Subir na vida. Este deveria ser o objetivo de todas as pessoas que estão construindo a carreira. Para isso, dedicação é essencial. É através dela que virá o reconhecimento, a promoção e, claro, as conquistas. No entanto, alguns têm pressa. E, na opinião dessas pessoas, trabalhar duro nem sempre representa o melhor meio de emplacar profissionalmente. É preciso mais. Ganância, ambição exacerbada, vontade de chegar longe o quanto antes, nem que isso signifique passar por cima de tudo e todos. Eles não poupam esforços! A demissão de um superior ali, uma intriga aqui, e as investidas vão se tornando um verdadeiro alpinismo corporativo. Uns até conseguem. Outros, sobem os benditos degraus corporativos, mas não leva muito tempo para serem desmascarados pelos outros funcionários. Dentre tantas falcatruas e trapaças, somente um aviso permanece: cuidado com eles!
Todo mundo conhece ou já ouviu falar de um oportunista. Aquela pessoa que trabalha bem ali, pertinho, e está sempre à espreita, esperando o momento para dar uma de esperto e se dar bem. Logo nos primeiros passos profissionais, a estudante de produção Priscilla Lemos deparou-se com um inimigo que sentava na cadeira ao lado. "Sofri nas mãos de um estagiário que tentou de tudo para me boicotar quando eu entrei na empresa. A minha sorte foi que, com o tempo, ele mesmo percebeu que não conseguiria trabalhar sozinho. Como o ritmo no canal de televisão que trabalhávamos era muito estressante, ele precisava de mim para dividir as tarefas. Antes disso, eu penei", relembra a estudante. Sorte a dela, porque o mesmo não aconteceu com outra produtora, dessa vez de um nível hierárquico acima. "Eu via uma assistente de produção que ficava caçando erros alheios e fazendo terrorismo psicológico com outra menina que tinha o mesmo cargo que ela, porque as duas estavam disputando uma vaga de produtora", conta Priscilla.
Um cargo superior, posição privilegiada, poder. Geralmente, são estes os objetos de cobiça de uma pessoa ambiciosa. A questão é que ninguém sai ileso das investidas de quem faz de tudo para subir na vida. Mesmo para quem não está na reta, em toda a corporação, as notícias voam e todas as ações possuem uma repercussão. Principalmente se o clima de toda empresa for alterado depois da chegada de uma figura dessas. “Antes de ela entrar, tudo funcionava muito bem, cada um com sua autonomia - inclusive estagiários. Mas depois que chegou, começou e exigir posturas dos funcionários, sem exceção. Queria satisfação de tudo, ela tinha que estar copiada em TODOS os e-mails e ficar a par das decisões. Uma postura de má fé mesmo. Ela pode até ser boa pessoa, mas é SEM NOÇÃO no trabalho”, enfatiza a engenheira Fabiana Giane. Segundo ela, a tirana criava situações desagradáveis para mostrar serviço. “Ela fazia os outros ficarem sem graça, dando bronca nas pessoas na frente de todo mundo para parecer que era melhor que os outros e que as idéias eram dela”, exemplifica Fabiana.
Existem casos em que a obsessão em se dar bem é tanta, que faz com que a pessoa vá até as últimas conseqüências e transgrida não só valores, como também sua própria imagem. Só que, como elas são tipos que, involuntariamente, temos que engolir, tanto as entrevistadas quanto seu exemplos permanecerão anônimos para não comprometer o trabalho delas - se bem, ao que vocês mesmas vão constatar, as duas alpinistas em questão mereciam uma bela denúncia. A primeira trabalha na mesma empresa da administradora Deborah E., que assistia a tudo de camarote. “Tem uma mulher na companhia em que eu trabalho que dava em cima do meu chefe des-ca-ra-da-men-te, isso porque todo mundo sabia que não haveria vaga caso ela quisesse ser efetivada. Ela estava mesmo disposta a ir até o fim, e o pior é que ele dava trela”, diz Deborah, que não sabe ao certo como ficou o desenrolar da história. “Não sei se ela ficou com ele, porque quando o período de efetivação terminou, ela não conseguiu o que queria. Se rolou ou não, ninguém sabe”, opina a administradora.
Essas situações, de tão lendárias, nunca passam despercebidas por funcionário algum. Vide a história mais comentada dos últimos tempos, em que uma estagiária deu em cima do presidente – ou cedeu aos seus encantos, nunca se sabe – e tornou público o que veio a ser o maior escândalo da história de uma certa potência mundial. Pois bem, essa também caiu na boca do povo. Quem conta é a publicitária M. B. – também anônima –, verdadeira espectadora da história. “Estávamos iniciando uma campanha e uma das funcionárias começou a dar em cima do coordenador. Depois de um clima super-estranho, assuntos e insinuações explícitas, rolou algo entro os dois, porque ela acabou virando assistente particular, trabalhando na sala dele”, comenta a publicitária, que não mede palavras para descrever a tal dona da ambição: “É uma pessoa da pior espécie! Ela sempre andou com roupas insinuantes, barriga de fora e mini-saias aqui. Me irrita ver que ela não tenta subir pela competência”, desabafa.
Situações como essas existem em quaisquer empresas. Embora não se saiba exatamente como, e se acontecem ao certo, tem sempre alguém que tomou conhecimento de um alpinista organizacional. O problema maior é se tornar alvo dele, principalmente quando a empresa instiga competição entre os seus funcionários. A gerente geral de Recursos Humanos da Casa & Vídeo, Ana Clara Fernandes, explica que uma das principais medidas para que não haja esse tipo de situação é amenizar ao máximo a concorrência, promovendo atividades de conscientização e integração entre toda a empresa. “Uma vez por mês, nós organizamos reuniões entre as pessoas de todos os cargos, temos uma ouvidoria para aconselhar e escutar reclamações, tudo para que os funcionários se sintam à vontade e entrosados dentro da empresa”, diz Ana Clara Fernandes.
Eles podem estar em toda parte. Onde menos se espera, lá se encontra alguém que não está disposto a jogar limpo. E, de acordo com o psicólogo empresarial Ricardo Estevam, além de estas pessoas serem mais comuns do que pensamos, elas podem ser muito nocivas para toda a empresa. “Elas costumam contaminar a estrutura da organização e podem prejudicar os funcionários que deveriam subir por mérito próprio”, avalia o psicólogo, que usa sua experiência para ajudar a identificar um membro da espécie:“Gente assim logo demonstra uma falta de ética e de postura. Devemos sempre estar atentos a estes indivíduos e, de preferência, excluí-los o mais rápido possível”, aconselha ele.
Pois é, mas se, depois de todas essas investidas, o encosto persistir, o jeito é tentar atenuar a situação de duas maneiras. Quem sugere é a psicóloga empresarial Vera Amaral. “Se o empregado se sentir lesado ou perseguido e não enxergar maneiras de se esquivar, das duas uma: ele pode se omitir ao máximo, tentando não parecer uma ameaça para quem o incomoda ou procurar conversar com pessoas da empresa, sempre com cautela para não piorar o quadro”, aconselha a psicóloga, que acredita que esse tipo de conduta é temporário. “Mais cedo ou mais tarde, a pessoa será descoberta. Enquanto isso, o melhor é ter paciência e não deixar o mal-estar influir no rendimento profissional”, alega ela.
Já Ricardo Estevam fala diretamente para quem está do outro lado. “Aos alpinistas, sempre recomendo que tenham cuidado, porque a vida das novelas não existe no mundo real. Seja ético e verdadeiro, pois seu futuro está no potencial profissional, e não no físico – aos que usam o corpo para subir – ou coercitivo”, recomenda Ricardo, que ainda dá um último alerta para os empregados que desconfiam de um alpinista organizacional. “Se na sua empresa existir este tipo de "trabalhador", cuidado, eles podem destruir seu futuro”, finaliza ele.
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