de uma aquisição imediata, o consórcio tem sido utilizado como forma de “poupança forçada”, como classificou Luiz Roberto Nascimento, ou mesmo como um investimento de longo prazo. Assim como em qualquer compromisso financeiro, alguns cuidados devem ser tomados antes e depois. Primeiro, é preciso ter consciência da real necessidade da compra. Afinal, em tempos de juros altos, inflação e, claro, o dinheiro curto, a última medida que se deve tomar é se endividar por supérfluos. Se não der mesmo para abrir mão, o planejamento significa a atitude mais indicada. “A pessoa tem que fazer contas. Se ela deseja comprar aquele bem, tem que zelar pelo pagamento. O brasileiro quer exercer o direito, mas esquece da obrigação. A pessoa tem que fazer o cálculo, saber se ela pode se comprometer, porque isso é a longo prazo. Além disso, quanto maior a quantidade de parcelas, maiores são as chances de inadimplência”, adverte Cláudio Boriola.
Claro que o melhor seria livrar-se dos fantasmas das cobranças e ir juntando dinheiro aos poucos. Assim, também se estaria alheio a taxas, juros e afins. O consultor financeiro Cláudio Boriola acredita que o segredo da estabilidade financeira é a educação prévia. Segundo ele, as pessoas não percebem que perdem dinheiro com qualquer alternativa de investimento a prazo. “Não é à toa que tantos bancos querem abrir consórcio enquanto os clientes só fazem se endividar”, opina o consultor financeiro. Então, agora que você já está devidamente informada, fique de olho no seu bolso. E, claro, no Bolsa
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