Já dizia o ditado: sempre existe um chinelo velho para um pé cansado. Pois isso também vale para outros calçados. Ultimamente, tem-se dado importância para o tênis ideal, ou seja, o que melhor se adapta não só ao formato do pé, mas também ao tipo de pisada, à atividade física, ao grau de condicionamento e ao local de treinamento do seu portador. Se antes, escolher o homem errado dava dor de cabeça, parece que usar um tênis inadequado também pode ser bem prejudicial. Mas fique tranqüila, porque pelo menos sobre esse assunto a gente te dá todas as instruções.
O tênis foi criado para ser um tipo de calçado mais leve e confortável. Com o tempo, – e o avanço da tecnologia - ganhou variações que resultaram em modelos especializados para os diversos tipos de atividades. Isso porque a medicina descobriu que não basta colocá-los no pé e sair andando, pulando ou correndo por aí. Deve-se usar um modelo que, além de aumentar a eficiência da prática do exercício, não vá causar nenhum dano depois. De acordo com o professor de educação física e especialista em treinamento esportivo João Montenegro, o tênis ideal deve amortecer o impacto, dar estabilidade aos pés e às articulações, ser flexível na hora do movimento e, acima de tudo, oferecer conforto. “Não existe uma receita de bolo, varia com a anatomia e biomecânica de cada pessoa”, explica.
O primeiro passo – literalmente – para comprar um calçado é estar atenta ao tipo de atividade em que ele será usado. O tênis de caminhada, por exemplo, não precisa oferecer tanta absorção de impacto quanto os de corrida. “Usar tênis de corrida sem praticar a atividade, não pode. O calçado é projetado para absorver um impacto de 1,5 a 4 vezes o peso corporal, que no caso se concentra principalmente no calcanhar. Já na caminhada, a carga fica distribuída e o impacto é menor. O amortecedor, que seria para absorver o movimento na corrida, acaba ficando duro demais e causando dor”, revela o especialista.
Bota aqui o seu pezinho
Tem tênis pra tudo quanto é atividade, desde andar de bicicleta até a caminhar por terrenos rústicos, como a lama. Mas, sem dúvida, os de corrida são os mais populares. Por conta disso, já existem lojas especializadas que oferecem análises biomecânicas detalhadas para orientar o cliente a fazer a escolha certa. A estudante de educação física Michele Valente trabalha em uma dessas lojas e aconselha a iniciar o teste observando o próprio movimento que se faz quando corre. A partir daí, é possível saber a mecânica da corrida, ou seja, como o peso é amortecido ao pisar no chão, além de mostrar a disposição dos joelhos e ossos dos pés. “Essas características, juntamente com o formato dos pés, ajudam a mostrar que parte cada corredor usa quando toca o chão, e a saber onde deve ter mais amortecimento”, diz ela.
Pisadas e pisantes
No caso das mulheres, por terem a região pélvica mais larga, o ângulo formado do joelho ao quadril é bem maior do que o dos homens. Dessa forma, elas tendem a pisar com a parte de fora dos pés, e por isso precisam de um amortecimento extra nessa região. Mas isso não é tudo. Segundo João Montenegro, existem três tipos de pisada. “A pronada acontece com quem pisa para dentro, a supinada, típica de quem toca primeiro o solo com a parte externa dos pés, e a neutra, considerada normal. Se uma pessoa tem a pisada pronada, por exemplo, ela vai apoiar o peso do impulso no lado de dentro dos pés e rolar para o calcanhar e por isso precisa de um apoio extra nessa região”, explica ele. A maneira como cada pessoa toca o chão na hora do impacto determina como muitos pisantes vão ser projetados.
O ortopedista Arnaldo Glasberg explica que supinação e pronação são ângulos laterais mais ou menos acentuados de acordo com o tipo de arco do pé. Aliás, esse é outro quesito que contribui muito na hora de escolher um tênis. Segundo ele, os tênis precisam se adequar a anatomia plantar de quem vai usá-los para que haja controle e estabilidade no movimento. Pés com o arco elevado tendem a ser supinadores e precisam de um solado curvo e macio. O contrário acontece com os chamados pés chatos, predominantemente pronadores e carentes de um solado plano. Pessoas com inclinação intermediária não costumam apresentar grandes exigências de amortecimento, suporte e controle de movimento, porque distribuem corretamente o peso. Sobre isso, o Dr. Arnaldo acrescenta: “Todo tênis tem que ter um pouco de ângulo, sem ser excessivo. O arco muito elevado aumenta a própria curvatura do pé e isso incomoda. É claro que existem casos mais sérios de inclinação e cavidade do arco, mas quando a situação é grave, deve-se consultar um ortopedista para fazer uma palmilha especial”, alerta.
O médico ainda adverte sobre o excesso de maciez. Para o ortopedista, muita absorção aumenta o esforço muscular. “O ideal é um nível de amortecimento intermediário. O tênis muito duro prejudica as articulações, e o extremamente macio causa lesões nos músculos, porque a energia que afunda não é contrabalançada. O tecido muito macio pode funcionar como retentor de esforço do movimento”, adverte Dr. Arnaldo. Assim, como na corrida e na caminhada, o mau uso dos tênis nas demais atividades pode ser perigoso. Práticas como a ginástica, musculação e outros exercícios aeróbicos exigem boa absorção de impacto e estabilidade. A pisada frequentemente não amortecida pode virar uma fonte de problemas que vão de uma mera bolha a casos de inflamação nas articulações.
Agravantes
Existem outros fatores com potencial de atrapalhar o bem-estar dos usuários de tênis e adeptos de exercícios físicos, como o prazo de validade - que é de no máximo seis meses - dependendo da freqüência de uso ou da intensidade da atividade física. Depois disso, eles passam a perder o efeito e se transformam em causadores de dores nos tendões e na sola do pé, além de provocar problemas mais graves, como cistos nos ligamentos. Outro ponto importante é a numeração. “Tem que ter sempre um número a mais. Caso contrário, o pé fica espremido e facilita o aparecimento de unhas encravadas, ficando impedido de exercer o movimento completo de distribuição de peso”, ressalta João Montenegro.
O ortopedista Luiz Vicente Ralha costuma receber pacientes com reclamações de dores provocadas por tênis inapropriados. Segundo ele, os principais casos são os de uso de calçados sem amortecedor. No entanto, João Montenegro afirma que a lesão é relativa. “Muitos ortopedistas que não se especializam em biomecânica e medicina esportiva acabam jogando toda a culpa dos problemas de seus pacientes em cima do tênis. O calçado só absorve 10% do peso do atleta, o resto é trabalho do próprio corpo. Se não houver uma musculatura forte, tênis nenhum salva. A estrutura e o preparo do atleta compõem a base de um bom desempenho”, explica o especialista.
Viu só? Por isso, é importante estar bem esclarecida antes de escolher o seu tênis, já que de nada adianta pagar caro por um pisante cheio de gel e molas se ele não cumprir o prometido.
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