* Este capítulo é apenas para degustação. Não terá continuação aqui. O restante do livro pode ser lido na série Harlequin Jéssica 49.
CAPÍTULO UM
Sentado à escrivaninha, Gabe Considine ergueu os olhos azuis, frios como aço para o irmão mais novo e fez um estranho pedido a ele.
- Diga que estou maluco.
Marco franziu as sobrancelhas.
- Você está maluco.
Gabe levantou-se rumo à janela, olhando para além dos muros que rodeavam o castelo. Por quase mil anos, seus antepassados moraram na Toca do Lobo e protegeram a rota comercial que cruzava as montanhas entre o resto da Europa e o pequeno principado da Ilíria, no Mar Mediterrâneo. Quarenta anos antes, guerra civil, traição e morte levaram os avós dele, intitulados grã-duque e duquesa, a lutarem ali até a morte, em uma emboscada, com guerrilheiros.
Embora Gabe e os irmãos tivessem nascido no exílio, Marco sabia que Gabriel sentia-se com alguma obrigação perante aquelas pessoas que tanto sofreram e esperavam que seu senhor voltasse.
- Então, apresente uma idéia melhor - respondeu Gabe.
- Que tal ameaças? - a voz de Marco carregava-se de escárnio. - Diga-me onde o colar está ou vou levá-la à falência e colocar sua mãe para fora de casa.
- A mãe dela morreu. E as ameaças serão mais eficientes se Sara estiver aqui, impossibilitada de ir embora.
- Uma prisioneira - Marco afirmou.
- Não seria a primeira vez que uma mulher foi mantida prisioneira aqui.
- Na maior parte, reféns em vez de prisioneiras.
Gabe, Marco e a irmã cresceram cercados de histórias relacionadas à herança da Ilíria. Uma dessas reféns casara-se com o grã-duque.
- E se Sara se recusar a admitir que roubou o colar? - perguntou Marco.
- Então, farei o possível para recuperar o Sangue da Rainha - Gabe respondeu.
O colar, da época medieval, fora talhado com os rubis mais valiosos do mundo.
- Estranho que uma mulher se sinta feliz por usar algo com essa reputação - Marco comentou.
- As mulheres gostam de coisas bonitas, mesmo aquelas com uma história de barbárie. Esse colar é mais do que belo. É magnífico! - disse Gabe.
- Rubis perfeitos, desse tamanho, não se encontram mais nas minas. E há o mistério de como as pedras vieram de Burma - hoje, a região da Índia - para a Europa, e quem as uniu com ouro. Terá sido algum gênio desconhecido da Idade Média? Ou o colar é fruto de uma civilização desconhecida?
Marco riu com desdém.
- Não me diga que acredita naquela história de que foi feito em Atlântida?
O irmão sorriu, cínico.
- Dificilmente. Mas poucas mulheres se importariam com o fato de que a primeira dona morreu nas montanhas apunhalada no coração pelo líder de um bando de marginais. Ultimamente, acho que tenho alguma simpatia por esse homem.
Marco compreendeu a ironia de Gabe. Apaixonar-se por uma mulher, somente para que ela furtasse a jóia dos Considine, de valor incalculável, não tinha nada a ver com o irmão cínico e cabeça-dura, conhecido ao redor do mundo por sua lógica cruel e brilhante. Gabriel tivera aventuras amorosas, mas sempre fora discreto. Era difícil imaginá-lo apaixonado!
Tinha sido um romance improvável - um homem com o mundo a seus pés, e uma mulher vinda do nada, lutando para fazer carreira como decoradora de interiores. Ainda assim, Gabe se apaixonou por Sara Milton, quebrando regras, sob quase todos os holofotes da mídia. Duas semanas depois do anúncio do noivado, Gabe insistira em que a jovem usasse o colar em um casamento.
Essa noite foi inesquecível, e não somente por causa da beleza dos rubis, que cintilavam com glamour ressaltando os esplêndidos cabelos negros de Sara. Cada magnífica pedra fazia um contraste perfeito com a pele clara da jovem de olhos verdes.
Naquela ocasião, o colar desapareceu de um cofre no castelo onde Sara estava. E a combinação do cofre tinha sido escolhida pela jovem. Marco ainda ficava furioso ao lembrar-se de que a cunhada tentou culpar a empregada, mas Gabe compreendera a artimanha.
Embora o roubo permanecesse em segredo, três dias depois do término do noivado, a mídia voltou a se exaltar. Alguns tablóides o consideraram o escândalo do século.
- Tem certeza de que Sara pegou a jóia? - indagou Marco. - Não há nenhuma evidência forte de que tenha sido ela.
- Sara o roubou. Vou convencê-la de que valerá a pena me devolver o colar.
Gabe era mesmo capaz de fazer isso. O irmão baseava-se mais na formidável auto-estima do que nas origens aristocráticas que lhe deram aquele rosto imponente e o corpo esguio, bem estruturado, em 1,82m de altura. Se havia alguém capaz de seduzir Sara a ponto de descobrir o paradeiro do colar, era Gabe. Entretanto, Marco sentiu-se obrigado a alertar:
- Sara ia se casar com você. Poderia ter o colar sempre.
- Já mudara de idéia com relação a isso - Gabe disse, com escárnio.
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