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PRÓLOGO
Alexei Constantin acomodou-se no banco de trás do carro preto que o esperava no meio-fio. Enquanto isso, o motorista fechava a porta, assumia seu lugar ao volante e saía para o trânsito matinal de Londres.
Por um breve instante, pensou nos luxos com os quais contava naquele momento. A vida mudara muito desde que partira, há quinze anos, de seu país no mar Adriático, aos 18 anos. Era um adolescente mirrado, com um pouco mais do que as roupas do corpo. Ele tratou de esquecer aquilo, baixando os olhos e ajeitando-se mais uma vez no estofado de couro. Pegou o jornal de cima da pilha que colocara no banco a seu lado e separou o caderno de Economia. Olhou para o papel cor-de-rosa do Financial Times. "AC Internacional pressiona Hawkwood" , anunciava a manchete.
Constantin leu a matéria rapidamente, o semblante inexpressivo. Com a mesma agilidade, deu uma olhada nos outros jornais. Somente um o fez parar. Era uma fotografia, claramente tirada em algum evento da sociedade, que estava ao lado de um texto sobre a batalha de poder nas Empresas Hawkwood pela AC Internacional. De repente Alexei se deparou com a imagem de uma pessoa: Giles Hawkwood.
O homem destacara-se na fotografia, do mesmo modo que procurava dominar tudo e todos. Estava usando um smoking impecável. Suas feições fortes eram emolduradas por espessos cabelos grisalhos. Por um momento, não fez nada; só olhou para o rosto do implacável homem. Então, tendo visto o que queria, observou as companhias de Hawkwood.
Havia duas mulheres, uma de cada lado dele. Uma delas era da mesma geração, embora fosse bem conservada. A ilustríssima Amabel Hawkwood, filha do visconde Duncaster, olhava para o mundo com uma expressão aristocrática e arrogante. Alexei se perguntou se ela era também tão aristocrática e arrogante na clínica de desintoxicação, a qual, segundo rumores, freqüentava bastante.
Alexei passou à outra mulher, à esquerda de Hawkwood. Ela estava desviando o rosto da câmera, virada para uma pessoa cortada da foto. Havia pouco para ver da mulher, além do ombro nu, o bonito vestido de noite, os cabelos loiros e um brinco de diamante na orelha. Porém, Alexei sabia quem ela era.
Era Eve Hawkwood, 25 anos de idade e a única filha de Giles Hawkwood.
Como a mãe, Eve Hawkwood era uma socialite sofisticada, enfeitando o braço do pai rico em grandes eventos como aquele da foto. Com o dinheiro que o pai possuía, Eve podia passar a vida viajando pelos lugares mais luxuosos do mundo, comprando as roupas que queria, mimando-se o dia inteiro. Ela não precisava se rebaixar a algo tão deprimente quanto um emprego.
Eve Hawkwood trabalhava para viver. Se você pudesse chamar aquilo de trabalho... Giles Hawkwood, um homem que conseguia qualquer coisa que lhe desse na telha, não era adverso a explorar todos os recursos à mão. Não apenas se casara com a ilustríssima Amabel pela sua posição social, suportando as famosas "fraquezas" dela, como também não hesitava em se aproveitar o máximo da juventude e beleza da filha.
Alexei estudou a fotografia. Podia não ser capaz de ver os traços de Eve Hawkwood, mas o queixo erguido e a postura reta da coluna davam-lhe um ar parecido com o da mãe. Um ar de arrogância, de imponência. Eve Hawkwood, como ele ouviu, não era nem um pouco intocável... apenas nas ocasiões em que seu pai lhe dizia para não ser. Abruptamente, Alexei jogou o jornal no banco. Nem Eve Hawkwood nem Amabel eram de seu interesse. Apenas Giles Hawkwood estava na sua mira.
CAPÍTULO UM
Eve estava sentada na poltrona macia do avião, pernas graciosamente cruzadas, lendo uma revista Vogue. Havia apenas mais um passageiro no jato particular que voava sobre a França em direção a Cote d‘Azur. Do outro lado do corredor, o pai mexia em papéis de trabalho, com a testa franzida.
Ele estava de mau humor, Eve sabia. Um humor que havia piorado desde que a AC Internacional fizera uma oferta alta pelas ações das Empresas Hawkwood. No começo, Giles encarara aquilo com desdém, mas quando diversos acionistas começaram a ver com bons olhos a proposta, ou sucumbir ao sedutor prêmio que a AC Internacional oferecia pelas ações Hawkwood, a reação dele mudara.
A concorrência se tornou uma batalha. Uma batalha que seu pai travava agora com o homem que tivera a audácia de tentar tirar-lhe a empresa.
- Quando eu encontrá-lo, tem de parecer coincidência - disse ele para Eve. - Se você estiver comigo, vai parecer apenas uma ocasião social.
Aquele era um papel familiar que Eve era obrigada a fazer: a filha equilibrada, a atenciosa anfitriã. Isso toda vez que seu pai requeria a companhia jovem. Das vezes em que seu pai tivera companhias não respeitáveis foram inúmeras. Ainda se lembrava do choque que sentira quando, na época de escola, apareceu de surpresa no apartamento de Mayfair de seu pai e encontrou uma verdadeira orgia.
Garotas nuas andavam pelo apartamento, com o claro propósito de entretenimento sexual, e um filme pornográfico brilhava em uma enorme tela. Desde então, Eve não tinha ilusões sobre o que seu pai fazia para se divertir quando não estava aumentando sua riqueza e sendo um completo patife com todos à sua volta. E, certamente, não era o único a se divertir daquela maneira.
Quando aconteciam aqueles tipos de festa, alguns dos homens eram novos ricos. Especialmente os estrangeiros que tinham acabado de descobrir como ganhar muito dinheiro.
O tal Alexei Constantin seria assim? Ele vinha de um daqueles países do sudeste da Europa que cresceram nos últimos quinze anos após a queda do comunismo. O que ela sabia do lugar, Dalaczia, era pouco, embora houvesse pesquisado sobre o assunto na noite anterior. Aquele seria um bom assunto, se precisasse conversar com o homem. Descobrira que Dalaczia fazia fronteira com a Grécia e era uma área montanhosa, além de ter lutado por séculos pelo poder na região dos Balcãs. A religião oficial era a Igreja Ortodoxa e o alfabeto era uma variação do cirílico.
O governo, precário e instável. Mas Eve não pretendia discutir tais assuntos, pois poderiam causar polêmicas. Em vez disso, tinha uma lista sobre aspectos naturais, alguns dados sobre flora e fauna e costumes do povo. Isso deveria ser suficiente.
Você
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