Polêmica juventude eterna

A humanidade sempre perseguiu a juventude eterna. E, ao longo dos séculos, não faltaram poções tentando aplacar os efeitos do tempo. Hoje, há quem acredite que a fonte, onde se encontra o tal elixir, finalmente foi descoberta.
por admin

Desde que o mundo é mundo, uma das coisas mais buscadas e desejadas pela humanidade é o elixir da juventude. Apesar da imagem de maturidade, sabedoria e experiência de vida que as rugas e os cabelos brancos passam, o que mais se deseja é parar no tempo. Mesmo que, ao longo do século 20, a nossa expectativa de vida tenha dado um belo salto – afinal, hoje somos capazes de viver até trinta anos a mais do que nossos antepassados -, há muita gente insatisfeita. Quem não gostaria de viver para sempre saudável, ativo e em boa forma? Alternativas diversas aparecem por aí, assumindo ares de poções mágicas, prometendo mundos e fundos para nossa saúde e apontando um caminho rápido e fácil para uma vida mais longa e saudável. Porém, como diz o ditado, a natureza é sábia. Tentar evitar a ação do tempo é tentador, mas as conseqüências podem ser desastrosas.

A mais nova – e polêmica - tendência para bloquear o envelhecimento é o uso diário e injetável do hormônio GH (sigla em inglês para growth hormone, ou seja, hormônio do crescimento). Este hormônio, como o próprio nome diz, é responsável pelo crescimento do corpo e trabalha em fase mais acelerada em crianças e adolescentes. É produzido naturalmente pelo organismo, através de uma glândula chamada hipófise, que fica na base do cérebro. Isso acontece à noite, durante o sono. Com o passar dos anos, essa atividade – que envolve a renovação celular - vai diminuindo, provocando ganho de peso e aparecimento de cabelos brancos e rugas. A pele vai perdendo a elasticidade, a musculatura vai afrouxando, o fôlego, ah!, já não é mais o mesmo... Por isso, muitos médicos que recebem pessoas interessadas em manter o vigor e a aparência da juventude vêm receitando tratamento à base de GH, alegando que ele é capaz de fazer milagres pela manutenção da saúde: melhora o nível de atividade celular, aumenta a força muscular, provoca perda de peso e ainda dá uma boa turbinada na aparência da pele. Ou seja: com injeções diárias do hormônio, a pessoa garantiria a juventude por muito mais tempo.

Para reforçar o mito milagroso do hormônio, existem no mercado alguns "supermedicamentos" de uso oral, à base de GH, fazendo promessas inacreditáveis: ingerindo uma drágea por dia, você ganha músculos desenvolvidos e mais força, perde peso sem necessidade de exercícios físicos, fortalece a memória e o sistema imunológico e ainda melhora a atividade do coração, dos rins e o desempenho sexual. É muito milagre dentro de uma simples caixinha, não é mesmo? "Não existe qualquer comprovação da eficácia desses produtos, porque o método mais indicado para o tratamento com GH ainda é o injetável, ainda assim exclusivamente para quem tem problemas de crescimento, não para fins estéticos. O que esses produtos têm é efeito placebo, nada mais do que isso", alerta do Dr. César Boguszewski, endocrinologista do Hospital das Clínicas de Curitiba.

De acordo com o médico, mesmo em estudos científicos os resultados do uso do hormônio são controversos. "O GH realmente tem efeito anabólico, ou seja, melhora os músculos e diminui a gordura corporal. Só que seu uso para fins estéticos é totalmente equivocado, porque o objetivo dele não é esse. As injeções são dirigidas ao tratamento de pessoas que têm problemas de crescimento e deficiências no funcionamento da hipófise. Nos anos 90, foram feitos estudos em idosos, com a aplicação do GH injetável, e os efeitos anabólicos se comprovaram. Depois de um ano de tratamento, porém, eles começaram a apresentar efeitos colaterais", observa ele. Esses efeitos colaterais, causados pelo uso indevido do GH, são os mais diversos. A curto prazo, provocam problemas articulares e retenção de líquidos em todo o corpo; a longo prazo, aumentam as chances de desenvolvimento de câncer, diabetes e tumores, principalmente em quem já tem tendência a desenvolver essas doenças. Outro problema acarretado pelo excesso do hormônio no organismo é a acromegalia - doença que provoca o crescimento exagerado de membros e órgãos, insuficiência cardíaca e dores articulares.

Quem sofre de diabetes, então, não pode nem pensar em fazer uso inadequado do GH. O risco de agravamento da doença é grande, já que o hormônio tem efeito oposto ao da insulina. Além disso, existe a crença de que a presença elevada de açúcar no sangue bloquearia a produção desse hormônio. A partir daí, criou-se a idéia de que, como o GH é produzido intensamente durante a noite, o ato de comer um simples docinho antes de dormir seria capaz de atrapalhar sua produção. Será mesmo verdade? "Essa afirmação não possui qualquer comprovação científica", tranqüiliza o Dr. César. Mesmo assim, um alerta para quem não só come doces à noite, mas costuma exagerar na dose de todo e qualquer tipo de alimento: o excesso de peso, esse sim, provoca queda na produção do hormônio. Para combater o problema, a solução é malhar, pois a atividade física, segundo especialistas, ajuda a normalizar a produção do GH.

Ainda tem mais notícia ruim pela frente: segundo especialistas, o uso do hormônio GH para fins estéticos não conta com qualquer regulamentação que estabeleça como, quanto e quando as injeções devem ser administradas. Isso quer dizer que nem mesmo os médicos têm como se basear em dados antes de dar a receita. "Não existem documentos oficiais que apontem como o GH vem sendo administrado, nem qual a dose que vem sendo prescrita. Em geral, as doses do hormônio são bem toleradas pelo organismo, mas aos poucos vão aparecendo os estragos", observa Cesar Boguszewski.

Como se pode notar, todo o alarde que vem sendo feito para promover o GH como a nova fórmula de rejuvenescimento não passa de um belo mito. "Há mais riscos do que benefícios para a saúde. Mas é importante notar que a maioria das pessoas que busca esse tipo de tratamento e relata que ele funciona é extremamente preocupada com a boa forma, habituada a dietas e exercícios físicos. Na realidade, os benefícios que elas vêem no corpo não são fruto do efeito exclusivo do GH, mas dos hábitos saudáveis. Nesse caso, o hormônio tem mais um efeito psicólogico do que físico", explica o endocrinologista Amélio de Godoy Mattos. Resultado: as pessoas pensam que é o hormônio fazendo a maior reforma no corpo, quando na verdade o que vêem refletido no espelho é apenas o resultado de muito suor na academia e uma alimentação bem orientada.

Para o Dr. Amélio, o caminho para uma vida mais longa depende também do que se coloca no prato, na hora das refeições. "Pesquisas feitas com animais comprovaram que uma alimentação restrita, de pouca quantidade de alimentos, que faça com que os radicais livres sejam eliminados do organismo, aumenta o tempo de vida. Com a melhora da saúde, as células ficam menos danificadas, daí a chance de se viver mais e melhor, longe de doenças. É possível que, em seres humanos, essa dieta de restrição tenha os mesmos efeitos. Acredito que o equilíbrio entre corpo e mente, através de uma vida saudável, ainda é o melhor remédio contra o envelhecimento", afirma ele.

Pensando bem, se a solução é ter alimentação adequada, exercícios regulares, boas horas de sono, uma rotina saudável e, por conseqüência, uma mente ativa, não precisamos procurar por mais nenhuma fórmula mágica: o elixir da juventude sempre esteve ao nosso alcance. Basta apenas rever o estilo de vida.

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