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Identificar um câncer é doloroso, apavorante. Não são raras as pessoas que se abatem com a doença. Entretanto, não é raro também encontrar quem tire ainda mais forças para lutar contra essa adversidade. Mesmo com um tratamento complexo, multidisciplinar, é bom saber que existem chances (e muitas) de vencer a doença. Sim, é verdade, o câncer de mama tem cura! Mas para que a mulher consiga vencer esse mal, é preciso muita disciplina e idas constantes ao ginecologista, profissional capaz de identificar qualquer alteração da mama com precisão e a tempo de tornar o tratamento mais eficaz. Muitas mulheres passaram por essa maratona de exames e visitas aos médicos, mas conseguiram superar todos os problemas.
O auto-exame pode ser um excelente método de prevenção. Foi a partir dele que a corretora de seguros Ana Pezzino descobriu a doença. "Estava deitada na sala vendo TV e de repente apareceu um comercial com a Cássia Kiss, no qual ela ensinava os precedimentos para o auto-exame. No mesmo instante repeti os movimentos mostrados por ela e achei um nódulo. Minha primeira reação foi um enorme susto! A segunda? Medo! A terceira? Coragem!", relembra ela.
Motivada pelo instinto de sobrevivência e pelo amor que recebeu da família, Ana procurou os cuidados de uma clínica particular e conta que, "sem exagero", o tratamento é muito pior que a doença. "Após a aplicação da quimioterapia, a sensação de morte, de desânimo e descrença é gigantesca. Você não consegue comer, beber, dormir, andar, sentar, nada. O mal-estar dura cerca de 48 horas. Quando tive alta, percebi que sou mortal e que coisas ruins não acontecem só com os outros, podem acontecer com a gente também. Aprendi a viver com mais calma e compreensão e tentar ser feliz sempre", entusiasma-se. "Hoje em dia, quando vejo alguém passando pelo que passei, tento ajudar, mostrar que não é o fim, é só mais uma etapa da vida", ensina.
Ana também passou por uma das situações que mais assustam as mulheres: a perda de cabelo. "Durante a quimioterapia fiquei completamente careca, e nessa época me descobri com uma vaidade que até então eu desconhecia. Pintava minhas unhas e fiz questão de não usar chapéus nem lenços. Pelo contrário, fiz uma tatuagem de hena que descia da minha cabeça até a nuca. Me vestia com cores alegres e pus na minha mente que nada iria me derrubar. Meu conselho para as mulheres que passam pela mesma situação é: descubra a poderosa que nasce com a gente e vá a luta!", encoraja a corretora.
Busque apoio
Já para a dona-de-casa Elza Maria Pontes, a ajuda veio do Instituto Nacional do Câncer, ao qual se diz grata "para o resto da vida". "Descobri um tumor no seio durante um exame de rotina no ginecologista. Como não tinha um bom plano de saúde, busquei auxílio no Inca, no Rio de Janeiro. Não digo que foi fácil. Os tratamentos lá são muito concorridos. Isso sem falar que, basta entrar no hospital para dar de cara com uma realidade muito triste. São crianças, adultos e idosos sofrendo. Isso sem falar nos parentes, sempre angustiados, abatidos pela luta que travam ao lado de seus entes queridos. Dá muita pena", lamenta Elza.
Fora o sofrimento de dezenas de pessoas que conviviam com ela no Inca, Elza teve seu próprio drama. Precisou fazer uma mastectomia parcial, que retirou uma parte de sua mama esquerda. "Além da dor de me sentir deformada, ainda tive que fazer radioterapia para complementar o tratamento e impedir que o tumor voltasse. Foi um período extremamente difícil para mim e para a minha família. Meu marido, neste momento, foi extraordinário, compreendendo meu momento de dor e me apoiando, mesmo quando eu dizia que não queria mais que ele me visse sem roupa", lembra.
Ela conseguiu superar o medo e a tristeza e foi atrás de sua felicidade novamente. "Depois de passado aquele primeiro momento de depressão, medo e revolta, consegui procurar um cirurgião plástico, que reconstituiu minha mama com pele retirada da minha barriga. Hoje brinco com meus amigos dizendo que ganhei um seio novo e, de lambuja, uma ‘recauchutadinha' na barriga!", diverte-se.
Da dor à luta
Outra beneficiada pelo auto-exame é a psicoterapeuta e psico-oncologista, Graça Marques. Ela descobriu o tumor apalpando sua mama durante o banho no dia de seu aniversário. "Foi um susto, mas nunca tive medo de doenças. Iniciei a quimioterapia em maio de 1999 e operei o tumor em 24 de julho do mesmo ano. Fiz 32 sessões de radioterapia entre outubro e novembro e no dia 20 de novembro já estava embarcando para Brasília, para inaugurar uma frente parlamentar da cancerologia juntamente com a Sociedade Brasileira da Cancerologia", conta.
Graça, que procurou tratamento na rede particular, também se preocupou com a saúde mental. "Sou budista japonesa, por isso faço psicoterapias e medito há muitos anos, o que me fortaleceu sempre. Com a meditação me tornei uma pessoa que enfrenta os obstáculos como simples fatos da vida, os quais eu devo superar". Segundo a doutora, não apenas o paciente, mas toda a família necessita de atenção e cuidado, principalmente psicológico, para enfrentar a batalha. "Toda a família deve procurar ajuda psicoterápica, consultar mais de um médico e ter paciência. O câncer é uma doença pesada e exige estrutura de todos. É importante saber também que a alimentação é importante durante e após o tratamento. Fora isso, deve-se ler e procurar ajuda espiritual ou religiosa", recomenda ela.
Mesmo a mais forte das mulheres acaba se sentindo mais frágil, devido à ação devastadora da doença. Com ela não foi diferente. "Sofri demolidoras depressões pelas doses de quimioterapia e radioterapia, quase morri devido aos efeitos colaterais do tratamento, pois sou sensível a remédios. Tive medo, como todo mundo, de sofrer, mas nunca de morrer. Eu vejo a morte como uma passagem. Havia momentos em que eu achava que não estava tendo um câncer, que tudo aquilo era um equívoco, mas o diagnóstico dizia que sim e eu trabalhava para transformar o mal em bem. Sempre acordei querendo ver até que ponto eu havia de ser testada para transmitir às pessoas algo positivo", continua.
Amor ao próximo
E foi esse sentimento de ajudar que deu ainda mais disposição e força para que Graça vencesse a doença e criasse uma entidade de apoio ao paciente com câncer. "Eu fui movida pelo desejo humano de ajudar pessoas com o mesmo problema e que não tinham acesso a tratamentos privados, nem sabiam que tinham direito aos tratamentos públicos com dignidade. Eu quis melhorar o sistema de atendimento do SUS e dos planos de saúde, quis mudar o Brasil na saúde", emociona-se. "Na época em que estive doente, uma paciente levava oito meses para conseguir fazer uma mamografia e 12 meses para passar por uma cirurgia oncológica. Em oito anos, o tempo de espera por uma cirurgia caiu para seis meses. Hoje eu luto pela aprovação da emenda constitucional 29, que parou na Câmara dos Deputados mas que, ao aprovada, deverá melhorar os recursos da saúde de um modo geral. Além disso, fundei o Núcleo de Apoio ao Paciente com Câncer (Napacan), que existe, fundamentalmente, para dar voz ao paciente na hora de receber atendimento, de conhecer seus direitos, de ser informado adequadamente sobre o que é o câncer e, sobretudo, ser informado que ele tem cura quando se faz um diagnóstico precoce e se recebe tratamento especializado na hora certa".
Para Dra. Graça, mesmo tendo vencido a doença, as dificuldades persistem até hoje, mas ela não desiste. "Sempre faltou dinheiro e pessoas para trabalhar no núcleo. Nunca tivemos uma sede e até hoje vivemos ‘de favor' em salas emprestadas. Pelo fato de sermos um advocacy, e não uma associação assistencialista, somos segregados. De certa forma, não somos bem-vindos em lugar nenhum porque brigamos quando algo está errado neste sistema capitalista selvagem. Apontar os erros implica ser marginalizado e até punido", indigna-se Graça. E mesmo com todos os obstáculos enfrentados, ela conta que consegue fazer um belo serviço: "Até hoje conseguimos atender 599 mil pessoas e distribuímos mais de 200 mil manuais do Napacan com informações importantes para os pacientes, que são atendidos em até dez dias depois de nos procurarem. Além do manual, disponibilizamos todo o material educacional e informativo que ele e seus familiares necessitam no site do núcleo, que é atualizado e supervisionado diretamente por mim desde 1999. Também fazemos campanhas de prevenção e promovemos passeatas pela conscientização da população sobre a doença", enumera.
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