Clube do Romance

Uma tacada de sorte

por Harlequin Books | 19/05/2007

De Christine Rimmer. Série Harlequin Destinos. Edição 49.


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Uma tacada de sorte

* Este capítulo é apenas para degustação. Não terá continuação aqui. O restante do livro pode ser lido na série Harlequin Destinos 49.

Um
Os dois carrinhos de golfe alcançaram o ponto do nono buraco pouco depois das oito horas, naquela manhã de domingo no final de maio. Tyler Murdoch e Spence Harrison seguiam no primeiro carrinho. Flynt Carson e o Dr. Michael O'Day, o quarto jogador que eles escolheram na sede do clube quando Luke Callaghan não apareceu, vinham atrás.

Era uma daquelas raras manhãs perfeitas, a temperatura beirava os 25°C e o céu estava azul, com apenas uma ou outra nuvem tênue e passageira. Quando os homens emergiram de sob a cobertura dos carvalhos, o gramado, ainda úmido por ter sido regado logo cedo, chegou a parecer surreal de tão verde. Um verde vivo, pensou Flynt Carson. Como os olhos de Josie... Flynt praguejou baixinho. Há um ano vinha prometendo a si mesmo que pararia de pensar nela. No entanto, o nome dela ainda encontrava uma maneira de se intrometer em seus pensamentos.

- O que você disse? - Michael O'Day parou o carrinho logo atrás do de Spence e Tyler. - Acho que percebi o espírito da coisa, mas não entendi as palavras exatas - disse sorrindo com malícia.

Flynt procurou voltar sua atenção para onde ela deveria estar, no jogo.

- Apenas me lamentei pelo último buraco. Se a bola tivesse saído da areia em uma posição um pouquinho mais favorável, eu poderia ter me saído melhor na tacada seguinte. Não há dúvidas de que preciso praticar mais na areia.

Michael riu.

- Pelo menos você...

Naquele instante, Flynt escutou o tipo de som que um homem não deveria ouvir em um campo de golfe. Ele ergueu a mão, embora Michael já houvesse se calado. Os dois homens no carrinho da frente pareciam ter escutado também. Olhavam ao redor, procurando a sua origem, quando o som começou novamente: um chorinho abafado.

- Veio dali - disse Spence, apontando para um arbusto espesso que ocultava parcialmente um galpão de jardinagem, a cerca de trinta metros deles.

Michael franziu a testa.

- Está parecendo um...

Spence já havia descido do carrinho.

- Meu Deus! Não posso acreditar.

Flynt também não podia. Ele piscou os olhos e olhou novamente. Mas o bebê-conforto, do tipo que podia ser usado no carro também, ainda estava lá, embaixo dos arbustos. E ali dentro, enrolado em um cobertor rosa, agitando as mãozinhas e começando a chorar, estava um bebê.

Um bebê. Um bebê sozinho. No local da nona bola do campo de golfe do Estrela do Texas Country Club.

- Que tipo de idiota deixaria um bebê no meio do campo de golfe? - indagou Tyler Murdoch, para ninguém em particular. Ele saiu correndo atrás de Spence, sendo seguido por Flynt e Michael.

Na metade do caminho entre os carrinhos e a criança chorando, os quatro homens reduziram o passo. O bebê chorava mais alto, e as mãozinhas agitavam-se ainda mais furiosamente.

Os homens - todos orgulhosos texanos de cintura fina e ombros largos - se detiveram a uns cinco metros da criança que berrava. Três deles haviam conquistado a Estrela de Prata por bravura em combate. O quarto, Michael O'Day, era, talvez, o melhor cirurgião cardíaco do estado. Passara a vida lutando para salvar vidas na sala de cirurgias - e, na maioria das vezes, fora vitorioso. O próprio pai de Flynt, Ford Carson, era prova viva da habilidade e dos nervos de aço do Dr. O'Day.

Não havia nenhum covarde ali. No entanto, aquele bebê chorando os deixara paralisados. Para o resto do mundo podiam ser heróis, mas os quatro homens também eram solteiros. E sem filhos. Nenhum deles sabia o que fazer com uma criança chorando. Por isso ficaram ali parados, e o bebê chorou ainda mais alto.

Os homens trocaram olhares, do tipo que solteirões fazem quando um bebê chora e não há uma mulher por perto para tomar conta da situação.

- Talvez a mãe esteja por perto - sugeriu Spence, esperançoso.

- Onde? - indagou Tyler, com deboche. - Agachada nos arbustos? Escondida no galpão?

- Foi só uma sugestão.

Vários outros segundos tensos se passaram, com a criança ficando cada vez mais agitada, seu rosto cada vez mais vermelho.

- Spence - disse Tyler. Ele apontou para a esquerda com a cabeça. - Vá para lá e eu vou pela direita. Contornaremos o galpão e nos encontraremos nos fundos. Depois verificaremos o seu interior.

- Tudo bem.

Os dois começaram a andar. Tyler se deteve após alguns passos e, olhando por cima do ombro, aconselhou:

- É melhor cuidarem da criança.

Flynt resistiu ao ímpeto de dizer: "De jeito nenhum. Vocês cuidam do bebê. Nós verificaremos o galpão." Mas sabia que havia deixado a oportunidade lhe escapar. A criança sobrara para ele e Michael.

- Vamos lá - disse, secamente, para Michael, que, sério, se dirigiu para o bebê-conforto.

Quando sua sombra cobriu o bebê, o choro parou. Para Flynt, após todo aquele barulho, o silêncio parecia maravilhoso. O bebê piscou em direão a ele. Uma menina, Flynt supôs, afinal o cobertor era rosa. Os olhos azuis brilhantes pareciam estar se esforçando para focalizá-lo. Quando ela resolveu desistir, fechou os olhos, abriu a boca pequenina e soltou mais um longo berro zangado.

Flynt agachou-se.

- Ei, ei. Ora, vamos. Está tudo bem, tudo bem...

Ela podia estar com fome ou precisando de uma troca de fraldas. Com certeza precisava ser confortada - e isso caberia a ele. Percebeu um bilhete preso ao cobertor e o pegou. Ele estava úmido. A água das folhas molhadas dos arbustos pela irrigação automática havia pingado nele. A primeira parte do que quer que tivesse sido escrito no papel estava borrada a ponto de ser ilegível. Mas ele pôde ler um nome. Lena.

- Oi, Lena. Como vai?

O bebê se interrompeu no meio do grito, soluçou e voltou a berrar.

- Deixe-me eu ver o bilhete - disse Michael, atrás de Flynt.

Ele o entregou ao médico, e depois tratou de retirar a criança do bebê-conforto. Durante todo o processo de soltá-la das amarras, ele conversou com ela, tentando parecer tranqüilizador, e, provavelmente, não sendo muito bem-sucedido.

- Oi, Lena. Vamos tirá-la daí. Vai dar tudo certo. Ora, vamos...

Droga, ela era tão miudinha. Tão pequenina quanto Wild Willie, o filhote de gato de que gostava tanto quando criança - e muito mais indefesa. Ele colocou uma das mãos na nuca do bebê, apoiando sua cabeça. Alguns anos atrás, ele se informara um pouco a respeito dos cuidados básicos que se deveria ter com um bebê. Isso foi antes do acidente, quando Monica enfim engravidara e ele achara que ia ser pai, talvez até um pai tão bom quanto o dele fora. Lembrava-se de ter lido que era necessário oferecer apoio à cabeça dos bebês, visto que eles não tinham muito controle disso e eram incapazes de sustentá-la sozinhos.

Lena parou de se debater quando ele a ergueu. Ela estava piscando novamente, tentando focalizar o rosto dele. Será que também não lera que eles só conseguiam enxergar de muito perto, que, através da visão, criavam vínculos com os rostos dos adultos que cuidavam deles? Ela estava olhando para ele. Estava sim.

- Lena...

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