O medo de engordar sempre foi um dos maiores inimigos das mulheres. Crescemos contando calorias, lendo os rótulos dos produtos e aprendendo mil e uma dietas, tudo numa eterna luta contra a balança. A fixação por entrar numa calça 38 é capaz de nos fazer passar pelas mais terríveis privações, mesmo que não tenhamos nem sequer um grama a perder. É a ditadura da magreza, que tem regras simples e rígidas: quanto menos, melhor. Na tentativa de alcançar medidas ínfimas, inviáveis para brasileiras de quadris largos e seios fartos, recorremos a artifícios nada saudáveis e extremamente agressivos. Tudo começa com uma dieta aqui, um moderador de apetite ali, e um diurético acolá. Pouco a pouco, o rigor que impomos a nossos corpos é capaz de nos convencer a deixar de comer, fazendo-nos vítimas da anorexia, um dos mais graves transtornos alimentares existentes.
O assunto está tão em voga que Silvio de Abreu, autor da próxima novela das oito, anunciou que pretende abordar a doença na trama. "Belíssima", que irá explorar o mito da beleza, terá em seu enredo uma agência de modelos. Se para as profissionais das passarelas exibir um corpo esguio é exigência, o que leva uma mulher - sim, somos nós as principais vítimas da anorexia, representando 90% dos casos – que não pertença a essa realidade a se cobrar tanto? A endocrinologista e nutróloga Ellen Simone Paiva, que faz parte da equipe de tratamento do Centro Integrado de Terapia Nutricional (CITEN), avalia. "O padrão de peso está cada vez mais rigoroso, e as meninas são influenciadas pelos números. A adolescência é uma fase complicada, na qual o corpo sofre muitas mudanças em pouco tempo. Sem parâmetros, elas se acham gordas, mesmo não estando acima do peso".
Cada vez mais precoce, a anorexia tem sido diagnosticada em meninas de apenas onze anos. "Normalmente a doença se manifesta durante a adolescência, mas com a antecipação da puberdade, temos visto crianças com o distúrbio. Elas querem fazer dietas, e por não saberem como, começam a cortar os alimentos gradativamente. Primeiro, tiram o carboidrato. Depois, a carne. Para, enfim, começarem a fazer jejum", conta a endocrinologista. E não pára por aí. "A anorexia é tão séria que as leva a parar de beber até mesmo água. Nesse estágio, elas acham que qualquer coisa engorda. Se tomam um copo d'água, correm para a frente do espelho para ver se engordaram", completa.
Olhar-se no espelho não basta. Por mais magra que esteja, a anoréxica continua se sentindo – e vendo – gorda. "É um distúrbio da imagem corporal. Elas podem estar esqueléticas, que continuam achando que estão enormes", explica Ellen, descrevendo a perda da consciência do próprio corpo. Foi este o drama vivido pela executiva Tara M. Rio, na adolescência. Superada a doença, Tara e sua mãe relataram no livro "Diários da Anorexia", da editora M. Books, suas visões sobre a doença, através das anotações dos diários de ambas ao longo de quinze anos. Nos relatos, fica clara a percepção alterada que Tara tinha de seu corpo, assim como as dificuldades da mãe para perceber o problema da filha. A narração começa aos 12 anos de Tara, e é intercalada por períodos de depressão, lista de alimentos ingeridos, e horas de exercícios físicos praticadas. Uma das passagens mais marcantes do livro mostra o pavor de Tara em engordar, e uma preocupação extrema com o corpo, aos 14 anos:
"Estou treinando para a equipe de natação. ... Precisava escolher justamente o esporte que tem de usar maiô? Se eu não adorasse nadar, nunca faria isso. Mas sempre uso dois ou três maiôs, então não dá muito para ver meu corpo. Também vou de toalha até a piscina e só a tiro antes de mergulhar. TENHO DE PARAR DE COMER!! Tirar a roupa todo dia é um inferno para mim. Penso nisso o tempo todo. ... Estou dobrando os exercícios agora. Mergulho na água às 6 da manhã e nado cerca de uma hora e meia. Depois da aula ainda temos duas horas e meia de treino. Então, estou nadando 4 horas diariamente e ainda estou gorda. Como pode? ... Estou reduzindo minhas refeições. Parei de tomar café da manhã e como um pacote de Cheetos e uma barra de chocolate no almoço todo dia, e é só. ... Não sei como parar de comer. ... Preciso ser mais forte e mudar a imagem no espelho. Porque, no momento, ODEIO MINHA APARÊNCIA!..."Identificando a doençaApesar da facilidade em perceber a perda de peso das adolescentes, muitas mães confundem a doença com as inúmeras tentativas de dieta que fazem parte da adolescência das meninas. Com um índice de mortalidade de 20%, identificar a anorexia antes que ela evolua é fundamental. Diferentemente da bulímica, que esconde a doença, a anoréxica tem orgulho de seu corpo magro, e geralmente respeita um determinado padrão de comportamento. "Costumam ser meninas muito organizadas, a primeira da classe, ótimas filhas, lêem muito sobre dietas e sabem de cor as tabelas de calorias dos alimentos. Elas se recusam a comer, e perdem todo o prazer que a alimentação proporciona. Também perdem a libido, param de menstruar – pela própria desnutrição, sofrem atrofia da mama e dos pêlos, e os cabelos caem", lista a nutróloga Ellen Simone. Com tantos sintomas, basta estar atenta para perceber quando uma pessoa próxima de nós está precisando de ajuda.
O tratamentoO tratamento da anorexia não é simples, rápido nem fácil. Pela falta de alimentação, é comum ver pacientes desidratadas – pela perda de potássio – e sofrendo de arritmia cardíaca. Rebeldes, não concordam em se alimentar, o que dificulta o trabalho dos médicos. Foi na tentativa de lutar de forma integrada contra a doença que surgiu o CITEN. Funcionando há dois meses na cidade de São Paulo, o centro propõe um tratamento completo, que inclui psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e endocrinologistas. No CITEN a internação é sempre a última opção, e exclusiva para os casos de risco de vida.
A psicanalista Marta Foster faz parte da equipe do centro, e tem percebido um aumento substancial dos casos de anorexia e bulimia. "De uns dez anos para cá, os registros aumentaram muito. É como plantar semente em solo fértil, mas a culpa não é só dos padrões de beleza e da mídia, é também da época narcisista que vivemos. As pessoas têm se voltado para elas mesmas", acredita Marta. No tratamento, a psicoterapia é tão importante quanto o acompanhamento de um endocrinologista, já que o sintoma é conseqüência de uma condição mental. "Quando uma paciente me diz que não consegue comer, percebo uma pessoa que está num nível de sofrimento muito grande, sentindo que a comida vai fazer mal. Minha escuta não está voltada para o sintoma, mas para a pessoa que está sofrendo. Na anorexia, a pessoa não sente que a comida que ela ingere alimenta, e é isso o que vamos trabalhar", explica a psicanalista.
Além da necessidade de acompanhamento médico, não há recuperação sem a ajuda da família. "A família tem que ser muito envolvida com o tratamento, sendo, em alguns casos, a própria causa do problema. É comum haver um conflito entre a paciente e a mãe, e se os pais vivem brigando, parar de comer pode ser uma forma de chamar a atenção, mantendo a família unida", atenta Dra. Ellen. Apoio, nessas horas, nunca é demais.
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