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Ao contrário do que muita gente pode pensar, a obesidade é uma doença e emagrecer, nesse caso, não é apenas uma questão de disciplina - pesquisas revelam que apenas 5% desse público responde aos tratamentos propostos e permanece magro por, pelo menos, dois anos. É por isso que depois de todas as tentativas surgem no horizonte as cirurgias bariátricas, e com elas grandes expectativas! Realizada há 16 anos no Brasil, ela só chegou ao conhecimento do grande público há bem menos tempo, mas desde então tem sido a opção de muitas pessoas. Só no ano passado foram 20 mil operações no país - número relativamente pequeno diante de dois milhões de obesos. Entretanto, a experiência dos que passaram por uma dessas cirurgias demonstra que ela, infelizmente, não é milagrosa: o emagrecimento não é instantâneo e, diferentemente do que ronda o imaginário daqueles que engordam para poder operar, nada é fácil ou sem restrições.
A primeira coisa a se ter em mente é que a cirurgia por si só não resolve as predisposições para a obesidade e os problemas que são atribuídos à doença. De acordo com Luiz Vicente Berti, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a técnica "é uma arma para a mudança de vida". Mas de nada adianta ter uma arma sem saber usar, sem ter manutenção. "É preciso acompanhamento constante com profissionais especializados, e consciência de que as idas aos médicos serão constantes", lista. Tanto cuidado não é para menos: a cirurgia é uma revolução na vida e na cabeça das pessoas.
Desafios e saltos altos
Jordana Garcia tem 31 anos, 1,50m de altura e pesava 105kg quando concluiu que a cirurgia era a única solução para a batalha que sempre travou contra a obesidade. Ela tem problemas de tireóide que desaceleram seu metabolismo. Como conseqüência, as dietas não surtiam o efeito desejado. "Eu sofria porque não podia tomar um chope que todo o esforço feito ia por água abaixo. Só que hoje preciso tomar mais cuidado. Antes eu fazia regime e se saísse, engordava. Agora, passo mal e vou parar no hospital", conta Jordana.
Depois de quase dois anos, ela carrega 45Kg a menos, entretanto, ainda não consegue comer carne vermelha. "Tenho que comer por recomendação do nutricionista três vezes por semana, mas ainda não consigo. Fico na carne moída ou como soja. Morro de medo de engasgar! Eu não era aficionada, mas aquela picanha de churrasco faz falta", reconhece.
Mas ela garante que a primeira semana foi pior que qualquer restrição alimentar. "Depois da cirurgia eu não parava de me perguntar por que tinha feito aquilo comigo. Eu sentia muita dor, inclusive de cabeça e não podia comer nada! Aí uma moça que eu não conhecia foi me visitar. Ela disse que sentiu a mesma coisa e que ia passar logo. E realmente passou", relembra. "Duas semanas depois eu já achava que era a melhor coisa do mundo, já estava emagrecendo", continua ela, que participa de um grupo de pessoas que já fez ou fará a cirurgia. Segundo ela, a troca de experiências é um momento de conscientização. Ali os pacientes percebem que sem força de vontade, não há emagrecimento.
Entre as revoluções pós-cirúrgicas listadas por Jordana estão exercícios físicos, um pouco de salada e um emprego novo. Ela diz que era bastante bem resolvida, exceto com o próprio espelho. Mas emagrecer lhe deu liberdade e segurança. "Mudei de emprego depois da cirurgia. Antes, até uma entrevista era inconveniente porque há restrições veladas aos obesos. Eu trabalho com eventos e jamais seria contratada. E nem conseguiria andar tanto quanto hoje", pondera. Mas o melhor parece estar na vaidade. "É ótimo poder pedir roupa M e ter que comprar P. E usar salto alto! Eu não tiro mais os saltos, pois no passado não tinha equilíbrio para usá-los", celebra.
Novo cotidiano
As realizações daqueles que passaram pela sala de cirurgia estão sempre próximas do cotidiano. Gabriel* engordou depois dos 20 anos e decidiu que chegaria bem aos 30. Para isso, operou e perdeu 60kg. Diziam que sua cirurgia era "necessária para viver", mas ele a define como uma benção. Porém, para usufruir de prazeres cotidianos de que os magros nem se dão conta, como fazer pequenas caminhadas sem esforço, comprar a roupa que bem entender e não suar em excesso no verão, foi preciso se render a sacrifícios. "No início muda tudo, precisava manter distância dos alimentos ‘fofos' como arroz, pão macio e farofa, que é péssimo, pois inflam no estômago. No começo eu esbarrava neles o tempo todo. Agora minha alimentação está muito próxima do normal", garante.
Ele relembra que o lugar ao seu lado era o último a ser ocupado no ônibus e que ninguém olhava para ele "paquerando". Não tinha vida social, era workaholic. Também se considerava mais engraçado que agora, o que parece ser a única mudança que não estava em seus planos. Ah, e novos planos não faltaram: "Eu e uma amiga sentamos e esboçamos a nova pessoa que eu ia ser, as roupas que eu ia usar, o perfume, todos os detalhes", recorda-se.
Depois da cirurgia, reconhece, abriu-se um mundo novo. "Eu saía muito, não parava em casa. Tinha muita sede do que não tinha vivido. Mas é preciso manter a cabeça no lugar porque estava em uma situação em que não recebia atenção para então receber, e não estava acostumado com isso. Com o tempo fui me ajustando porque, afinal, ficar em casa também era parte do que eu sou. Eu logo arranjei uma namorada - tinha pensado em ficar com várias, mas não foi o que aconteceu - e depois outra, com quem me casei", conta.
Um fato curioso no pós-operatório de Gabriel é que ele emagreceu mais do que gostaria, e fez tratamento para engordar 5kg. Agora está no peso que considera ideal e diz viver como muita gente, se controlando bastante durante a semana para poder comer à vontade nos finais de semana. A mudança estética foi tanta que seu filho o achava "estranho". Ele, no entanto, diz que estranho era se ver gordo. Foram menos 20Kg no primeiro mês e 15Kg no segundo, quando se deu o que ele define como a grande realização - quebrar a barreira dos três dígitos.
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