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As amigas da administradora de empresas Amanda Pinheiro, 23 anos, costumam perguntar como ela consegue organizar as finanças e juntar dinheiro. Entretanto, o que mais desperta a curiosidade delas é o fato de a amiga estar investindo no mercado financeiro. Há dois anos Amanda aplica parte de seu salário na Bolsa de Valores. "É religioso, todo mês 30% do que eu ganho vão para o Fundo de Renda Fixa e para ações. Se deixar, a gente acaba gastando em bobagens", constata. Assim como a administradora, muitas mulheres têm começado a se aventurar neste mercado predominantemente masculino. Entretanto, este é um panorama que começa a mudar. Segundo dados da Bovespa, existem hoje cerca de 49 mil investidoras. Há quatro anos esse número não passava de 15 mil.
Quem também faz parte deste grupo é a publicitária Anne Wurman, 26 anos. Ela herdou do pai a cultura de investimento e recebeu do irmão economista dicas de aplicações. Anne começou investindo pouco, mas tem como meta tranqüilidade no futuro. "Sou judia, aprendi desde cedo a cuidar do dinheiro. Enquanto ainda não tenho certas responsabilidades, vou aplicando. Não preciso dessa quantia agora, por isso invisto em empresas mais estáveis. É melhor ter menos do que arriscar muito", sentencia. Geralmente as mulheres entram no mercado de maneira tímida e conservadora. A designer Valéria Matos*, 30 anos, aplica em empresas tradicionais, que são mais antigas e bem comercializadas. Não se arrisca muito e procura a bolsa para diversificar os investimentos. Ela conta com a ajuda do pai para fazer escolhas certas. "Sigo muito os conselhos dele. Juntos, vemos os balanços das empresas para saber se são seguras. Fora isso, tento me manter informada", revela.
Elas vão invadir
Mas a que se deve essa invasão feminina no mercado de ações? A consultora financeira Sandra Blanco aponta dois fatores decisivos. O primeiro é a facilidade de acesso às informações, tanto sobre como investir quanto aos dados contábeis das empresas. "A internet facilitou muito. Dentro do seu escritório dá para saber se as ações de uma empresa do Japão estão bem cotadas e se este pode ser um bom investimento", descreve.
Outro fator seria a chegada da mulher ao mercado de trabalho. Se antes eram os homens os responsáveis pelas finanças da casa, hoje são elas que assumem as contas e, principalmente, os investimentos da família. "Isso é histórico. Eram os maridos que cuidavam do dinheiro e as mulheres, das tarefas domésticas. Hoje, elas têm que chefiar a casa e, conseqüentemente, planejar melhor. Para isso buscam informações sobre como aplicar o dinheiro de forma que lhes garanta um bom rendimento" constata Sandra.
Engana-se quem pensa que somente as mulheres que têm carreira voltada para a área de economia e contabilidade se tornam investidoras. No clube de investimentos que Sandra coordena é comum ver médicas, advogadas, estudantes e aposentadas fazendo cálculos e procurando as melhores aplicações. "A idade varia de 20 a 65 anos", afirma a consultora. "E o mais engraçado é que muitas se questionam porque ficaram tanto tempo fora do mercado de ações. Elas percebem que este mundo não é tão complicado quanto parece", continua.
Perfil da investidora
Porém, mesmo entrando neste arriscado ambiente, as mulheres mantêm características típicas do chamado sexo frágil: são mais conservadoras e têm a família como preocupação principal - características positivas para quem pensa em investimentos de longo prazo. De acordo com Inês Bozzini, coordenadora do Programa Mulheres em Ação, da Bovespa, projeto lançado em 2002 com objetivo de aproximar as mulheres do mercado financeiro, os investimentos femininos costumam ter algumas semelhanças. "Elas não contam com o dinheiro imediatamente, têm um prazo de sete, dez anos. Além disso, querem dar melhores condições de vida aos filhos e, no futuro, abrirem o próprio negócio. Pensam na longevidade - querem viver mais e viverem bem", afirma.
As mulheres são cautelosas em matéria de investimentos. Não apostam todas as fichas em ações, geralmente preferem dividir suas aplicações em Fundo de Renda Fixa e na Bolsa de Valores. Ainda são poucas as que aplicam sozinhas, a maioria escolhe entrar em clube de investimentos ou procura corretoras de ações. "É difícil encontrar uma especuladora de ações, aquelas pessoas que compram os papéis e minutos depois já estão vendendo para obter vantagem. Elas procuram investir em companhias que conhecem de nome e possuem referências", conta Inês, lembrando que é uma característica tipicamente feminina optar por corporações que tenham uma política empresarial boa, como por exemplo empresas preocupadas com a manutenção do meio ambiente.
Riscos
O grande temor que ronda o mercado financeiro é a perda de dinheiro de uma hora para a outra. De fato, ações são um dos investimentos mais arriscados que existem, pois dependem das oscilações do mercado internacional e estão sujeitas aos abalos provocados por acontecimentos imprevisíveis, como o 11 de setembro, entre tantos outros. Mas, de acordo com Inês Bozzini, a conjuntura internacional está favorável às aplicações no mercado. Além disso, segundo ela, hoje existe uma preocupação muito grande em proteger os investidores de possíveis riscos. Tanto a Bovespa quanto a CVM (Comissão de Valores Mobiliários - órgão do Governo que busca assegurar o funcionamento dos mercados de bolsa) tentam regular e fiscalizar ao máximo as corretoras de ações e se mantêm a par dos movimentos das empresas - se correm riscos de falência ou não - para que tudo fique muito transparente para o investidor.
Dicas deles para elas
Os investidores mais experientes asseguram que o medo sempre vai existir, mas aconselham os novatos a sempre se manterem muito bem informados. Vale tudo, desde acompanhar a imprensa especializada, quanto ter conversas com outros aplicadores. Os amigos Marcelo Mendes, 30 anos, e Leonardo Sukman, 27, costumam trocar informações sobre o assunto. E eles dão dicas. "Ações são bons investimentos desde que você não precise do dinheiro em curto prazo. Senão tem que ter muito sangue frio para aceitar perdas em aplicações mais arriscadas. Mas são esses casos que proporcionam boas oportunidades de ganho", afirma Leonardo, que admite ter optado amargar uma perda de aproximadamente R$1 mil para aproveitar outras oportunidades. Pouco, para quem entrou no mercado com cerca de R$10 mil. Hoje, um ano depois de começar a aventura pelo mundo das ações, revela que está satisfeito com os rendimentos. "É aquele sonho que todo jovem tem de chegar aos 30 anos com o primeiro milhão. Ainda falta bastante, mas estou otimista", revela entre risos.
Já o engenheiro Marcelo Mendes aumentou o prazo para ficar milionário - tem mais cinco anos para correr atrás - mas, segundo ele, é bem provável que chegue lá. Ele, investidor há quatro anos, tem manha para aproveitar as oportunidades do mercado. Recentemente, com a crise da Varig, conseguiu em 15 dias juntar mais do que ganharia em um ano de salário. Sorte? Talvez. Mas, para perceber essas boas chances, precisou ler e estudar bastante. "Sempre fui um curioso e acompanhava as movimentações das empresas. Fui juntando dados e acabei criando um modelo matemático. E o mercado é cíclico. Tudo o que sobe um dia cai. É só saber observar", ensina ele, que tem 70% de seu dinheiro aplicado em ações. "Se eu perder, não vai fazer falta", revela. "Controlo muito bem minhas finanças. É um planejamento de vida. O brasileiro, infelizmente, não sabe fazer isso. Não é planejar a semana e, sim, pensar como vai estar daqui a cinco, dez anos. É preciso perder o medo", finaliza.
Orientações básicas
Se você se interessou e quer se aventurar, valem algumas dicas.
Se informe. "Leia muito a respeito, converse com as pessoas mais experientes antes de dar o primeiro passo", orienta o economista Leonardo Sukman.
Planeje. "Se ainda não tem dinheiro para comprar ações, reserve uma quantia por mês e aplique em Fundos de Renda Fixa, que tem um rendimento maior que a poupança. Não fique achando que, por não ter dinheiro, não há como investir. É preciso começar de algum lugar. Tente reservar pelo menos 10% do seu salário", sugere Sandra Blanco.
Perca o medo. "O medo diminui quando se está bem informado", avisa a consultora. "Todo mundo sabe que existem riscos. Se tiver muito medo, não entre. Espere mais um pouco e se informe mais", complementa o engenheiro Marcelo Mendes. "É um investimento de risco, mas riscos nós passamos todos os dias das nossas vidas", lembra a coordenadora do Mulheres em Ação, Inês Bozzini.
Cuidado ao escolher as ações. "Num primeiro momento, é preferível escolher empresas mais estáveis como a Petrobrás e Vale do Rio Doce, que são as mais procuradas. O rendimento é tão bom quanto as outras, porém os riscos de perda são bem menores", sugere Marcelo.
Invista sempre. O retorno vem a longo prazo. "Mais importante que investir muito é investir sempre", opina Leonardo.
Não compare rendimentos. "Se você comprar ações de uma empresa X de manhã e outra pessoa comprar horas depois, os rendimentos serão diferentes. Não se paute no lucro dos outros. Investimento é único, não tem como comparar", aconselha Sandra.
Tenha paciência. "Quem investe pensando no futuro geralmente se sai melhor", constata Inês.
Quem quiser saber mais sobre o mercado de ações pode acompanhar as colunas da consultora financeira Sandra Blanco aqui no Bolsa de Mulher, ou também acessar o site da Bovespa.
* Nome alterado a pedido da entrevistada.
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