Em tempos de culto ao corpo e grande preocupação com a aparência, é natural que as pessoas se sintam tentadas a se adequar aos chamados "padrões de beleza", que se renovam ano após ano e acabam por determinar o que as pessoas devem vestir, comer e seguir. Hoje, eles anunciam: não basta ser bonita e bem-sucedida. Tem de ser magra! Para alcançar esse ideal, muitas garotas acabam passando dos limites. Ansiosas por manter o corpo esbelto, elas acabam desenvolvendo transtornos alimentares. E não tem nada de frescura aí. São doenças sérias que, se não tratadas, podem acarretar uma porção de outros problemas para organismo. Em casos mais graves, até levar à morte. Um dos componentes desse grupo de doenças resultantes da vaidade feminina é a bulimia nervosa. Quem sofre dela tem episódios freqüentes de compulsão alimentar, seguidos de métodos compensatórios inadequados para o controle de peso. Ou seja: depois de comer descontroladamente, elas lançam mão de laxantes, diuréticos, exercícios exagerados, jejuns e até vômito, tudo para tentar evitar o ganho de alguns quilinhos.
A bulimia nervosa é um problema essencialmente feminino e ataca, em sua maioria, mulheres jovens. Só para se ter uma idéia, 90% das bulímicas têm entre 18 e 23 anos. Para elas, a aparência tem um valor extremamente exagerado. Tanto que a sua auto-estima está totalmente focada na forma e no peso do corpo. Uns quilinhos a mais, portanto, são inadmissíveis. "Durante o episódio de compulsão, elas não têm controle sobre seu comportamento alimentar. Se sentem incapazes de parar de comer ou controlar o que ou quanto estão comendo. Depois, por causa do sentimento de culpa, elas encontram uma alternativa para tentar evitar o aumento de peso, como a auto-indução de vômitos e o uso de medicamentos", comenta o psicólogo Sergio Stefano, membro do
PROATA (Programa de Assistência aos Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp). O que elas não sabem, segundo o psicólogo, é que esses métodos são totalmente equivocados. "A bulimia nervosa não faz diminuir o peso. Pelo contrário, ele geralmente é mantido em torno do normal", alerta ele. Em suma: sofrimento à toa, poucos resultados e nenhum benefício para a saúde.
CausasNão existe uma causa específica para o surgimento da bulimia nervosa. O que se pode apontar como vilões nessa história são diversos aspectos ligados à sociedade, à cultura, à família e até à própria imagem que a pessoa tem de si mesma. Mesmo assim, de acordo com o doutor Sergio, quem sofre da doença geralmente apresenta sintomas de depressão e ansiedade. No entanto, é preciso buscar o auxílio de um médico para o diagnóstico, pois a própria depressão também leva, às vezes, a episódios de compulsão. E nem sempre eles significam que a pessoa tem bulimia.
O rastro da doençaApesar das várias alternativas, o vômito é a arma mais utilizada por quase 90% das bulímicas para dar adeus à comida ingerida em excesso. Isso porque ele faz a pessoa se sentir aliviada do desconforto físico e com menos medo de ganhar peso. Com o tempo, depois de tanta prática, a pessoa fica tão hábil em induzir o vômito, que é capaz de fazê-lo a hora que quiser.
Mas não pense que vomitar em demasia não traz conseqüências. Pelo contrário! Por causa da acidez do vômito, a indução exagerada dele pode provocar gastrite, esofagite, desequilíbrio eletrolítico – provocando fraqueza e desmaios – e até mesmo úlceras. Isso sem falar nas cordas vocais, que podem ficar comprometidas, fazendo a pessoa ficar rouca. Pensa que acabou? Que nada! A bulimia acarreta também uma série de outras complicações, como dores musculares e câimbras, desidratação e desnutrição, inflamações na garganta e nas glândulas salivares. Tanto estrago para nenhum resultado!
Anorexia versus bulimiaSe na anorexia a pessoa se nega a admitir que está doente e não quer nem saber de tratamento médico, na bulimia a reação é diferente. Geralmente a pessoa tem consciência de que não está fazendo a coisa certa e acaba tomando a iniciativa de procurar o tratamento. E, por mais que se diga por aí que a bulimia é um passo para a anorexia, essa história não passa de um mito. "Não existe correlação direta entre essas doenças. O que pode ocorrer é encontrar pacientes anoréxicas que migraram para a bulimia durante o período de recuperação", afirma o Dr. Sergio Stefano.
O caminho da curaTratar a bulimia nervosa não é brincadeira. Para reverter o problema, é preciso contar com o empenho de uma equipe multidisciplinar, formada por especialistas como nutricionista, psicólogo ou psiquiatra – ou ambos juntos – e clínico geral, que vai acompanhar o paciente por muitos anos – geralmente, cinco anos ou mais. "Os tratamentos para transtornos alimentares são feitos a longo prazo e podem variar de acordo com cada caso. Geralmente ele é feito com a combinação de psicoterapias e antidepressivos, que apresenta bons resultados. Porém, nos casos mais graves, pode ser necessária a internação", diz o psicólogo.
O que a família pode fazerEm primeiro lugar, nunca se deve negligenciar o problema. Por mais que a bulímica faça tudo às escondidas, a família precisa ficar de olho em alguns sinais, como mudança nos hábitos alimentares, sinais de vômitos constantes, mudança no esmalte dos dentes e calos no dorso das mãos, provocados pelo atrito com os dentes ao forçar o vômito. Descoberta a bulimia, nada de fazer críticas! A melhor coisa a fazer, além de consultar imediatamente um médico, é mostrar tolerância e compreensão. "A família precisa estar sempre aberta para conversar com a filha, ajudá-la a procurar tratamento e apoiá-la para superar a compulsão. O importante é não ignorar o problema, pensando que esses comportamentos são passageiros ou não merecem atenção. Os transtornos alimentares são sérios e precisam ser tratados o quanto antes", orienta o Dr. Sergio.
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