Tellie apenas riu. Mas seu coração estava infeliz porque J.B. não aparecera na sua formatura. Nada poderia mudar isso.
A casa de Marge ficava no subúrbio de Jacobsville, há cerca de quinze quilômetros do grande rancho que pertencia à família há três gerações. A casa era pequena, mas acolhedora, com uma janela grande
bay window na frente e uma varanda com um balanço branco. Estava cercada por flores plantadas por Marge. Era maio, todas floresciam, e o pequeno quintal ficava com as cores do arco-íris. Também havia um canteiro de rosas que emanavam um perfume maravilhoso e eram o orgulho e a alegria de Marge.
- Tinha me esquecido de como era lindo - falou Tellie suspirando.
- Howard também amava o jardim - Marge disse, e os olhos escuros carregados de lembranças observavam o viçoso gramado que se estendia até a aléia de pedras, conduzindo à varanda.
- Não o conheci, mas deve ter sido uma pessoa adorável - disse Tellie.
- E era mesmo - concordou Marge, os olhos tristes ao se lembrar do marido.
- Vejam, é o tio J.B.! - gritou Dawn, apontando para a estreita estrada que seguia até a entrada de carros da casa.
Tellie sentiu os músculos se retesarem. Virou-se quando o Jaguar vermelho parava e levantava uma nuvem de poeira amarelada. A porta se abriu e J.B. saiu. Ele era alto e magro, com cabelos negros e olhos verde-escuros. As maçãs do rosto eram expressivas e a boca bem-feita. Tinha um porte tão masculino que atraía as mulheres feito imã. O andar sensual fazia o coração de Tellie saltar.
- Onde estavam, afinal? - resmungou ele ao se aproximar. - Procurei em todos os lugares até desistir e voltar!
- O que quer dizer com isso? - exclamou Marge.
- Estávamos na formatura de Tellie. Não que você tenha se importado em comparecer...!
- Estava no estádio, do lado oposto ao de vocês - disse J.B. irritado. - Não as vi até o fim da cerimônia. Quando consegui passar pela multidão e chegar ao estacionamento, vocês já tinham saído do alojamento e voltado para casa.
- Foi na minha formatura? - perguntou Tellie, com um tom surpreso na voz.
Ele se virou, fitando-a. Os olhos eram grandes, mordazes, rodeados por espessos cílios negros.
- Houve um incêndio no celeiro, por isso cheguei atrasado. Acha que perderia algo tão importante quanto a sua formatura? - disse ele exasperado, embora os olhos evitassem os dela.
Seu coração se alegrou, contra sua vontade. Sabia que era considerada como uma segunda irmã, mas qualquer contato com ele a fazia estremecer de prazer. Não podia evitar o contentamento que iluminava seu rosto, tornando-a encantadora. Ele olhou ao redor, ainda irritado, e segurou a mão de Tellie, fazendo o coração dela palpitar.
- Venha comigo - disse ele, levando-a até o carro.
Ele a acomodou no banco de passageiros, fechou a porta e deu a volta para se sentar ao seu lado. No console entre os bancos do carro, pegou uma caixa envolta em papel dourado e lhe entregou. Ela pegou o embrulho, surpresa.
- Para mim?
- Para ninguém mais - disse ele, sorrindo. - Vamos. Abra.
Ela rasgou o papel. Era a caixa de uma joalheria, porém grande demais para ser um anel. Ela a abriu e ficou atônita. Ele franziu a testa.
- O que foi? Não gostou?
Era um relógio, com o rosto do Mickey, e uma pulseira vermelha. Mas ela sabia o que significava o presente. Era óbvio que a secretária, Srta. Jarrett, que não gostava de comprar presentes por ele, finalmente tinha perdido a paciência. Pensando que estava comprando jóia para alguma das namoradas dele, insinuara que era melhor escolher os presentes que daria de agora em diante. Tellie ficou magoada, pois sabia que J.B. escolhia os presentes para Marge e as meninas. Jamais delegava essa tarefa a subordinados. Mas pensando bem, Tellie não fazia parte da família.
- É... Muito bonito - gaguejou, sabendo que permanecera em silêncio por um longo tempo.
Tirou o relógio da caixa, permitindo que ele o visse pela primeira vez. Antes que pudesse se conter, palavras nada educadas saíram de seus lábios. Então ficou ruborizado por não poder admitir que não escolhera pessoalmente o presente. Mas prometeu a si mesmo que chamaria a atenção de Jarrett.
- Está na moda - disse ele, deliberadamente.
- Eu adorei. De verdade. - Ela o colocou no pulso.
Não tinha orgulho próprio. Teria gostado até de um animal morto se fosse um presente de J.B. Ele franziu os lábios, finalmente absorvendo o ridículo da situação. Os olhos verdes piscaram.
- Será a única jovem daqui a ter um - afirmou ele.
Ela riu. Seu rosto ficou radiante.
- Obrigada, J.B. - disse.
Ele a puxou o mais próximo que o console do carro permitia, concentrando o olhar nos lábios entreabertos.
- Pode fazer mais que isso - murmurou maliciosamente, inclinando-se.
Ela ergueu o rosto, fechou os olhos e saboreou a pressão suave e quente dos lábios dele sobre os seus. Ele se retesou.
- Não, não pode - murmurou, ríspido, quando ela manteve os lábios firmemente fechados.
Segurou seu rosto com uma das mãos e o pressionou suavemente, para fazê-la abrir a boca. Então procurou seus lábios, faminto, encostando a cabeça dela no banco. Tellie sentia-se em transe, adorando o beijo. Ela suspirou e um gemido escapou de sua garganta. Ele ergueu a cabeça. Os olhos verdes a sondavam, exibindo a frustração de seu próprio desejo.
- Começamos tudo outra vez - disse ele, irritado.
Ela engoliu em seco.
- Mas eu não disse nada - protestou ela.
- É claro que não - retrucou ele.
Ambos voltaram para junto de Marge e das garotas, e ela exibiu seu relógio novo.
- Vejam, não é lindo? - perguntou.
- Quero um também! - exclamou Brandi.
- Você só se forma no próximo ano, querida - lembrou Marge.
- Mas vou querer um - repetiu, de maneira teimosa.
- Vou me lembrar disso - prometeu J.B. Ele sorriu, mas o sorriso não chegava aos seus olhos. -Parabéns mais uma vez, querida - disse para Tellie.- Preciso ir, pois tenho um encontro esta noite.
Encarava Tellie quando falou. Ela apenas sorriu.
- Obrigada pelo relógio - repetiu.
Ele sacudiu os ombros.
- Combina com você - comentou de modo enigmático.
- Até breve, garotas.
Ele entrou no carro e partiu.
- Eu adoraria ter um destes - comentou Brandi enquanto observava J.B. ir embora.
Marge ergueu o pulso de Tellie e observou o relógio.
- Que horrível! - disse ela, perplexa.
Tellie sorriu, melancólica.
- Ele pediu a Jarrett que escolhesse. J.B. sempre a faz comprar presentes para todos, menos para você e as meninas. É óbvio que ela pensou que fosse para uma das louras platinadas, e resolveu se vingar.
- Tem razão, imaginei o mesmo - respondeu Marge, ruborizando. - Mas foi você que ficou magoada, não J.B.
- Jarrett estará encrencada - disse Tellie suspirando.
- Pobrezinha!
- Pois acho que ele ouvirá um bom sermão - Marge lembrou. - E com razão.
- Ele deve gostar de mulheres enérgicas, não é mesmo? - comentou Tellie enquanto entrava em casa.
- Nell cuida de tudo com mãos de ferro.
- Nell já é parte de nossa família. Não sei o que seria de nós sem ela. Mamãe morreu quando éramos pequenos e papai nunca foi muito carinhoso.
- Será por isso que J.B. é desse jeito? - se perguntou Tellie.
Como sempre, Marge ficou calada.
- Jamais falamos sobre o assunto - disse ela.
- É uma história desagradável e J.B. não quer lembrá-la.
- Nunca me contaram o que aconteceu - insistiu Tellie.
Marge sorriu gentilmente.
- E ninguém vai contar, querida, a não ser J.B.
- Já sei quando isso vai ser - suspirou Tellie. - Quando começarem a usar casacos.
- Exatamente - concordou Marge, solidária.
Naquela mesma noite, assistiam a um filme na tevê quando o telefone tocou. Marge atendeu e voltou parecendo preocupada.
- É Jarrett - disse ela. - Quer falar com você.
Tellie atendeu o telefone.
- Tellie? Só queria me desculpar...
- Não foi sua culpa, Srta. Jarrett - respondeu Tellie. - O relógio é muito bonito. Eu adorei.
- Mas era seu presente de formatura. - A velha senhora se lamentou. - Pensei que fosse para uma daquelas louras estúpidas com as quais ele namora. Fiquei zangada porque ele nem se preocupa em escolher e comprar um presente. - Ela percebeu o que acabara de dizer e pigarreou. - Não que eu ache que não se importe com você, claro!
- É óbvio que não se importa - respondeu Tellie entre os dentes.
- Não diria isso se estivesse aqui quando ele chegou - retrucou ela. - Nunca o ouvi proferir palavras tão horríveis.
- Só está zangado porque foi pego - disse Tellie.
- Ele disse que estraguei um dos dias mais especiais de sua vida - contou a srta. Jarrett, parecendo infeliz.
- J.B. já tinha estragado tudo porque não foi à formatura. - Tellie estava prestes a mencionar que ninguém o tinha visto, e imaginaram que ele não aparecera.
- Ah, então já sabe? - O comentário foi inesperado.
- Tínhamos ordens de dizer que ele esteve ocupado por causa de um incêndio, caso alguém perguntasse. Na verdade, estava numa reunião com um comprador de gado de fora da cidade, que trouxe a filha. Esqueceu-se completamente da cerimônia.
O coração de Tellie parecia partir-se em dois.
- Não precisamos mais comentar sobre esse assunto, não é mesmo? - disse ela, tentando segurar as lágrimas. - Obrigada por ter telefonado, srta. Jarrett. Foi muita gentileza.
- Só queria que soubesse que sinto muito - A velha senhora parecia muito pesarosa. - Não faria nada para magoá-la.
- Eu sei.
- Parabéns pela formatura!
- Obrigada.
Tellie desligou o telefone e voltou para a sala sorrindo. Jamais contaria a verdade sobre a sua formatura. Mas sabia que nunca esqueceria aquele dia.
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