Os poetas costumam afirmar que não há nada mais misterioso do que a alma feminina. Um pouco de exagero talvez. Mas é verdade que a alma da mulher tem "fases" incompreensíveis aos olhos do mundo e aos seus próprios. É a tristeza que surge aparentemente sem motivo, a impaciência que beira o insuportável às vésperas da menstruação, é o choro que vem fácil diante de mais uma tarefa que parece impossível no trabalho. Ainda há quem chame isso de fragilidade. Pura bobagem. Motivos não faltam para que a mulher viva nessa montanha-russa emocional. A começar pelo sobe e desce dos hormônios, que a acompanha todo mês, interferindo no seu humor. Somados a isso, há a pressão pelo desempenho impecável na empresa, a cobrança pelo corpo perfeito, pela mãe presente, pela mulher imbatível na cama. Esse redemoinho de alterações e cobranças torna a mulher mais vulnerável à depressão.
Segundo o Guia da Saúde Familiar, escrito sob a supervisão médica do Hospital Israelita Albert Einstein, as mulheres são duas vezes mais propensas a terem um diagnóstico de depressão do que os homens. Isso não significa, necessariamente, que elas estejam mais predispostas à doença. Pode ser que as mulheres admitam que sofrem de depressão mais do que os homens ou que os médicos reconheçam com mais facilidade a depressão nelas. A boa notícia é que, qualquer que seja a causa, ela pode ser eficazmente tratada.
Todos esses fatores são importantes, mas há também diferenças físicas entre o homem e a mulher que parecem torná-las mais propensas à depressão. A mais importante delas é o nível dos hormônios sexuais, o estrógeno e a progesterona. A mulher tem um nível maior destes hormônios e ele muda durante o ciclo menstrual, a gravidez, o parto e a menopausa. Inclusive, pílulas anticoncepcionais podem, associadas a outros fatores, levar à depressão. "A mulher já produz progesterona naturalmente. Por isso, pílulas à base desse hormônio podem deixar a mulher sem ânimo, mais cansada e estressada porque há um excesso hormonal. Se, paralelamente a isso, a vida da mulher não estiver legal, pode levar a um quadro depressivo", garante o ginecologista Gerson Aranha.
Os níveis de estrógeno e progesterona são muito altos na gravidez e caem drasticamente após ao parto. Essa súbita mudança pode, em alguns casos, desencadear a depressão. De acordo com um levantamento feito pelo Hospital Israelita Albert Einstein, 15% das mulheres entram em depressão pós-parto. "Alguns fatores aumentam essa possibilidade. Quanto maiores os fatores de risco, maiores as possibilidades de desenvolver a doença", alerta o psicólogo Márcio Reis. Esses fatores de risco se dividem em antes e depois do nascimento da criança. "Mães solteiras, problemas financeiros sérios, ter um filho antes dos 16 ou após os 40 anos, incerteza quanto a querer ou não a criança e ansiedade leve ou moderada durante os três últimos meses da gravidez podem levar a uma depressão pós-parto antes do nascimento da criança. Ter filhos deficientes também pode levar a mulher a ter uma depressão após o nascimento da criança", exemplifica.
A bióloga Teresa Cury, 43 anos, teve o dissabor de passar pela depressão pós-parto. Sonhando desde menina em ser mãe, ela entrou em crise quando soube que o seu filho tinha um problema. "Eu não estava preparada para encarar a realidade. Na verdade, qual é a mãe que sonha com um filho deficiente? Tive todos os cuidados durante a gravidez e sonhava com o dia em que o meu filho nascesse. Então, o tão esperado dia chegou, só que meu filho nasceu com Síndrome de Down. Meu mundo caiu. Eu não queria nem olhar pra carinha dele", admite. Passados dois anos, o panorama mudou completamente. "Meu marido teve um papel fundamental para eu me encontrar novamente. Todo o carinho que eu não dei pro meu filho, ele deu em dobro. Fiz análise e cheguei a conclusão de que ele não tem culpa nenhuma. Afinal de contas, ele não pediu para nascer doentinho. O que eu tenho que fazer é dar muito amor pro meu filho para compensar o que eu deixei de dar no passado", explica Teresa.
Difícil é definir o prazo o fim da depressão. Na verdade, isso é muito pessoal e varia de indivíduo para indivíduo. "Não se pode determinar que uma pessoa vai sair da depressão em trinta dias. Até porque a depressão é dividida em níveis que vão da leve à profunda. Nos casos de depressão leve, uma terapia já pode resolver; nas profundas, temos que recorrer a medicamentos que podem deixar a pessoa dependente. Não gosto muito de receitar remédios, prefiro os naturais, como a Cava-Cava, um excelente anti-depressivo fitoterápico", recomenda a psicóloga Mariza Carraes. É importante também definir exatamente um quadro de depressão. "Estar triste é completamente diferente de estar deprimido. Fazer as atividades cotidianas triste é uma coisa, mas deixar de fazer as coisas mais corriqueiras como comer, falar com amigos e ter um convívio sócio-familiar determina um quadro depressivo", complementa. Ansiedade, cansaço excessivo, irregularidades na menstruação, perda de interesse no sexo, aumento ou perda de peso, problemas de concentração e memória, problemas com o sono (dificuldade em pegar no sono, despertar muito cedo pela manhã ou dormir demasiadamente) e lentidão mental e física também são sintomas comuns.
A estudante de engenharia Gabriela Santos, 26 anos, sabe muito bem dos males da depressão. Não por ter lido sobre o assunto, mas por ter sentido o drama na própria pele. "Acho que tudo começou por causa do estereótipo da mulher perfeita. Eu entrei numa de que eu queria ser como as modelos: lindas e com um corpo perfeito. Aí, entrei em parafuso e me senti a pior mulher do mundo. Não queria sair com ninguém, terminei com o meu namorado e me tranquei no quarto. Naquela ânsia pelo corpo perfeito, parei de comer e, quando comia, vomitava tudo logo depois. Até a hora em que minha mãe ficou desesperada, me levou a um psicólogo e ele disse que eu estava com depressão e bulimia", conta. O psicólogo Márcio Reis alerta que a depressão é uma doença psicológica cujo objeto a ser tratado, em vez de ser a própria doença, é o portador. Hoje, dois anos após o acontecido, o quadro é outro. "Descobri que o problema era meu e que minha auto-estima estava lá embaixo. Aprendi que nem tudo na vida se resume a um corpo perfeito e que a felicidade está em nosso interior", afirma Gabriela.
Bem já disse o escritor Fernando Sabino: "No final tudo dá certo. Se ainda não deu certo, é porque não chegou o final". Na verdade, temos que aproveitar o dia de hoje porque como dizem outros tantos, o passado já se foi, o futuro é uma incerteza e o presente é uma dádiva. Por isso é chamado de presente.
Agradecimentos:
Dr. Gérson Aranha – Ginecologista
Rua Frei Gaspar, 739, sala 201 – Centro
São Vicente – São Paulo – SP
Tel.: (13) 3468-3868
Dr. Mariza Carraes – Psicóloga
Centro Médico Energia Vital
Av. Nossa Senhora de Copacabana, 1133, 10º andar – Copacabana
Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2267-6714
Dr. Márcio Reis – Psicólogo
CORPSI – Centro de Orientação Psicológica
Rua Siqueira Campos, 143, sala 706 – Copacabana
Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2287-2802
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