* Este capítulo é apenas para degustação. Não terá continuação aqui. O restante do livro pode ser lido na série Harlequin Destinos 50.
Um
- Quem é o pai, menina?
A pergunta de Archy Wainwright explodiu como um trovão, engolindo o silêncio mortal que se instalara alguns instantes antes. A total ausência de ruídos fora a reação inicial à notícia que Rose dera baixinho, na mesa de jantar, ao redor da qual o pai, a irmã e o irmão haviam se reunido para o jantar.
A declaração fora dada contra a vontade dela. Se tivesse tido outra escolha, Rose Wainwright teria optado por poupar a família dos fatos. A notícia de que a filha bibliotecária, solteira e de 30 anos de idade estava grávida não era bem aquilo que um pai queria escutar - ainda mais o rigoroso e estourado Archy Wainwright, o respeitado senhor de terras de uma das duas famílias mais tradicionais de Mission Creek, no Texas.
Mas isso não era algo que poderia ser mantido em segredo por muito tempo. Embora ainda estivesse na sexta semana de gravidez, Rose sabia que logo começaria a dar sinais de seu estado. Apesar da cintura fina e do fato de ainda não ter perdido sequer uma única peça de roupa, ela se
sentia grávida.
Talvez o peso devastador de seu segredo fosse o responsável por ela se sentir assim. Ou, talvez, fosse porque seu mundo virara de pernas para o ar desde que ela se vira no banheiro, em sua ala própria da enorme mansão, esperando que um exame de farmácia, um pequeno bastão, decidisse seu destino. Não, corrigiu-se Rose, isso não era verdade. Seu mundo virara de ponta-cabeça no instante em que sucumbira pela primeira vez ao charme de Matt, e se apaixonara por ele. Desde a primeira vez em que o viu. Ele se inclinou sobre o balcão da biblioteca e perguntou, com aquele brilho zombeteiro nos belos olhos azuis, se poderia levar consigo qualquer coisa que encontrasse no interior da biblioteca.
Quando ela respondeu hesitantemente que sim, ele pegou sua a mão, e disse que tudo o que queria levar era a bibliotecária. Rose recordava-se de ter ficado vermelha até a raiz dos cabelos negros. Mesmo assim, procurara ignorar os galanteios descarados de Matt. Aprendera a ser cautelosa devido a ele ser quem era. Um Carson. O inimigo. O fruto proibido. Pelo menos para uma Wainwright.
Onde estava com a cabeça?, repreendeu-se ao ver o rosto do pai ficar cada vez mais vermelho. Como pôde se deixar apaixonar por Matt Carson? Fazer amor com Matt Carson? Será que ficara completamente louca? Ah, sim, pensou Rose. Completa e absolutamente louca. Louca por ele. Mas isso não mudava nada. Não mudava a situação, e nem o resultado final. Ela, uma Wainwright, estava grávida de um Carson.
E ninguém, jamais, poderia descobrir essa parte. De pé, no interior do banheiro, ela deixara o bastãozinho do exame cair no lixo, agachara-se no chão e chorara compulsivamente. Depois, havia pousado a mão sobre a barriga chata e chorado mais um pouco pela criança que ainda estava por nascer. A criança que ela já amava. Embora não pudesse esconder o fato de que estava grávida, Rose estava determinada a não revelar a identidade do pai, e, dessa forma, proteger todos a quem amava. Todos a quem amava, incluindo Matt.
Ocultar a identidade do pai do bebê significava enfrentar a fúria de seu pai. Significava enfrentar o olhar frio do irmão mais velho, Justin, que também era o xerife local. E o olhar de incredulidade da irmã caçula, Susan. Mas não havia outro jeito. Já se decidira a ter esse filho. Sozinha. Revelar ao próprio pai que o pai da criança era Matt Carson só resultaria em problemas comparáveis aos que deram início à rixa que separara as famílias outrora amigas, e as colocara em lados opostos nos últimos 75 anos.
Como era impossível para um Carson e uma Wainwright sequer cogitarem a idéia de casamento, ela deliberadamente não contara a Matt que estava esperando um filho dele. Tivera medo de que ele fosse acabar fazendo alguma besteira, como casar com ela por causa do bebê e acabar rompendo relações com a própria família. Essa era uma culpa que ela não estava preparada para carregar.
Pior ainda, tivera medo de lhe contar porque não suportava a idéia de que ele pudesse lhe dar as costas e dizer que ela estava nisso sozinha. Que engravidar fora culpa dela, a despeito das precauções que ela tomara.
Era melhor supor do que ter seus temores confirmados. Embora a idéia de ter um filho de Matt a tivesse aproximado emocionalmente dele, ela fizera de tudo para provocar uma discussão que acabou levando ao fim do romance clandestino.
Lembrar-se do dia em que tudo terminara era doloroso. Mentira pela primeira vez na vida adulta e dissera a Matt que já não se sentia tão feliz por estar com ele. Que estava se sentindo entediada com o relacionamento e com ele.
As palavras deixaram um gosto amargo em sua boca. Mais amargo ainda tinha sido suportar a expressão que viu nos olhos de Matt. Seus lindos olhos azuis estavam carregados de dor. Dor pela qual ela fora responsável. Mas não havia mais nada a fazer.
Rose apertou as mãos sobre o colo, ao fitar o rosto d oprimeiro homem por quem sentira amor: o pai. Com os olhos fixos na filha, Archy esfregava o peito, desenhando pequenos círculos concêntricos sobre ele.
- E então? - exigiu ele, quando ela continuou sem responder.
- Quem é o maldito que anda se assanhando sob suas saias, menina? Qual é o nome do homem de quem eu vou arrancar o couro? Diga logo, Rose. Vou fazer o desgraçado desejar jamais ter nascido.
Ela ergueu o queixo. Sempre fora uma filha obediente, mas isso não significava que não tivesse fibra. Acima de tudo, era filha do pai, e podia ser tão teimosa quanto ele.
- Não.
- Não? - repetiu, incrédulo, Archy.
Rose jamais desafiara sua autoridade daquela forma. Susan e Justin trocaram olhares, prevendo a tempestade que estava por vir. Archy fitou estupefato sua filha mais velha. Fora apenas ontem, que segurara aquela vidinha frágil nas mãos enormes, fascinado que algo tão pequenino tivesse tamanha vontade de viver. Rose Ann Wainwright nascera prematura, dois meses antes do previsto. O médico lhe dera apenas cinqüenta por cento de chance de sobreviver às primeiras 48 horas.
Sua Rosa do Texas enganara a todos. Não apenas sobrevivera, mas se tornara uma bela mulher. Rosie sempre tinha sido a mais quieta dos filhos, mas ele sempre soubera que, por baixo de toda aquela tranqüilidade, havia uma veia de teimosia.
Mesmo assim ela sempre fora totalmente obediente, e Archy tinha de admitir que, no fundo, era assim mesmo que ele gostava. Essa recusa em responder era a última coisa que teria esperado dela. A rebeldia que viu nos olhos da filha o pegou totalmente desprevenido. A fúria tomou o lugar da surpresa.
- O que diabos quer dizer com não?
Rose apertou as mãos com mais força ainda. Procurou se lembrar de que isso era para o bem de todos. Tinha de ser forte, tinha de se recusar a entregar o nome de Matt.
- Exatamente isso. Não. - Ela ergueu o queixo, notando que o irmão e a irmã a fitavam como se, subitamente, ela houvesse se transformado em um gigantesco condor bem diante de seus olhos. Sua voz ficou mais forte e mais alta, ao prosseguir: - Não, não vou lhe dizer quem é o pai. Não, não vou me casar com ele. E, não, não vou permitir que ameace ninguém em meu nome.
- Nosso nome, menina, nosso nome - lembrou Archy, com os olhos tão sombrios quanto o céu antes de uma tempestade. - Você não é uma criatura qualquer, é uma Wainwright. Droga, menina, isso quer dizer algo por essas bandas.
Ela se recusou a desviar o olhar, embora fosse o que mais quisesse fazer. Mas agora não era hora de ser covarde. Pelo bem do bebê, e do próprio pai, não podia desistir.
- Sei disso, papai.
Archy esforçou-se para reprimir sua indignação e sua mágoa.
- Não, não acho que saiba. Se soubesse, não teria se permitido acabar nesse estado. - Quando olhou para a filha, o patriarca dos Wainwright esforçou-se para suavizar o tom de voz. - Tem certeza, menina? Você parece estar tão magra. Talvez seja apenas um engano. Você sabe, com o calendário.
- Não - retrucou ela. - Não é um engano com o calendário.
Rose viu o rosto do pai desbancar. Sabia que o estava privando de sua última linha de defesa, sua última esperança. Não pôde deixar de se comover com a maneira eufêmica como ele tentara abordar o assunto de sua menstruação. Sutileza não fazia parte das qualidades de Archy Wainwright. Mas, de seu próprio modo desajeitado, ele estava tentando lidar com a situação.
E Rose sabia que, desse modo desajeitado, o pai a amava. O fato de estar soltando fogo pelas ventas e esbravejar não fazia diferença. Archy jamais soubera como demonstrar afeto, apenas a mais pura raiva.
- Então, você realmente está...
- É, estou.
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